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Demanda por líderes como Bolsonaro e Trump chegou para ficar, diz cientista política francesa
Demanda por líderes como Bolsonaro e Trump chegou para ficar, diz cientista política francesa
Liberalismo perdeu a hegemonia conquistada no fim do século passado, afirma Marlene Laruelle
Por Ana Luiza Albuquerque/Folhapres
24/10/2026 às 13:00
Atualizado em 24/10/2026 às 12:20
Houve um tempo, há 30 ou 40 anos, pós-queda do Muro de Berlim, em que o liberalismo era tratado como a grande ideologia vitoriosa. O pluralismo, a limitação do poder estatal, a separação entre os poderes, os direitos individuais e algum grau de liberdade econômica, maior ou menor, pareciam características garantidas entre as sociedades democráticas.
Essa era chegou ao fim e o liberalismo perdeu sua hegemonia, afirma a cientista política francesa Marlene Laruelle. Diretora do Programa de Estudos sobre o Iliberalismo na Universidade George Washington (EUA), ela diz que o iliberalismo se tornou uma ideologia competitiva, representada no século 21 por líderes como Jair Bolsonaro, o americano Donald Trump e o húngaro Viktor Orbán.
Pautado por elementos como o exercício da vontade da maioria a despeito do sistema de freios e contrapesos, o apelo à homogeneidade da nação e a primazia dos valores conservadores, o iliberalismo não é apenas uma crítica ao modelo vitorioso até então, mas um novo projeto político, afirma Laruelle em entrevista por videoconferência ao jornal Folha de São Paulo.
Como a sra define o iliberalismo?
Acho que é importante pensar no iliberalismo não apenas como uma crítica ao liberalismo, mas como um programa. É outro projeto político, com cinco componentes, em uma versão moderada ou mais radical: uma liderança muito forte e a ideia do majoritarismo contra os freios e contrapesos; a defesa da soberania contra as instituições supranacionais; uma espécie de política externa contra a ordem internacional liberal; o apelo à homogeneidade da nação contra o multiculturalismo; e alguma forma de valores conservadores contra os progressismos. Se você tiver esses cinco critérios, pode-se dizer que se trata de uma proposta iliberal.
Então é uma ideologia, e não apenas um dispositivo retórico?
Sim. Geralmente usamos o populismo para definir o que está acontecendo, mas o populismo é, em grande parte, um recurso retórico. Ou então usamos termos como autoritarismo e retrocesso democrático, que nos dizem o que está acontecendo com as instituições. Se você usa o termo iliberalismo, está falando de ideologia, da proposta política e de seu conteúdo. Percebemos que há uma proposta que tem sua própria coerência e lógica, que traz consigo outro conjunto de valores e que está competindo com a democracia liberal.
Como se explica o fim da hegemonia liberal?
O liberalismo costumava estar associado à prosperidade econômica e à ideia de que os grupos sociais iriam progredindo gradualmente em termos de direitos socioeconômicos. Esse tipo de paralelo não funciona mais. Nos últimos 30 anos, temos visto um aumento da desigualdade socioeconômica em todo o planeta. Esse tipo de diferença entre crescimento econômico e justiça socioeconômica é uma espécie de promessa quebrada do liberalismo.
A segunda leitura diz mais respeito aos valores culturais. O fato de que o liberalismo, por muito tempo, foi entendido em termos da neutralidade das instituições, da Justiça, que permitiria às pessoas viverem seu próprio sistema de valores, mas que, gradualmente, se tornou muito progressista. Uma parte da população apresentou uma espécie de reação conservadora.
Há um terceiro aspecto, que é o fato de estarmos entrando num momento pós-moderno, que se acelerou especialmente com as redes sociais. Esse individualismo extremo e essa espécie de atomização dos laços sociais fazem com que a desconfiança em relação às instituições, à ciência, ao jornalismo, acabe se intensificando. Então, se você juntar todos esses elementos, de repente entende por que o liberalismo, no sentido mais tradicional, está perdendo sua hegemonia. [Ele] Se baseava no progresso, na racionalidade, no universalismo, e todos esses critérios estão, de certa forma, se desintegrando.
