Home
/
Noticias
/
Economia
/
Dólar sobe a R$ 5,39 com cenário político e dados dos EUA no radar; Bolsa cai pelo quarto dia
Dólar sobe a R$ 5,39 com cenário político e dados dos EUA no radar; Bolsa cai pelo quarto dia
Cautela persiste no mercado doméstico diante da indefinição sobre a agenda econômica do governo Lula 4
Por Folhapress
29/10/2026 às 18:15
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Arquivo
Dólar fechou em alta de 0,76% nesta quinta-feira (29)
O dólar fechou em alta de 0,76%, cotada a R$ 5,387, nesta quinta-feira (29), com investidores cautelosos diante da indefinição sobre os rumos da política econômica do governo Lula e atentos à divulgação de dados econômicos dos Estados Unidos.
Durante o pregão, analistas voltaram a demonstrar preocupação com a trajetória da dívida pública brasileira. No exterior, a inflação americana de setembro mostrou resiliência e reforçou as expectativas de que o banco central dos Estados Unidos mantenha os juros elevados, o que torna os ativos americanos mais atrativos em relação aos brasileiros.
Em meio ao pessimismo nos mercados doméstico e internacional, a Bolsa recuou 1,06%, aos 169.186 pontos, pressionada por ações de bancos e empresas cíclicas. Foi o quarto pregão consecutivo de queda. Na mínima do dia, o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, caiu 1,31%.
Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, o pregão foi marcado pela cautela. "Essa aversão ao risco é natural quando não há uma política econômica brasileira fundamentada. O mercado prefere trabalhar com aquilo que conhece, mesmo que a notícia seja ruim. A incerteza, por si só, gera aversão ao risco, e é isso que continuamos vendo".
No mercado doméstico, as atenções permaneceram voltadas ao cenário político, a possíveis sinalizações sobre a política econômica do governo Lula e aos nomes que ocuparão os cargos da equipe econômica.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse na terça-feira (27) que reafirmou ao presidente Lula a necessidade de dar sinais ao mercado. Segundo ele, o governo já tem medidas prontas para apresentar, incluindo iniciativas para buscar o centro da meta fiscal.
Entre os nomes cotados para a pasta econômica de Lula, o mais comentado é o do governador do Piauí, Rafael Fonteles. Ele teria indicado que aceitaria renunciar ao mandato para assumir o Ministério. Na véspera (28), em conversa com o jornal Folha de São Paulo, o governador eleito disse que Lula fará governo ousado para melhorar a vida do povo, mas terá responsabilidade fiscal.
As afirmações, contudo, contradizem falas de outras autoridades do governo. Na terça, o ministro da SRI (Secretaria de Relações Institucionais), José Guimarães (PT), afirmou à imprensa que um pacote de ajuste fiscal não é prioridade até o fim do ano e não está sendo discutido pelo governo.
Em postagem em rede social nesta quinta, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, disse que o "tesouraço foi derrotado nas urnas e pela mobilização popular" e que o "candidato da Faria Lima perdeu e fugiu para os EUA".
A reeleição de Lula aumentou o receio de investidores de que o governo não adote medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. Segundo dados divulgados pelo Banco Central, a dívida bruta do Brasil se manteve em 82,9% do PIB (Produto Interno Bruto) em setembro, mesmo nível de agosto e maior índice desde 2021.
A expectativa de continuidade de uma política fiscal expansionista tende a elevar o prêmio de risco exigido pelo mercado para financiar o governo, pressionando os juros futuros. Taxas mais altas, por sua vez, encarecem o crédito para empresas e consumidores e podem reduzir as perspectivas de lucro das companhias, afetando o desempenho da Bolsa.
Em meio às indefinições, os juros futuros registraram alta. A taxa do contrato de DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2031 avançou 3 pontos-base, a 15,10%, enquanto a do DI de janeiro de 2035 subiu a 15,17%, em avanço de 4 pontos-base.
Também permaneceu no radar o temor de cobrança de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre os chamados títulos incentivados, isentos de IR (Imposto de Renda). A medida poderia incluir LCIs (Letras de Crédito Imobiliário), LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio), CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e debêntures incentivadas. A informação foi publicada pelo jornal O Globo na quarta-feira (28).
Para Gustavo Danilo, especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, a discussão sobre uma eventual cobrança de IOF sobre esses instrumentos acrescenta incertezas. Segundo ele, a possível mudança aumenta as preocupações com a previsibilidade das regras, especialmente por envolver investimentos que financiam setores importantes da economia. "Até existir um desenho mais claro, acaba sendo mais um elemento de incerteza", afirma.
Nesta quinta-feira, o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, negou que a tributação de títulos de investimento isentos esteja no radar. Em entrevista coletiva, Leal disse que o governo já avalia há algum tempo formas de tributar esses títulos para reduzir distorções no mercado e promover isonomia entre os instrumentos. Ressaltou, porém, que ainda é necessário estudar a melhor forma de fazê-lo e que não há nenhuma medida em discussão neste momento.
O exterior também pesou. Nesta manhã, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos informou que o PCE avançou 3,6% nos 12 meses até setembro, em linha com a expectativa dos analistas. O órgão também divulgou que o PIB (Produto Interno Bruto) do país cresceu 3,4% no terceiro trimestre, acima da projeção de 3,2% dos economistas consultados pela Bloomberg.
O Fed utiliza o PCE (índice de preços das despesas de consumo pessoal, na sigla em inglês) como referência para sua meta de inflação de 2%. Na véspera, a instituição manteve a taxa de juros entre 3,75% e 4%, mas reiterou o compromisso com a estabilidade de preços.
"O acúmulo de mais informações ajudará o Comitê a determinar a orientação de política monetária adequada para assegurar o retorno da inflação, em tempo hábil, à meta de 2% do Comitê", afirmou o Comitê Federal de Mercado Aberto, responsável pela definição dos juros. "O Comitê garantirá a estabilidade de preços."
Para Leonel Oliveira Matos, analista de inteligência de mercados da StoneX, os números mostram um quadro inflacionário mais desafiador, persistente e disseminado nos Estados Unidos, o que pode levar o Fed a elevar os juros nos próximos meses. "A principal surpresa veio do PIB norte-americano, que cresceu acima do esperado [...] O crescimento mais forte da atividade econômica nos Estados Unidos representa um fator de risco inflacionário."
Segundo ele, embora os dados reforcem a perspectiva de novas altas de juros pelo Fed, movimento que tende a fortalecer o dólar, essa reação não se concretizou. No exterior, o índice DXY, que mede o desempenho da moeda americana antes seis outras divisas fortes, recuou 0,19%.
No mercado acionário, os índices S&P 500, Nasdaq e Dow Jones recuaram 0,27%, 1,40% e 0,25%, respectivamente.
