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Bolsonaristas divulgam listas de boicote a empresas e falam em demitir petistas após reeleição de Lula
Bolsonaristas divulgam listas de boicote a empresas e falam em demitir petistas após reeleição de Lula
Por Catarina Scortecci, Cristiane Gercina e Gabriela Cecchin/Folhapress
28/10/2026 às 06:31
Foto: Reprodução
Os nomes de pequenos comércios que teriam apoiado a reeleição do presidente circulam em aplicativos de mensagens,
Após o resultado das eleições presidenciais deste domingo (25), mensagens de eleitores de Flávio Bolsonaro (PL) em redes sociais incentivavam a demissão de trabalhadores que declararam voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pregavam boicote a empresas que teriam se manifestado a favor da vitória do candidato do PT.
Parte dos casos já são alvos de procedimentos abertos no Ministério Público do Trabalho. De janeiro deste ano até as 23h59 de domingo, 1.937 denúncias de assédio eleitoral tinham sido registradas na Procuradoria-Geral do Trabalho em todo país.
Somente entre segunda-feira (26) até a tarde desta terça-feira (27), mais de 400 novas denúncias já tinham sido levadas ao órgão, saltando para um total de 2.364.
Segundo a PGT, a maioria envolve publicações em redes sociais incentivando demissão ou dizendo efetivamente que demitiu alguém em razão do voto no domingo. O movimento é chamado de "Demita um petista".
Os nomes de pequenos comércios que teriam apoiado a reeleição do presidente circulam em aplicativos de mensagens, publicações de redes sociais e até em um site que organiza o boicote em cada estado do país.
A Folha viu listas do tipo sendo divulgadas em capitais como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Rio de Janeiro, além de cidades do interior de São Paulo e de Minas Gerais. Empresários relatam desde ameaças e mensagens hostis até receio de perder clientes após a divulgação das listas.
No Paraná, dois parlamentares que fizeram campanha pelo candidato Flávio Bolsonaro usaram suas redes sociais para incentivar demissão de trabalhadores e foram denunciados pelo deputado estadual Requião Filho (PDT) ao MPT-PR (Ministério Público do Trabalho no Paraná).
Em seu perfil no X, o vereador de Curitiba Guilherme Kilter (Novo) narrou o que seriam declarações de pessoas supostamente demitidas em razão do voto no PT e publicou uma imagem com a frase "Demitir petista, gostoso demais".
"Dois dias depois da eleição do Lula, me parece que o movimento ‘demita um petista’ está mais forte do que nunca, e não sem razão. A maior crise da história do Brasil está batendo a porta e os empresários precisam se planejar", disse Kilter em um vídeo.
"Se você precisa fazer um corte de gastos ou uma reestruturação na sua empresa comece pelos petistas", continuou ele, que foi eleito deputado federal em 4 de outubro com o segundo maior número de votos na bancada do Paraná.
Nesta terça-feira (27), o MPT expediu uma recomendação para que Kilter publique uma retratação. Procurado pela reportagem por volta das 16h30, o vereador disse que ainda não tinha sido informado sobre a posição do MPT.
No documento, o MPT recomenda que o parlamentar publique outro conteúdo, em mesmo formato e no mesmo canal, informando que trabalhadores têm o direito de escolher livremente seus candidatos nas eleições e que os empregadores "não podem adotar qualquer medida de caráter retaliatório".
O MPT disse que, se a recomendação não for cumprida, outras medidas administrativas e judiciais poderão ser tomadas.
A vereadora de Londrina Jessicão (PL), que é conhecida pelas bandeiras bolsonaristas, também usou as redes sociais para incentivar a demissão de trabalhadores e o MPT analisa o caso.
Deputada estadual eleita em 4 de outubro com a segunda maior votação para a Assembleia Legislativa do Paraná, Jessicão escreveu em seu perfil: "Você tem uma empregada que é petista? Demita! Seu barbeiro é petista? Troque de barbeiro. A porcaria do voto dele prejudica o seu negócio".
Procurada, a parlamentar afirmou em nota que "suas declarações se deram exclusivamente no âmbito do livre debate político e democrático" e que "em nenhum momento sua fala representou defesa de práticas discriminatórias ou do uso da preferência partidária como motivação para desligamentos profissionais".
