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Lula tenta virada inédita após prometer benesses e acirrar discurso contra Flávio Bolsonaro
Lula tenta virada inédita após prometer benesses e acirrar discurso contra Flávio Bolsonaro
Petista intensificou presença nas redes e recebeu apoio de manifestações de rua pelo país
Por Mariana Brasil/Caio Spechoto/Catia Seabra/Folhapress
25/10/2026 às 08:00
Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação
O presidente Lula em ato na Avenida Paulista
O presidente Lula (PT) tenta neste domingo (25) uma virada inédita para se reeleger. Após terminar o primeiro turno com menos votos que o adversário, Flávio Bolsonaro (PL), o petista anunciou uma série de benesses, reorganizou sua campanha e acirrou as críticas ao oponente.
Lula chega ao dia da eleição tecnicamente empatado nas pesquisas com Flávio Bolsonaro, com 49% das intenções de votos válidos, ante 51% do rival, segundo o Datafolha. Nunca um candidato que terminou a primeira votação como segundo colocado conseguiu ser eleito na etapa decisiva.
BENESSES ELEITORAIS E CONTAS PÚBLICAS
Como ofensivas finais, o presidente da República perdoou as dívidas de MEIs (microempreendedores individuais) com o governo federal e propôs ao Congresso a gratuidade do transporte público aos finais de semana. Prometeu também estender o programa de bolsas Pé-de-Meia a estudantes do ensino superior, mirando o público jovem.
Ao ser questionado sobre as ações de apelo popular às vésperas da eleição, Lula disse que tudo estava contemplado no Orçamento e que não deixaria de lançar as medidas por temor de passar uma impressão eleitoreira.
"Não vou deixar de dar um benefício que eu posso dar porque tem eleição", disse, em entrevista ao SBT. "Tudo que está sendo aprovado está nas possibilidades fiscais. Estamos entregando um Orçamento com superávit primário", declarou.
Lula também conseguiu que o Senado aprovasse a emenda constitucional que acaba com a escala 6x1, e compareceu à cerimônia de promulgação no Congresso. Antes do primeiro turno, já tinha tomado medidas como o reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets.
Caso consiga a reeleição, o presidente deverá encontrar problemas para colocar suas propostas em prática sem deteriorar as contas públicas.
Operadores do mercado financeiro e do setor produtivo têm cobrado que o petista contenha o aumento da dívida. Emissários de Lula afirmaram a empresários que essa será uma diretriz de eventual próximo mandato, mas o presidente não endossa essas ideias publicamente.
Em eventual quarto mandato, o presidente enfrentará também dificuldade maior para obter do Congresso Nacional o aval necessário para implementar aquelas promessas de campanha que dependam de medidas legislativas.
Lula já enfrentou um Legislativo hostil no atual mandato. A correlação de forças da Câmara e do Senado para o ano que vem, definida pelo primeiro turno, é ainda mais adversa.
CAMPANHA 'MENOS ORGANIZADA'
Embalado por uma onda de manifestações de estudantes iniciadas já no dia seguinte ao primeiro turno, o presidente da República passou os dias seguintes à votação reorganizando a campanha. Trouxe para sua equipe uma trinca de vitoriosos: o senador eleito Rui Costa (PT-BA), o senador Camilo Santana (PT-CE) e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT).
Eles assumiram funções que antes estavam a cargo do presidente do PT, Edinho Silva, e do ministro Sidônio Palmeira (Secom). Os dois foram alvos de diversas críticas após o primeiro turno. O próprio Lula disse que sua campanha havia sido a "menos organizada" da qual participou.
Camilo assumiu a coordenação política, e Fonteles passou a ser ouvido por Lula sobre a forma de se comunicar. A nova configuração, combinada com o medo de perder a eleição, minimizou os rachas internos do grupo lulista. No primeiro turno, os responsáveis pela comunicação do presidente, por exemplo, se dividiram em até quatro grupos.
O presidente passou a gravar vídeos em formato de selfie e ganhou um celular de sua equipe, como forma de mostrar um endosso do petista à mobilização digital.
A contribuição mais importante não veio da trinca promovida por Lula, mas do deputado André Janones (Rede-MG), que criou o canal de WhatsApp "Exército do Lula", que passava de 10 milhões de participantes na noite do sábado (24).
O canal chegou a ser derrubado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), em decisões do presidente da corte, Kassio Nunes Marques, alçado ao topo da magistratura pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
ATAQUES AO BOLSONARISMO E CASO ROBERTA LUCHSINGER
A propaganda lulista teve como principal mote a proteção social e a acusação de que uma eleição de Flávio ameaçaria benefícios como o Bolsa Família e programas como o Farmácia Popular. Mazelas do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ), incluindo vítimas da pandemia, ganharam destaque na propaganda eleitoral e nas redes.
Os petistas trouxeram à tona o fato de Flávio Bolsonaro ter defendido um policial acusado de matar uma criança, além de explorar supostos vínculos do adversário com milicianos do Rio de Janeiro. "Como alguém ligado a criminosos vai combater o crime?", questiona um dos vídeos de Lula, em uma tentativa de contrapor o discurso bolsonarista para a segurança pública.
No primeiro debate contra Flávio, Lula disse que abriria sigilos fiscal, bancário e telefônico de si mesmo e de parentes se o adversário aceitasse fazer o mesmo. Flávio respondeu dizendo que sim, se o presidente abrisse o de seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro –e, depois, impôs mais condições.
Conhecido como Marcola, ele teve contas pagas pela lobista Roberta Luchsinger, amiga de um dos filhos de Lula. Flávio Bolsonaro usou o caso para afetar o petista ao longo da campanha.
DESGASTE DA IMAGEM
Desde antes da campanha, aliados do presidente avaliavam que seu principal obstáculo seria um cansaço do eleitor com a imagem de Lula. O petista participa de eleições desde 1982, e protagoniza campanhas presidenciais desde 1989.
O quadro foi agravado por uma vontade de mudança do eleitorado. No segundo turno, a campanha petista encarou essa realidade e adotou o mote de "a mudança segura é com Lula".
O petista e seus aliados buscaram também animar o eleitorado idoso, que já não é obrigado a votar, a comparecer na eleição. A avaliação é de que o apoio ao candidato à reeleição é acima da média nessa faixa da população —por reconhecer nele avanços no país em relação ao passado.
Outro obstáculo enfrentado por Lula no segundo turno já havia sido detectado pelo petista havia meses: a impossibilidade de contar com apoio de candidatos derrotados na primeira votação.
Lula não recebeu o apoio nacional de nenhum outro partido de centro para o segundo turno, enquanto o adversário atraiu União Brasil, PP, Republicanos, Podemos e Novo –além da maior parte dos diretórios estaduais do MDB.