A sra diz que há uma crise de imaginação na política. O que quer dizer com isso?
Com o fim do comunismo, há essa sensação de que o liberalismo venceu a batalha, de que é a única opção disponível, de que não há mais competição ideológica. O liberalismo perdeu a capacidade de projetar qualquer futuro. Na melhor das hipóteses, podemos ter pequenos ajustes tecnocráticos e melhorar um pouco o Estado de bem-estar social. É o que a tecnocratização neoliberal vem produzindo. Essa narrativa de que não há mais escolha, não há mais política.
Ele não consegue recriar nenhuma utopia, o que significa que apenas a extrema direita e a extrema esquerda trazem consigo a imaginação de algo diferente. Mas a esquerda está em minoria. É a direita que tem conseguido reinventar um imaginário político para dizer: "Não, não está escrito que tem que ser assim". É realmente importante que as forças liberais não fiquem na defensiva, não defendam o "status quo", mas sejam capazes de imaginar algo atraente para os cidadãos.
A demanda por líderes iliberais chegou para ficar?
Acho que sim. Não é que as pessoas não queiram democracia. Elas acreditam que a democracia funcionará melhor se tiverem esse tipo de líder. As pessoas sentem que o liberalismo não está mais dando resultados no aspecto econômico e têm a sensação de não saber para onde ele está indo. Por isso, acredito que a proposta iliberal veio para ficar até que haja uma profunda transformação em nosso sistema político e no cenário internacional. É um momento histórico, uma espécie de fase pela qual temos que passar.
Como o nacionalismo cristão se conecta à proposta iliberal?
O nacionalismo cristão é uma espécie de interpretação iliberal da religião, porque não se trata apenas de uma interpretação muito estrita e literal. Está se exigindo uma espécie de papel controlador do espaço público, querendo que os Estados Unidos se tornem um Estado religioso com uma única interpretação da religião. Se você interpretar seu oponente político não como parte de um mecanismo normal de discordância em uma democracia, mas quase como uma oposição teológica, você estará praticamente destruindo o princípio da democracia, o que é potencialmente perigoso, pois pode abrir as portas para a violência política.
O nacionalismo cristão foi muito forte no governo Bolsonaro. Agora seu filho, candidato à Presidência, também fala em guerra espiritual, em expulsar o mal. Isso é um chamado para a violência, ainda que simbólica?
Essas narrativas metafóricas podem ser interpretadas de diferentes maneiras. Você pode ver isso apenas como um exagero linguístico que não significa nada, a não ser servir como mecanismo para que as redes sociais reajam. Ou você pode imaginar que, para algumas pessoas do público, isso será interpretado literalmente como um apelo à violência, seja simbólica ou física. Esse é o problema desse tipo de linguagem: ela é inflamatória. Essa é sempre a linha divisória entre a violência simbólica e a violência política real. Tanto Bolsonaro quanto Trump estão sempre nessa linha divisória, jogando com os dois lados.
[Essa estratégia] Serve para mobilizar os eleitores e também para desacreditar a oposição. Para polarizar a opinião pública, para dizer que o que está nos dividindo não se resume apenas a divergências sobre políticas públicas. O que nos divide é tão profundo, tão importante do ponto de vista filosófico e teológico, que não há como chegarmos a um acordo. Um tem que vencer e o outro tem que perder, o que é mais ou menos o contrário do que a democracia deveria ser.
Há algum caminho para que o liberalismo recupere sua hegemonia?
A hegemonia está perdida, mas ele pode se tornar mais competitivo. Para que o liberalismo tenha sucesso, precisa cortar os laços com o neoliberalismo. Precisa redefinir sua relação com certas formas de capitalismo, caso contrário, não será capaz de ter um projeto político que pareça atraente para um número suficiente de pessoas. Precisará renegociar o que significa ser progressista. Trata-se apenas de política de identidade, ou é progressista no sentido socioeconômico? Há uma chance, mas ele terá que trabalhar muito para se reinventar se quiser ser capaz de competir com o iliberalismo.
