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Fadiga, perda de aliados e falta de renovação desafiam novo ciclo eleitoral de Lula e do PT na Bahia

Fadiga, perda de aliados e falta de renovação desafiam novo ciclo eleitoral de Lula e do PT na Bahia

Por Política Livre

14/06/2026 às 14:00

Atualizado em 14/06/2026 às 14:08

Foto: Divulgação/Arquivo

Imagem de Fadiga, perda de aliados e falta de renovação desafiam novo ciclo eleitoral de Lula e do PT na Bahia

Jaques Wagner, Lula, Jerônimo Rodrigues e Rui Costa

Depois de 20 anos ininterruptos governando o Estado, o PT da Bahia caminha para as urnas em 2026 acompanhado do mesmo fenômeno que ronda e desafia a pretensão de reeleição do presidente Lula (PT): a fadiga política.

A tarefa de convencer o eleitorado a renovar o contrato social do voto por mais quatro anos com o governador Jerônimo Rodrigues (PT) encontra resistência tanto na dificuldade de apresentar um horizonte efetivamente novo para o futuro do Estado quanto no desgaste acumulado em temas que lideram as preocupações dos baianos, como segurança pública e saúde. 

Este ano, mais uma vez o Atlas da Violência mostrou que a Bahia manteve a posição inglória de líder nacional em número absoluto de homicídios, com 6.061 mortes violentas. Na saúde, o drama da famigerada fila da regulação se acentuou, elevando em 213% o tempo de espera por atendimento, segundo relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE-BA). 

Ancorada por Lula, a vitória de Jerônimo em 2022 se deu, todavia, em bases atípicas para um grupo que nutria até então uma sensação de hegemonia serena constituída com quatro disputas anteriores liquidadas em primeiro turno por Jaques Wagner e Rui Costa de 2006 a 2018.

Paulo Fábio Dantas

Paulo Fábio Dantas


Naquele pleito a soma dos votos de Neto e João Roma (PL) - agora unidos numa única chapa - foi maior que o total recebido por Jerônimo no primeiro turno. Foi justamente a fragmentação da oposição que levou a disputa para o segundo turno, o que tende a não se repetir.  

Nos últimos anos, o arco de alianças que sustentou a longevidade do projeto petista começou a apresentar fissuras relevantes. Em 22, o então vice-governador João Leão rompeu uma parceria de mais de uma década e levou o PP para a oposição. Agora, em 2026, foi a vez do senador Angelo Coronel (ex-PSD, atualmente no Republicanos) ser excluído da chapa majoritária diante da decisão do PT de lançar uma composição puro-sangue, com Jerônimo disputando a reeleição e os ex-governadores Rui e Wagner concorrendo às duas vagas ao Senado.

Para o professor e cientista político Paulo Fábio Dantas, esse processo reflete o esgotamento de um modelo político que marcou a ascensão do PT ao poder no Estado.

“Na Bahia há um arranjo de poder que evidentemente se desgastou e caducou. O que não quer dizer que ele não tenha sido importante”, assinala o professor e cientista político Paulo Fábio Dantas em entrevista ao Política Livre.

Segundo ele, o modelo político erguido por Wagner em 2007 tinha potencial para proporcionar ao grupo uma longevidade semelhante à experimentada pelo carlismo, mas deixou de ser renovado a partir da chegada de Rui Costa ao governo.

“Eu acho que Rui cumpriu muito bem a tarefa de manter o esquema que estava ali dentro do possível. O que ele não foi capaz foi de encontrar um Rui Costa para ele, como Wagner encontrou ele. Ele tinha que preparar alguém que pudesse renovar, e não foi feito. Jerônimo foi um improviso. Porque justamente a visão da política de Rui foi a visão da política imediata, da política pequena. Da obra, da correria, de responder à conjuntura. Não houve ali uma visão larga de montagem de um esquema político que pudesse apontar a perspectiva de futuro. Então, eu acho que o arranjo político perdeu densidade, perdeu discurso, perdeu efetividade. Ele está, de fato, desgastado”, observa. 

Sequelas nacionais

Na avaliação do cientista político, esse desgaste também dialoga com mudanças ocorridas no cenário nacional desde o segundo governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), quando o ambiente político brasileiro passou a deslocar-se para a centro-direita, ainda que o PT baiano tenha conseguido preservar alianças locais com partidos que se tornaram adversários em Brasília.