De acordo com o MPT, embora o mais comum seja a ocorrência do assédio eleitoral por meio de atos praticados diretamente pelo empregador ou seus prepostos, existe a possibilidade de responsabilização de terceiros por incentivar a dispensa de trabalhadores por motivação política, já que se trata de um ato discriminatório.
Segundo o órgão, isso pode gerar uma condenação ao pagamento de indenização por danos morais coletivos.
Os três estados com maior número de denúncias de assédio eleitoral ligado ao trabalho são São Paulo, com 439 casos, Minas Gerais, com 232, e Paraná, com 220, levando em conta dados disponibilizados até as 17h30 desta terça.
Em 2025, uma campanha "Demita um extremista" ganhou força após empresas passarem a demitir quem fizesse publicações em redes sociais sobre o assassinato do ativista pró-Donald Trump Charlie Kirk, nos Estados Unidos.
Em 2022, após a vitória do presidente Lula, também houve um movimento pró-boicote a empresários que votaram em Lula e contra trabalhadores que apoiam o petista.
DEMISSÕES COM BASE EM PREFERÊNCIA POLÍTICA SÃO ILEGAIS
Demissões com base na preferência política dos trabalhadores são consideradas discriminatórias no Brasil, conforme a lei 9.029/1995, e podem resultar em ações na Justiça do Trabalho.
O país também é signatário da convenção 111 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que proíbe a prática desde 1958. A convenção está em vigor no Brasil desde 26 de novembro de 1966.
Segundo a advogada Priscila Arraes Reino, do Arraes e Centeno Advocacia, não se pode demitir por opinião política, cor, raça, opção sexual e doença grave estigmatizante. Ela diz que o empregado tem liberdade para declarar seu voto, comemorar resultados eleitorais e manifestar suas opiniões políticas nas próprias redes sociais.
A empresa não pode usar a orientação partidária como justificativa para a demissão nem alegar que o posicionamento contraria sua cultura organizacional.
"A cultura de uma empresa não pode ser baseada em posicionamento político partidário. Exceto se o funcionário esteja trabalhando no gabinete de um partido, por exemplo", afirma.
Priscila tem atendido casos de trabalhadores preocupados com a campanha "Demita um petista", que ganhou força nas redes sociais. Segundo ela, a orientação é para que os trabalhadores tenham provas da dispensa. Eles devem gravar conversas, guardar documentos, mensagens, emails e ter testemunhas.
Se o trabalhador provar na Justiça ter sido demitido por questões políticas, ele pode reverter o quadro. A advogada afirma que é possível solicitar uma tutela antecipada para que o empregador seja obrigado a reintegrar o funcionário ao quadro e pagar os salários atrasados enquanto sai a decisão judicial final.
Há, no entanto, casos em que a empresa pode pedir ao profissional que não manifeste sua opinião política de forma pública, não defenda voto ou se mostre favorável a candidatos, que é quando a atividade exige certo "distanciamento" ou quando o funcionário atua nas redes da empresa.
"Neste caso, é preciso ter manual indicando o motivo e que a regra vale para qualquer espectro político. Se a pessoa descumprir, é demitida por descumprir as regras da empresa, não porque declarou voto ou apoio", afirma.
Clemente Ganz Lúcio, presidente do Fórum das Centrais Sindicais, afirma que centrais como CUT (Central Única dos Trabalhadores), Força Sindical e UGT (União Geral dos Trabalhadores), entre outras, estão acompanhando os casos e orientando os sindicatos a agir contra demissões motivadas por posicionamentos políticos.
Ele diz que o trabalhador deve denunciar os casos ao sindicato que representa a sua categoria, ao MPT (Ministério Público do Trabalho) e até mesmo, à polícia, se for o caso. Lúcio diz que é preciso enfrentar o movimento, e afirma saber que não se pode atribuir o extremismo a todos os eleitores de determinado campo político.
"De cada mil, tem um estúpido. Daqui a um tempo, terá um arrefecimento, mas está caótico. Sabemos que é um campo político que mobiliza atitudes extremas, mas temos de desmobilizar. Não dá para dizer que os milhões que votaram nele [Flávio Bolsonaro] acreditam nisso [demitir quem votou em Lula], mas tem uma parte que acredita. Vamos ter de enfrentar."
