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E a extrema-direita, enfim, fincou sua bandeira no Brasil, por Raul Monteiro*
E a extrema-direita, enfim, fincou sua bandeira no Brasil, por Raul Monteiro*
Por Raul Monteiro*
04/06/2020 às 09:07
Atualizado em 04/06/2020 às 09:23
Foto: Marcos Corrêa/PR

Em entrevista recente na qual anunciou mais medidas para o combate ao coronavírus na cidade, no princípio da semana, o prefeito ACM Neto (DEM), com indignação expressa, chamou os tresloucados manifestantes que fizeram uma vigília em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) com trajes e gestos semelhantes aos dos membros da Ku Klux Klan norte-americana de 'direita radical', ao invés de tachá-los do que realmente são: exemplares natos e reluzentes da extrema-direita brasileira para os quais conceitos como extremismo, autoritarismo, nacionalismo e racismo são, para ficar em alguns, apenas um pequeno detalhe.
Por mais que políticos de todos os matizes tentem dourar a pílula e cientistas políticos brasileiros, ao que parece, se constranjam em utilizar a expressão, a extrema-direita ou ultra-direita instalou-se no país e ocupa hoje o Palácio do Planalto, tendo na figura do presidente da República, o senhor Jair Messias Bolsonaro, naturalmente, seu representante mais destacado. É preciso que se diga com todas as letras: Bolsonaro está para além do que estabelecem os limites democráticos do jogo político, que excluem também sua contraparte ilustre, o extremo-esquerdismo, já conhecido no país.
Assim como também é necessário admitir, para o bem e para o mal, que todos aqueles que insistem em apoiá-lo incondicionalmente, apesar de sua nula gestão do governo e do país, e de seu desprezo pela vida - evidenciado na maneira como trata as vítimas e aqueles que a pandemia ameaça -, sob o fajuto argumento de que ele é contra a corrupção e o sistema, pertencem ao mesmo campo político que o presidente da República se esmera em liderar ao apoiar movimentos pela intervenção militar, atacar as instituições, como a imprensa, o STF e o Congresso Nacional, e promover uma guerra cultural cujo fim último é destruir a pluralidade.
Mesmo porque esses seguidores radicais não precisam que ninguém lhes diga que não é contra a corrupção quem derruba um ministro da Justiça emblemático como Sérgio Moro para tentar manipular a Polícia Federal em favor de parentes e amigos e contra os inimigos nem quem, com ferocidade insuspeita, se abraça ao Centrão, suprassumo do fisiologismo, nem tampouco pode ser contra o sistema quem atuou nele, ainda que marginalmente, por 30 anos, e carrega, como legado, participação em esquemas de rachadinhas e homenagens a milicianos. Infelizmente, a justificativa de alguns de que persistem hoje com o presidente, acriticamente, por medo do petismo voltar, não cola mais.
Portanto, se estão com Bolsonaro é porque compartilham, acima de tudo, do seu sistema de valores destrutivos e anti-civilizatórios, com os quais, lamentavelmente, como é possível perceber cada vez de maneira mais clara, à medida que as máscaras vão caindo, estão absolutamente fechados por meio de seu ressentimento mal canalizado, incapaz de estabelecer pontes para o presente e muito menos para o futuro. Por isso, admitir que são todos de extrema-direita ou marcham para este campo político é fundamental para que, primeiro, reconheçam aonde se situam. Depois, para que possam refletir sobre se esta posição contra as liberdades lhes é verdadeiramente própria e confortável, responsabilizando-se por sua escolha.
* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.
