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Candidato a secretário-geral da ONU, Rafael Grossi afirma que entidade pode ficar irrelevante
Candidato a secretário-geral da ONU, Rafael Grossi afirma que entidade pode ficar irrelevante
Argentino afirma que agência nuclear está pronta para trabalhar no Irã se houver acordo com os EUA
Por Igor Gielow/Folhapress
12/06/2026 às 13:15
Foto: Divulgação/Wikipedia
O argentino Rafael Mariano Grossi, diretor-geral da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica)
A ONU (Organização das Nações Unidas) está sob "grande risco" de se tornar irrelevante, e apenas uma redução de sua burocracia e a adoção de uma ação mais incisiva em questões mundiais poderão reverter a crise no multilateralismo.
A afirmação foi feita ao jornal Folha de São Paulo nesta sexta-feira (12) pelo argentino Rafael Mariano Grossi, 65, o diretor-geral da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), que é 1 dos 4 candidatos para o cargo de secretário-geral da ONU —a escolha poderá ocorrer no mês que vem.
Ele conversou com um grupo de jornalistas que participaram de um seminário sobre a atuação da AIEA, sediada em Viena. Desde o fim de 2019 à frente da agência, o argentino ganhou reputação de dinamismo e acusações de personalismo.
Grossi sustentou sua campanha à chefia da ONU defendendo um órgão mais proativo. Como faria isso? "Em assuntos de paz e segurança, faria como no cessar-fogo [mediado entre Rússia e Ucrânia na região da usina nuclear de Zaporíjia]. Falaria com beligerantes, há conflitos crônicos", disse.
"O mesmo vale com desenvolvimento. É preciso reforma. A ONU perdeu o foco, ninguém vai questionar isso. É preciso mudar isso. Hoje há quase 200 instâncias, disputas burocráticas como em governos. É preciso voltar ao realismo. O risco de a ONU se tornar totalmente irrelevante é muito grande", completou.
O argentino é criticado por não ter deixado a chefia da AIEA para a disputa, como recomenda o estatuto da ONU, mas ele apresenta seu trabalho como "prova viva de que uma organização multilateral pode funcionar".
O relativo sucesso na Ucrânia, contudo, tem sido ofuscado pelas dificuldades no Irã, embora a conta tenha de ser debitada do comportamento dos beligerantes —Teerã limitou e ao fim vetou o trabalho de inspetores de seu programa nuclear, e os EUA iniciaram a atual guerra em fevereiro.
Sobre a questão, Grossi afirma que a agência está pronta para entrar em campo caso haja um acordo entre iranianos e americanos, algo que não estava certo quando ele concedeu a entrevista. "Muito do trabalho em solo já foi feito [antes da guerra]", diz. "O mais importante é a verificação, a começar pelo urânio enriquecido do Irã."
Na quinta (12), o conselho executivo de 35 membros da AIEA aprovou uma resolução promovida pelos Estados Unidos pedindo a volta das inspeções e uma inédita verificação do destino dos 441 kg de urânio enriquecido a 60%, que podem ser usados para a confecção de explosivos de baixo rendimento.
O Irã acusou Grossi e a agência de agirem em favor dos EUA, algo que o diretor-geral descarta. "A imparcialidade é um lugar muito solitário", diz o argentino.
Grossi está na disputa com a chilena Michelle Bachelet, a costarriquenha Rebeca Grynspan e o senegalês Macky Sall. Ele foi indicado pela Argentina de Javier Milei, mas rejeita caráter político da medida.
Bachelet teve a candidatura bancada pelo Brasil de Lula (PT), o que Grossi já disse lamentar por dividir a América Latina. Mas ele busca focar nas questões da AIEA e em como transplantar seu estilo para Nova York, se for bem-sucedido.
"O secretário-geral não é um papa laico ou juiz. Ele tem de estar lá para solucionar problemas. Há diferentes instrumentos na caixa de ferramentas da diplomacia. O importante é saber o que é mais adequado e quando usar", afirmou.
