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Após 'insinuação' sobre imparcialidade, MP do Rio diz que Bolsonaro deve fazer reclamação formal
Após 'insinuação' sobre imparcialidade, MP do Rio diz que Bolsonaro deve fazer reclamação formal
Por Estadão
05/01/2021 às 13:28
Atualizado em 05/01/2021 às 13:28
Foto: Reprodução/YouTube

O Ministério Público do Rio reagiu, em nota, a novo ataque feito no último fim de semana pelo presidente Jair Bolsonaro, que colocou em xeque a imparcialidade da Promotoria. Dois filhos do mandatário, o senador Flávio e o vereador Carlos, são investigados pelo órgão, e o primeiro já foi até denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa no âmbito do processo das “rachadinhas”.
“Caso o presidente da República ou qualquer outra pessoa vislumbre desídia, favorecimento ou prevaricação por parte de membro do MP-RJ, deverá provocar a atuação dos órgãos de controle da instituição, entre eles o Conselho Nacional do Ministério Público e a Corregedoria-Geral do próprio MP-RJ”, apontou o MP.
Em live na última sexta-feira, Bolsonaro questionou se a Promotoria fluminense investigaria o filho de um integrante da cúpula da instituição envolvido no tráfico internacional de drogas. Segundo o presidente, trata-se de um caso hipotético. “O que aconteceria, MP do Rio de Janeiro? Vocês aprofundariam a investigação ou mandariam o filho dessa autoridade para fora do Brasil e procurariam maneira de arquivar esse inquérito?”
Na nota de posicionamento sobre as declarações do presidente, o MP esclareceu ainda que o direito de formalizar esse tipo de reclamação está ao alcance de qualquer um e é o modo oficial de se posicionar contra eventuais ilegalidades ou abusos de poder. Apontou, contudo, que o autor da petição pode ser responsabilizado se ela não fizer sentido. “De modo correlato, ao ser formalizado, permite a responsabilização dos respectivos autores caso a manifestação seja desprovida de provas, tendo o propósito, único e exclusivo, de macular a honra alheia.”
Fontes ouvidas pelo Estadão comentaram nos últimos dias que o “cenário hipotético” citado por Bolsonaro nem encontraria respaldo na realidade, já que não cabe ao MP estadual investigar possíveis atos de tráfico internacional. A provocação foi lida como mais uma tentativa de movimentar o processo de escolha do novo procurador-geral de Justiça, que deve ser confirmado nesta semana pelo governador em exercício, Cláudio Castro (PSC). Ele recebeu nesta segunda-feira, 4, a lista tríplice com os mais votados pelos integrantes do órgão: Luciano Mattos, Leila Costa e Virgílio Stravidis.
O sucessor de Eduardo Gussem na chefia do MP herdará investigações sensíveis que balançam, via seio familiar, o presidente da República. Além da denúncia contra o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), novos desdobramentos da mesma investigação devem vir à tona, como sinalizou o próprio MP na peça acusatória. O principal deles envolve a suposta lavagem de dinheiro por meio de uma loja de chocolates.
Filho ‘zero dois’ do presidente, o vereador carioca Carlos Bolsonaro (Republicanos) também é investigado por peculato. Até aqui, a Promotoria não apresentou detalhes de suposta lavagem de dinheiro - prática quase obrigatória quando alguém é acusado de embolsar verba pública desviada. O Estadão mostrou em setembro do ano passado que, assim como Flávio, o irmão manteve o hábito de comprar imóveis em dinheiro vivo e por preços subfaturados - duas características identificadas como suspeitas por órgãos de controle.
O próprio Cláudio Castro, que assumiu o governo após o afastamento de Wilson Witzel (PSC), também tem seus problemas com o MP. Um vídeo em que o então vice-governador se encontra com um empresário foi usado pelo delator Bruno Campos Selem para alegar que ele estava recebendo propina de R$ 100 mil no âmbito de contratos da Fundação Leão XIII, voltada para assistência social no Estado. Ele nega.
Na nota enviada a pedido da reportagem, a Promotoria afirma que as declarações do presidente não alteram em nada as investigações em curso. “A instituição atua de forma técnica, ética, com observância aos princípios constitucionais e legais e com absoluta discrição.”
