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Após derrota no Congresso, governo aposta em pressão dos trabalhadores para tentar derrubar escala 6x1
Após derrota no Congresso, governo aposta em pressão dos trabalhadores para tentar derrubar escala 6x1
Ministros pedem que sociedade se mobilize para forçar Congresso a votar propostas por jornada menor
Por Folhapress
01/05/2026 às 20:20
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Ato do 1º de maio no Rio de Janeiro pede fim da escala 6x1
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aposta na pressão dos trabalhadores para que o Congresso vote o fim da escala 6x1 antes das eleições. Integrantes da cúpula governista pediram, em atos em São Paulo e no Rio neste 1º de Maio, que a sociedade entre em campo para pressionar deputados e senadores em prol da redução da jornada de trabalho.
A pauta é a esperança de o governo retomar fôlego após duas derrotas legislativas: o bloqueio da indicação de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal) e a derrubada do veto de Lula ao PL (projeto de lei) da dosimetria, que reduz a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros condenados por tentativa de golpe.
O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, disse que o Planalto cumpriu seu papel de provocar o debate sobre o fim da escala 6x1, enviando projeto de lei ao Congresso, mas que a responsabilidade de pressionar para a aprovação da redução da jornada de trabalho é da sociedade.
"A manifestação da sociedade é muito importante nesse processo, porque o Congresso nós conhecemos, sabemos o Congresso que é. Então, é preciso que a sociedade entre em campo, continue em campo, exigindo que essa deva ser uma conquista deste momento para a classe trabalhadora", afirmou no ato de 1º de Maio organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo.
Marinho disse acreditar que a escala 6x1 estará "enterrada" ainda neste ano. Segundo ele, o modelo prejudica em especial as mulheres. Para o ministro, não há conflito entre diferentes propostas em tramitação, como o projeto de lei de Lula e as duas PECs (propostas de emenda à Constituição).
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, também disse acreditar que a jornada atual de trabalho, de até 44 horas semanais, estará "enterrada" até julho, já que o projeto de lei enviado por Lula tem regime de urgência e, caso não seja votado, tranca a pauta do Congresso.
"Estamos trabalhando para que este seja o último 1º de Maio com escala 6x1 no Brasil. Essa é a importância histórica dessa data", disse, lembrando que o país não reduz a jornada de trabalho há 38 anos, desde a promulgação da Constituição de 1988.
A proposta defendida pelo governo prevê jornada máxima de 40 horas semanais, sem redução salarial, além da garantia de pelo menos dois dias de descanso por semana. De acordo com o ministro, há forte articulação política e sindical para viabilizar a mudança no primeiro semestre.
Alinhado ao discurso do governo, o presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Sergio Nobre, também afirmou que o principal foco das mobilizações deste 1º de Maio é pressionar o Congresso pela redução da jornada, com votação pelo fim da escala 6x1 ainda neste mês. Ele considera a atual organização do trabalho no Brasil ultrapassada e incompatível com o século 21.
Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e candidato ao governo do Estado de São Paulo, endossou a convocação da população contra a escala 6x1em seu discurso no ABC. "Revisão da jornada 6x1 já está no Congresso e se não houver mobilização da classe trabalhadora, isso vai sendo adiado", disse ao subir no palco.
A região central da capital paulista também recebeu mobilizações contra a escala 6x1 no Palácio dos Trabalhadores e na praça Roosevelt —esta última convocada pelo VAT (Vida Além do Trabalho), o grupo que iniciou as reivindicações por maior tempo de descanso.
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) também afirmou que a PEC contrária à escala 6x1, que ganhou atenção popular, deve ser votada no plenário neste mês. O público se aglomerou em torno da deputada, que levou cerca de 40 minutos para conseguir deixar o local.
O VAT também convocou um ato no Rio de Janeiro, base política do seu fundador, o vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ). Lá, entregadores de aplicativos se juntaram a movimentos sociais no ato em Copacabana, zona sul. O grupo chegou à manifestação em uma marcha ao som de buzinas de motos e campainhas de bicicletas. Trabalhadores gritaram pedindo respeito à categoria.
Na capital paulista, o ato da Força Sindical, no Palácio dos Trabalhadores, foi puxado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes, com sorteios de Pix, barris de chope e de bicicletas, além de discursos de Fernando Haddad, Simone Tebet (ex-ministra do Planejamento) e Marina Silva (ex-ministra do Meio Ambiente).
Tebet negou que a redução da jornada traria prejuízos à economia. "Garanto para vocês que o Brasil não quebra. Como não quebrou com o 13º e o salário mínimo, e não vai quebrar com o aumento da licença paternidade".
Marina Silva reforçou as demandas das trabalhadoras e disse que escala 6x1 não garante a restauração biológica do corpo e, para as mulheres, não representa nem um dia de descanso na prática. "Nós mulheres, no dia de descanso, é quando a maioria trabalha mais e volta na segunda-feira mais cansada do que na sexta".
O peso maior do trabalho sobre as mulheres, que acumulam jornadas trabalho dentro e fora de casa, foi retratado em cartazes. A vendedora Ana Carla Dias de Oliveira, 49, que compareceu ao ato da Força na capital paulista, relata que trabalha domingo sim, domingo não. "A gente que é mãe e dona de casa não tem tempo para nada".
A direita teve um ato esvaziado na avenida Paulista, na frente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Um grupo formado por bolsonaristas, religiosos e conservadores ocupou uma faixa da Paulista como forma de evitar que a via, disputado endereço de manifestações políticas de São Paulo, fosse usada por manifestantes de esquerda. O ato teve trio elétrico e carro de som de apoio, mas ambos ficaram vazios. A reportagem contou cerca de cem pessoas no local no começo da tarde, quando atingiu sua lotação máxima.
Seu organizador, o empresário Mario Malta, evitou adotar posição clara sobre a redução da escala 6x1. "Não somos nós que vamos determinar o que acontecerá", afirmou Jones. Durante o ato político, os organizadores não trataram da redução da jornada. O foco dos manifestantes de direita foi liberdade para Bolsonaro.
Conflitos pontuais entre participantes e forças de segurança aconteceram na Paulista e no ABC.
Na Paulista, uma mulher não identificada teria insultado os manifestantes de direita e foi afastada pela Polícia Militar. Ela disse à reportagem que registraria boletim de ocorrência por agressão.
Na festa do ABC, a reportagem presenciou a GCM de São Bernardo agredindo um participante dentro do carro da guarda. A Guarda informou para a reportagem, no local, que ele teria tentado entrar na área VIP, agredido um agente e tentado pegar sua arma. Procurada a assessoria da guarda não respondeu.
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