Aliança com Mendonça passou de trunfo a fardo para Messias por caso Master
Por Folhapress
02/05/2026 às 14:09
Foto: Reprodução/Instagram/Arquivo
O advogado-geral da União, Jorge Messias, cumprimenta o ministro do STF André Mendonça (à direita) em evento da Convenção Nacional das Assembleias de Deus Ministério de Madureira (Conamad) em 2025
Apontado antes como um trunfo a favor de Jorge Messias, o apoio do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça na verdade acabou prejudicando as chances do titular da AGU (Advocacia-Geral da União), na visão de integrantes do Senado Federal e do governo Lula (PT).
Mendonça é o relator do caso do Banco Master, que ameaça o próprio ministro Alexandre de Moraes e diversos políticos de quem o ex-banqueiro Daniel Vorcaro era próximo, principalmente integrantes do centrão.
A avaliação é a de que Messias deixou claro que se tornaria um dos principais aliados de Mendonça no Supremo, dando força para as investigações —o que intimidou uma parte do Senado e da própria corte.
Um dos eixos do inquérito é o aporte de recursos feito pela Amprev (Amapá Previdência), gestora do regime próprio de previdência do estado, no Master. O ex-diretor-presidente da Amprev Jocildo Silva Lemos, alvo da Polícia Federal em fevereiro, foi indicado ao cargo pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Messias teve seu nome para ocupar vaga no STF rejeitado na quarta-feira (29) pelo Senado, de forma histórica, com 34 votos a favor e 42 contra —praticamente o placar oposto ao necessário, uma vez que ele precisaria de ao menos 41 dos 81 votos.
Uma pessoa ligada a Lula diz que Messias foi vítima de uma ação entre amigos interessados em uma blindagem no Master. Essa articulação, segundo essa pessoa, foi suprapartidária.
Na opinião de colaboradores do presidente, a chegada de Messias mudaria a correlação de forças no tribunal. Aliados de Lula lembram que Messias contrariou Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes ao não endossar seus indicados para vagas em tribunais regionais e em cortes superiores.
"Há ministros hoje na suprema corte, ministro Jorge Messias, que trabalham contra a indicação de vossa excelência abertamente, que cabalam votos aqui no Salão Azul contra a indicação de vossa excelência", disse o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) a Messias durante a sabatina.
A participação de Mendonça no processo, na visão de senadores, também pode ter mexido com o ego do presidente do Senado por causa do embate travado entre os dois cinco anos atrás, quando Alcolumbre era presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).
Em 2021, o senador tentou forçar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a trocar a indicação de Mendonça ao Supremo pela do ex-procurador-geral da República Augusto Aras, demorando mais de quatro meses para marcar a sabatina.
O presidente do Senado atuou pessoalmente para que Messias saísse derrotado na votação. Sob reserva, parlamentares e integrantes do governo avaliam que a aliança do AGU com Mendonça pode ser uma das explicações para a fúria do senador.
O placar contra Messias também mostrou que o apoio de Mendonça não serviu para garantir os votos bolsonaristas. O magistrado procurou senadores com quem tinha proximidade e pediu apoio, sem sucesso.
A campanha feita por Mendonça, classificado como "terrivelmente evangélico" por Bolsonaro, tampouco surtiu efeito entre o grupo religioso. Parlamentares que contaram votos afirmam que Messias esperava a adesão de alguns senadores evangélicos, o que não aconteceu.
"Parece que os bispos que estiveram no Senado, apesar dos esforços, não conseguiram convencer os senadores evangélicos", disse o presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), Otto Alencar (PSD-BA).
