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Lula e Flávio Bolsonaro escolherão chefe da Fazenda sob cenário de desconfiança

Lula e Flávio Bolsonaro escolherão chefe da Fazenda sob cenário de desconfiança

Promessas eleitoreiras influenciarão não só nome, mas também momento de anúncio de novo ministro

Por Adriana Fernandes/Idiana Tomazelli/Folhapress

25/10/2026 às 10:40

Atualizado em 25/10/2026 às 10:09

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/Arquivo

Imagem de Lula e Flávio Bolsonaro escolherão chefe da Fazenda sob cenário de desconfiança

Flávio Bolsonaro e Lula

O presidente da República eleito neste domingo (25) vai escolher o titular do Ministério da Fazenda tendo como desafio reverter a desconfiança nutrida pelas promessas eleitoreiras lançadas de ambos os lados.

Após um primeiro turno acirrado, tanto o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto o senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL) se comprometeram com medidas que podem atrair votos, mas vão na contramão do ajuste nas contas públicas esperado por economistas e pelo mercado.

Com o poder da máquina em mãos, o petista prorrogou subsídios aos combustíveis, perdoou dívidas de MEIs (microempreendedores individuais) e acenou com Pix de R$ 5.000 para os empreendedores a partir de 2027.

Também prometeu ampliar o programa Pé-de-Meia para universitários e instituir a tarifa zero no transporte aos fins de semana para o público urbano em todo o país, medidas de expansão de despesas que ainda precisarão ser acomodadas no Orçamento.

Já o candidato do PL, em quem o mercado apostou suas fichas para controlar gastos de forma mais rigorosa, passou a ser cobrado com mais contundência sobre possíveis cortes em políticas sociais.

Na tentativa de se afastar dessas pautas impopulares, Flávio prometeu manter ganhos reais (acima da inflação) para aposentados e negou que vá desvincular benefícios do salário mínimo —riscando de seu potencial cardápio medidas que poderiam gerar economia mais significativa. Também passou a apoiar medidas com custo fiscal, como a tarifa zero.

A condução dos temas fiscais na campanha deve afetar diretamente não só a importância do nome do ministro da Fazenda, mas também o momento do anúncio. O placar final da disputa ainda pode ditar o grau de aceno ao mercado para tentar garantir condições financeiras mais benéficas no mandato.

No caso de Lula, o petista precisará, se eleito, indicar alguém que tenha o condão de recuperar rapidamente a credibilidade do governo após o que deve ser uma reação bastante negativa do mercado à sua reeleição, com alta dos juros e do dólar.

Na atual gestão, o presidente até patrocinou iniciativas para desacelerar gastos, como a regra que limitou a valorização do salário mínimo ao mesmo percentual de correção do arcabouço fiscal (regra que disciplina as despesas federais). Mas também chamou superávit, economia de recursos para pagar os juros da dívida, de "babaquice". Depois, tentou corrigir rota na campanha.

Já Flávio, se eleito, terá que escolher o ministro mais rapidamente que o previsto, após as recentes promessas colocarem em dúvida a disposição do presidenciável em bancar o ajuste.

Paira ainda o temor de que a chamada "pauta da vingança", que inclui a anistia a Jair Bolsonaro (PL) e o impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), ganhe protagonismo e ofusque as discussões econômicas. Sem uma sinalização contundente sobre medidas de controle de gastos, a percepção no mercado é que a boa vontade dos agentes diminuirá, com reflexo negativo no câmbio e nos juros.

Se Flávio sair vitorioso das urnas, o comando da Receita Federal também deve se tornar um ponto de atenção. O órgão, ligado à Fazenda, conduz investigações financeiras com Polícia Federal e Ministério Público, inclusive algumas ligadas ao Banco Master, de Daniel Vorcaro —a quem o candidato do PL pediu dinheiro para financiar um filme sobre seu pai.

Flávio é formalmente investigado em inquérito no STF que apura as circunstâncias da produção do filme "Dark Horse". Na época da revelação do caso, ele admitiu ter pedido os recursos, mas negou vantagem indevida.

Em outra frente, a PF enviou à Corte outro pedido de inquérito contra o candidato, por suspeita de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz. A campanha do presidenciável disse que ele não é investigado no Supremo e que os autos ainda não foram convertidos em inquérito.

Em seu governo, Jair Bolsonaro pressionou a Receita a cooperar na missão de livrar Flávio da investigação sobre suspeita de rachadinha em seu gabinete quando ainda era deputado estadual pelo Rio de Janeiro.

