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Flávio avança na pré-campanha sob pressão de casos no STF envolvendo Dark Horse, Lula e Vorcaro
Flávio avança na pré-campanha sob pressão de casos no STF envolvendo Dark Horse, Lula e Vorcaro
Por Hugo Henud/Estadão Conteúdo
14/06/2026 às 13:01
Foto: Geraldo Magela/Arquivo/Agência Senado
Flávio Bolsonaro
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) avança na pré-campanha presidencial de 2026 sob pressão de uma série de frentes envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF). O pré-candidato virou alvo de pedidos para ser incluído na investigação sobre a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, entrou no radar de uma linha própria de apuração da Polícia Federal (PF) após a divulgação de áudios em que aparece negociando com Daniel Vorcaro recursos para financiar o filme Dark Horse e foi mencionado em petições para que fatos relacionados à produção cinematográfica sejam analisados na ação sobre emendas parlamentares que tramita na Corte. Em outra frente, também responde a inquérito por suposta calúnia contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O conjunto pressiona Flávio em um momento decisivo da pré-campanha. O senador tenta ampliar seu alcance eleitoral e se apresentar como uma alternativa mais moderada do bolsonarismo, mas terá de administrar investigações e pedidos de apuração com potencial de produzir desgaste ao longo da disputa e de alimentar ações eleitorais que, em caso de condenação, poderiam atingir sua elegibilidade.
As novas frentes têm origem na divulgação, pelo The Intercept, de áudios e mensagens em que Flávio aparece tratando com Vorcaro, ex-dono do Banco Master, sobre recursos para financiar Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Documentos apontam que o banqueiro repassou cerca de R$ 61 milhões à produção por meio de um fundo nos Estados Unidos ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro no país.
Nesta semana, o PT pediu que o financiamento do filme e os repasses feitos a entidades ligadas à produtora da obra sejam investigados na ação sobre emendas parlamentares sob relatoria de Flávio Dino, ou em um procedimento próprio. O partido também quer que a PF apure a origem, o caminho e a destinação dos recursos relacionados à produção, além da atuação de políticos, empresas e entidades envolvidas no projeto. A petição sustenta que os valores negociados por Flávio com Vorcaro podem ter tido finalidade eleitoral e levanta suspeitas de caixa dois e abuso de poder econômico. O pedido depende de análise de Dino.
A solicitação busca conectar duas frentes que vinham sendo reveladas separadamente: de um lado, os repasses de Vorcaro para o filme; de outro, emendas parlamentares destinadas a entidades comandadas por Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável por Dark Horse. A suspeita é que ONGs ligadas a ela tenham recebido recursos públicos de parlamentares do campo bolsonarista em meio a indícios de falta de transparência, desvio de finalidade e possível conexão com o ecossistema financeiro da produção. Essa linha já havia levado Dino a abrir uma apuração sobre suspeitas de desvio de finalidade nas emendas, após pedidos apresentados pelos deputados Henrique Vieira (PSOL-RJ) e Tabata Amaral (PSB-SP).
Além da frente sob relatoria de Dino, o caso também chegou ao gabinete de Alexandre de Moraes. Uma das solicitações busca vincular Flávio à ação penal contra Eduardo Bolsonaro no STF. O ex-deputado é réu por coação no curso do processo, acusado de articular, junto a autoridades americanas, pressões e sanções contra autoridades brasileiras em meio ao julgamento da trama golpista, que condenou Bolsonaro.
O pedido para incluir Flávio nessa frente foi protocolado em maio pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e enviado por Moraes para manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR). Na solicitação, Lindbergh sustenta que recursos repassados por Vorcaro podem ter sido usados para bancar a campanha internacional atribuída a Eduardo.
Em junho, o deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) também pediu a Moraes que Flávio seja investigado por suspeita de atuar nos Estados Unidos em favor da aplicação de novas tarifas contra produtos brasileiros. No início desse mês, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) sugeriu a aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A proposta foi anunciada uma semana após Flávio se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington.
Em reação, a defesa de Flávio pediu que Moraes seja declarado suspeito para analisar as solicitações. Os advogados afirmam que haveria conflito de interesse em razão da relação do Banco Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. A instituição financeira pagou R$ 80,2 milhões ao escritório da advogada em dois anos. O senador também requer que petições já direcionadas a Moraes sejam remetidas a André Mendonça, relator do caso Master no STF. O pedido será analisado pelo presidente da Corte, Edson Fachin.
Há ainda uma frente que pode resultar em investigação própria. Como mostrou o Estadão, a PF abriu uma linha de apuração sobre os repasses de Vorcaro para o filme e deve enviar à PGR um parecer defendendo uma investigação autônoma sobre Flávio. Como o senador tem foro especial, caberá à Procuradoria avaliar se há elementos para pedir ao Supremo a abertura formal de inquérito. Por envolver Vorcaro e repasses ligados ao Master, uma eventual investigação tende a ficar sob relatoria de Mendonça, responsável pelas ações relacionadas ao banco.
A pressão sobre Flávio no Supremo não se limita ao caso Dark Horse. Em abril, Moraes abriu, a pedido da PF, um inquérito para apurar suposta calúnia contra Lula. O caso teve origem em uma solicitação do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que pediu investigação sobre uma postagem feita pelo pré-candidato em 3 de janeiro de 2026, no X.
Nos bastidores, aliados de Flávio avaliam que as diferentes frentes envolvendo o senador impõem um cálculo político delicado à pré-campanha. A estratégia passa por construir uma imagem mais palatável do pré-candidato, reduzir a associação a temas que geram rejeição e ampliar o diálogo com segmentos nos quais Jair Bolsonaro teve pior desempenho em 2022, como parte dos eleitores de centro. Nesse desenho, os ataques mais duros ao STF tendem a ficar concentrados em aliados e apoiadores.
No entorno jurídico do senador, a avaliação é que, se avançarem, essas frentes podem alimentar ações eleitorais capazes de atingir sua elegibilidade. O risco, porém, não é imediato e dependeria de desdobramentos formais, como abertura de ações e eventual condenação.
Para o cientista político e professor do Insper Leandro Consentino, Flávio terá de atuar em duas frentes. Ao mesmo tempo em que precisa moderar o discurso para alcançar eleitores independentes e segmentos fora do núcleo bolsonarista, o senador também tem incentivos para explorar politicamente episódios envolvendo o Supremo. Na avaliação de Consentino, a tendência é que o pré-candidato tente usar esses casos para reforçar a narrativa de que decisões judiciais podem interferir no equilíbrio da disputa eleitoral.
“Por enquanto, ele está nesse ‘morde e assopra’. Há uma questão de autopreservação e de moderação para buscar os eleitores de centro, mas também a necessidade de falar com seu eleitorado de sempre, o bolsonarista mais radical. Para isso, ele adota uma narrativa de perseguição”, afirma Consentino.
Um exemplo dessa estratégia ocorreu após a abertura do inquérito em que passou a ser investigado por suposta calúnia contra Lula. Em nota, Flávio classificou a medida como uma tentativa de restringir a liberdade de expressão e o exercício do mandato parlamentar. O senador também associou a investigação a decisões adotadas pela Justiça Eleitoral durante a campanha de 2022 e questionou a distribuição do caso a Moraes.