“Na eleição de Rui Costa em 2014, você passa a ter esse arranjo já na defensiva. Eles estão há 12 anos na defensiva, tentando se manter […] No momento da eleição de 2018, quando o Rui se reelegeu, já era um momento do PT começar a pensar num outro arranjo político porque aquele já tinha feito água no país”.

Mas diferente disso, Rui passou a criar arestas e “entrou num processo até de emulação, de competição com a figura do Wagner, e isso reduziu as possibilidades. Esse grupo, em vez de se ampliar, ele começa a diminuir”.

“Portanto, você tem já desde 2018, a meu ver, mas principalmente a partir de 2022, que esse sistema governista baiano precisa se renovar no sentido de voltar a jogar expectativas de renovação, de futuro, de horizonte para o Estado. Isso não está acontecendo”, prossegue Paulo Fábio. 

Se por um lado o desgaste acumulado ao longo de duas décadas cria dificuldades para o PT renovar seu mandato junto ao eleitorado, por outro abre uma janela de oportunidade para a oposição voltar a disputar o governo em condições mais competitivas, desde que não cometa o pecado de se abraçar às querelas nacionais do bolsonarismo.

“Acho que o grande desafio para ele [ACM Neto] é conseguir fazer isso sem ceder à polarização nacional e não se enganchar com Flávio Bolsonaro. Porque se ele fizer isso num estado como a Bahia é um presente que o PT pediu aos céus para a ganhar a eleição”, afirma Paulo Fábio.

“Se aproximar do bolsonarismo na Bahia é um suicídio eleitoral”, frisa.

Embora não tenha anunciado oficialmente seu presidenciável, ACM Neto já afirmou que não ficará no “tanto faz” do qual foi acusado na eleição passada. A tendência mais provável é apoiar o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), que chegou a lançar sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto em Salvador ao lado de Neto e Bruno Reis, quando ainda estava no União Brasil. 

Fadiga e interdependência de Lula

Lula e o PT da Bahia nutrem uma relação de interdependência de voto no Estado de modo mais marcante a partir de 2007 com a eleição de Wagner, fazendo do solo baiano um dos principais redutos petistas do país, garantindo votações expressivas nas eleições presidenciais, enquanto Lula, por sua vez, demonstrou elevada capacidade de transferência de votos para candidatos aliados nas disputas locais, como ocorreu com a eleição de Jerônimo.

Essa conexão ajuda a explicar por que o desempenho do presidente em 2026 será decisivo para as pretensões do PT baiano de permanecer no Palácio de Ondina. 

Mas a despeito do passivo temporal que também desafia o Lula 3, o cientista Paulo Fábio diz que o principal problema enfrentado por ele decorre do distanciamento entre as expectativas criadas durante a campanha de 2022 e a forma como conduziu seu terceiro mandato.

Com 12 anos na presidência, Lula é o terceiro governante com mais tempo no poder no Brasil, atrás apenas de Dom Pedro  II (49 anos) e Getúlio Vargas (18).

“Eu duvido é que isso tenha o peso decisivo, como o pessoal da área de marketing costuma atribuir. Claro que existe a fadiga, eu não vou negar o óbvio. Mas na minha interpretação, o que está fazendo o governo Lula e a própria reeleição dele patinar é o fato dele ter tido na mão um mandato para pacificar o país […] e ele não conseguiu realizar a missão para a qual foi eleito, que era a de virar a página daquilo que tinha acontecido no Brasil do impeachment até 2022. Ele não conseguiu fazer isso, ficou no pântano”, destaca o professor. 

Nesse sentido, abre-se espaço para a hipótese de que o próprio Lula teria procedido de tal forma a fim de que seu adversário fosse novamente o bolsonarismo, sob pena de dar de ombros de pacificar o país. 

“É uma promessa não cumprida. E isso tem um custo eleitoral”, salienta Dantas. 

“A verdade é que Lula não governou o país nesses três anos e meio como um presidente de uma grande frente cívica nacional para tentar pacificar o país. Ele governou o país como um petista em luta contra o bolsonarismo, como alguém do campo da esquerda enfrentando uma luta contra a direita. Evidentemente que isso entra em colisão com uma expectativa geral que foi criada numa parte do eleitorado que o elegeu. Quer dizer que ele vai perder a eleição? Não, ele pode se reeleger dentro daquele jogo das rejeições”, completa.

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