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Catarinense condenado por 8/1 defendeu 'lutar até último segundo para PT não entrar'
Catarinense condenado por 8/1 defendeu 'lutar até último segundo para PT não entrar'
Por Catarina Scortecci, Folhapress
03/05/2026 às 08:56
Foto: Reprodução/Ação Penal/STF e Redes Sociais/Arquivo
Da esquerda para a direita, o aposentado Vilamir Valmor Romanoski, 59, e os empresários Rene Afonso Mahnke, 57, e Alcides Hahn, 71, foram condenados a 14 anos de prisão pelo STF
Condenados a 14 anos de prisão pelo STF (Supremo Tribunal Federal) na esteira dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, três moradores de Santa Catarina tiveram participações distintas no episódio e um deles, o aposentado Vilamir Valmor Romanoski, 59, foi apontado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) como alguém com um papel relevante na mobilização que antecedeu a depredação das sedes dos Três Poderes.
Tanto Vilamir quanto os empresários Alcides Hahn, 71, e Rene Afonso Mahnke, 57, foram condenados por ajudarem no financiamento de um ônibus que partiu de Blumenau (SC) em 5 de janeiro daquele ano para levar apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro à capital federal.
Vilamir, Alcides e Rene contribuíram com valores diferentes e não estavam presentes no ato em Brasília.
Enquanto Vilamir transferiu pouco mais de R$ 10 mil para financiar o transporte dos manifestantes até Brasília, Rene deu R$ 1.000 e Alcides fez um Pix de R$ 500 (o que seria o equivalente a uma única passagem, considerando o custo total de R$ 22 mil pelo trajeto, com 41 passageiros).
Os três foram condenados a 14 anos de prisão pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração do patrimônio tombado e associação criminosa armada. A derrubada do veto ao Projeto de Lei da Dosimetria pelo Congresso abre a possibilidade de que eles obtenham alguma diminuição dessas penas.
Embora tenham recebido a mesma pena, o envolvimento deles no episódio é diferente, assim como a quantidade de provas apresentadas pela PGR.
Dos três catarinenses condenados, Vilamir foi o primeiro a ter o acórdão com trânsito em julgado (quando não há mais possibilidade de recurso), em 11 de março. Ele ainda aguarda o início do cumprimento da pena. Já as defesas de Alcides e Rene apresentaram embargos de declaração —um tipo de recurso que pede esclarecimentos sobre a decisão— que ainda não foram analisados pelo STF.
Em relação a Vilamir, a PGR narra na denúncia que ele recrutou pessoas, se engajou na organização e no financiamento do transporte de bolsonaristas de Santa Catarina a Brasília, além de também ajudar na manutenção em 2022 do acampamento em frente a um quartel do Exército em Brusque (SC) cuja bandeira era contestar um processo eleitoral regular, vencido por Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nas mensagens interceptadas pela Polícia Federal durante a investigação, Vilamir dizia a uma pessoa que o objetivo das mobilizações era "lutar até o último segundo pro PT não entrar" e sugeriu ainda que "sem sangue não vai ter como". Na visão dele, havia "vários indícios de que teve fraude nas eleições" e que "Bolsonaro era pra ter ganhado no primeiro turno já".
O advogado Leandro Allein, responsável pela defesa de Vilamir, disse ao STF que o empresário defendia uma manifestação pacífica e que a situação em Brasília teria se "desvirtuado para uma baderna de velhos e senhoras" porque houve falha deliberada na segurança. Afirmou ainda que o STF não teria competência para tratar do caso do seu cliente e que a corte se tornou "um tribunal de exceção para julgar deliberadamente opositores políticos".
A defesa sustenta ser indevida a responsabilização por atos de terceiros e que não há prova de associação criminosa. Sobre as conversas interceptadas, o advogado argumentou que em todos os celulares de opositores do governo "terão pensamentos contra o governo" e, em nota à Folha, acrescentou que seu cliente tem "boa reputação, que nunca pisou em uma delegacia e tinha por hábito a organização de eventos com fins de caridade".
Segundo a PGR, após os ataques de 8 de Janeiro, Vilamir permaneceu arrecadando valores para a volta dos manifestantes às suas cidades de origem. A maioria dos passageiros era de Brusque, mas também havia manifestantes de Blumenau, Itajaí e Joinville.
Vilamir tem aposentadoria especial desde 2015 obtida por decisão judicial, em razão do período de exposição à eletricidade trabalhando na empresa Celesc Distribuição.
Em nota à Folha, o escritório Souto Correa Advogados, responsável pela defesa de Alcides, aponta que há casos em que réus tiveram possibilidade de acordo de não persecução penal e sustenta que o processo "merece reavaliação à luz de critérios de proporcionalidade e da individualização de condutas".
Conforme consta na ação, a defesa de Alcides argumentou que a acusação teria tido como base apenas o comprovante de Pix de R$ 500 e que não haveria prova de que o acusado tivesse ciência de eventual finalidade ilícita.
Também afirmou não haver provas de vínculo associativo, participação em organização ou adesão a atos antidemocráticos. Disse ainda que o empresário "rechaça os lamentáveis atos golpistas e antidemocráticos perpetrados em 8 de janeiro de 2023".
A defesa também alega que Alcides não tem histórico de violência nem antecedentes criminais. Sobre um pedido de medida protetiva apresentado por sua ex-mulher em 2025, por ameaça, a defesa alegou que o caso foi analisado pelo Judiciário e não teve prosseguimento. A reportagem não conseguiu contato com a ex-mulher dele.
Alcides tem sido citado por políticos bolsonaristas que contestam o tamanho das penas impostas pelo STF, como o deputado federal Domingos Sávio (PL-MG), que chamou o caso dele de absurdo: "Na prática, sabe o que ele fez? Ele, que sempre ajudou pessoas e entidades, fez um Pix de R$ 500", diz o deputado em vídeo na rede social.
Ao STF a defesa de Alcides, que hoje é sócio da empresa H2M Administradora de Bens Ltda, diz que ele começou a trabalhar aos 12 anos como empacotador e que, após a morte da mãe, mudou-se com 14 anos para Corupá. Iniciou em uma empresa de equipamentos elétricos e, em 1985, virou empresário.
Já a defesa de Rene, feita pelo escritório MMD Advogados, afirmou ao STF que a imputação que pesa sobre o empresário "se sustenta exclusivamente em um pagamento bancário de ínfimos R$ 1.000".
"É todo o arsenal probatório produzido contra ele. Nada mais. E, ainda assim, o Ministério Público pretende extrair desse único elemento um conjunto de ilações que o transformariam, artificialmente, em peça integrante de uma engrenagem golpista", escreve a defesa.
A defesa questiona o que vê como fragilidade probatória e a ausência de individualização das condutas. Argumenta ainda que não haveria qualquer prova de que o acusado tenha aderido a propósito golpista, integrado associação criminosa, mantido contato com organizadores, participado de acampamentos ou divulgado conteúdo antidemocrático.
Rene é dono de um tradicional comércio atacadista de plantas ornamentais em Corupá.
Segundo a decisão do STF, os três "aderiram subjetivamente à empreitada criminosa, contribuindo de maneira efetiva e relevante para a execução dos delitos, com vínculo de desígnios com os demais envolvidos, em contexto de mobilização organizada e previamente estruturada, voltada à prática de atos violentos contra a ordem constitucional e o patrimônio público".
A reportagem não conseguiu entrevistar os réus. As defesas de Vilamir e Alcides se manifestaram por meio de notas. A Folha não conseguiu contato com a defesa de Rene.