O embate expôs a ingerência no órgão e deixou um rastro de demissões no comando da Receita e também na corregedoria, postos para os quais o ex-presidente passou a designar apenas nomes de aliados. Em novembro de 2021, as provas do processo foram anuladas pelo STJ.

OS COTADOS DE FLÁVIO BOLSONARO

O ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto tem ganhado força para ocupar o comando da Fazenda, caso o candidato do PL seja eleito.

Ele tem o apoio do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que se aproximou da campanha nessa reta final e ajudou a preparar o presidenciável para o último debate, na TV Globo.

Campos Neto também é considerado um nome capaz de dar um choque de credibilidade após as promessas eleitoreiras de Flávio. Amigos do ex-presidente do BC avaliam, porém, que ele dificilmente deixará seu atual cargo de chefe global de políticas públicas do Nubank se não tiver condições de implementar as medidas necessárias para assegurar a estabilidade da dívida pública.

Nos bastidores, há a avaliação de que a indicação de Campos Neto poderia ser também uma estratégia de Tarcísio de preservar o governo e a economia antes de o atual governador se lançar à Presidência em 2030 —uma vez que Flávio promete acabar com a reeleição. Mas esse também é o motivo pelo qual uma ala da campanha é contra o ex-presidente do BC.

Outro nome do mercado é o do financista Marcelo Kayath (ex-Credit Suisse). Durante a campanha, ele recebeu Flávio em um jantar com banqueiros em sua casa e tem o apoio do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.

Já o preferido do ex-presidente Jair Bolsonaro é Adolfo Sachsida, atual coordenador econômico da campanha de Flávio, mas ainda não se sabe qual peso o presidenciável dará a essa recomendação. A interlocutores do mercado e empresários Sachsida minimizou as suas chances de ser o escolhido, segundo relatos.

Também estão cotados Mansueto Almeida (ex-secretário do Tesouro Nacional), que hoje atua no BTG Pactual, do banqueiro André Esteves, e Alexandre Bettamio (Bank of America). Aliados de Flávio, no entanto, avaliam que as chances de Mansueto são menores porque a família Bolsonaro não veria Esteves com simpatia.

O senador Rogério Marinho (PL-RN) é considerado um curinga. Coordenador da campanha de Flávio, ele quer a presidência do Senado, mas pode ser deslocado para a Fazenda ou Casa Civil. Um banqueiro, que falou na condição de anonimato, disse que ele tem prestígio para poder se colocar à disposição, se tiver interesse.

OS COTADOS DE LULA

Após o revés no primeiro turno das eleições, Lula e sua equipe se voltaram à campanha, e diferentes interlocutores afirmam, sob reserva, que o presidente ainda não dedicou tempo à discussão de eventuais nomes para compor o novo governo, caso seja eleito. Ainda assim, algumas especulações circulam nos bastidores.

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, colaborador de Lula na campanha de 2022 e que já foi chamado de "menino de ouro" pelo presidente, aparece entre os cotados, enquanto a permanência do atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, é considerada incerta.

Para integrantes do mercado, Galípolo é considerado o nome que teria mais condições de dar um choque de credibilidade na área fiscal, após a experiência no BC.

Entre os cotados, surgem os nomes dos senadores Camilo Santana (PT-CE) e Renan Filho (MDB-AL), que foram ministros de Lula no atual mandato. Há também especulações, inclusive no mercado financeiro, sobre eventual nomeação de Rafael Fonteles, reeleito governador do Piauí neste ano.

Camilo vem ganhando espaço após se incorporar à coordenação da campanha do petista, de quem tem sido porta-voz recorrente. Já Renan Filho obteve avaliação positiva à frente do Ministério dos Transportes, onde contribuiu para consolidar a gestão petista como a que mais fez concessões de infraestrutura. Além disso, o senador do MDB já havia sido cogitado para assumir o Ministério do Planejamento durante a transição em 2022.

Fonteles já foi secretário de Fazenda do Piauí antes de governar o estado. Embora interlocutores reconheçam que a gestão estadual é bem diferente da administração federal, representantes do mercado consideram que seria um bom nome para assumir a pasta.

Entre aliados de Lula, porém, Fonteles é visto como o futuro do PT em corridas eleitorais, podendo se credenciar inclusive como candidato à Presidência em outros pleitos. Por esse raciocínio, não seria recomendável "queimá-lo" na Fazenda, posto geralmente alvo de pressões e desgaste. Além disso, ele teria que renunciar ao governo do Estado.

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