/

Home

/

Noticias

/

Brasil

/

Desafio de Lula é isolar extrema direita para unir o país, afirma André Singer

Desafio de Lula é isolar extrema direita para unir o país, afirma André Singer

Cientista político da USP não vê problema de legitimidade com prorrogação da votação

Por Uirá Machado/Folhapress

26/10/2026 às 17:15

Atualizado em 26/10/2026 às 17:19

Foto: Reprodução

Imagem de Desafio de Lula é isolar extrema direita para unir o país, afirma André Singer

O cientista político André Singer

Para o cientista político André Singer, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu uma inédita virada do primeiro para o segundo turno graças às mobilizações populares de esquerda que tomaram as ruas de diversas cidades do país.

Professor titular do Departamento de Ciência Política da USP, ele considera que as manifestações na avenida Paulista, em São Paulo, foram os maiores atos da esquerda na cidade —talvez no Brasil. "E são uma resposta, ainda que tardia, à grande manifestação da direita na véspera do impeachment da então presidente Dilma Rousseff [PT]", afirma.

Lula venceu Flávio Bolsonaro (PL), com 51,79% dos votos válidos contra 48,21%, e foi reeleito para o quarto mandato. Ele conquistou cerca de 10 milhões a mais de votos em relação ao primeiro turno, enquanto o senador cresceu quase 4 milhões.

Autor de livros como "Os Sentidos do Lulismo" e "Impasse: o Brasil Diante da Onda Reacionária", Singer ainda aponta outros fatores importantes para a reeleição do petista: a reorientação da campanha para dialogar com problemas das camadas populares e a incorporação da política digital, com o deputado federal André Janones (Rede-MG).

A eleição de 2026 foi marcada por uma confusão inédita, com a prorrogação do prazo de votação em duas horas além das 17h. Singer descarta que esses problemas interfiram na legitimidade do pleito. "Até porque os eventos que levaram à dilatação do prazo de votação teriam prejudicado mais Lula".

Ele também considera que o petista tem experiência para governar com um Congresso Nacional hostil e afirma que, para unir o país, o desafio é isolar a extrema direita, cuja força ele calcula em torno de 15% do eleitorado.

"Eu queria chamar a atenção para duas coisas. A diferença em 2026 acabou sendo maior do que a de 2022. Em 2022 foi 1,8 ponto percentual, agora a diferença dobrou".

O que explica a virada inédita que o Lula conseguiu nesta eleição, após ter terminado atrás de Flávio no primeiro turno?

Há três fatores fundamentais. O primeiro foi uma mudança pouco percebida que o Lula operou na campanha ainda na primeira quinzena de setembro, antes do primeiro turno. Ele passou a reconhecer que havia produtos caros nos mercados e começou a sinalizar que proibiria as bets. Com isso, ele mudou completamente a campanha, porque começou a dialogar com problemas presentes das camadas populares. Acho que esse fator foi pouco percebido porque as pessoas têm notado mais a mudança do primeiro para o segundo turno, que de fato aconteceu.

Essa mudança resultou em um conjunto de medidas que se estendeu até o reajuste do Bolsa Família, à PEC [proposta de emenda à Constituição] que prevê o transporte gratuito nos fins de semana e, muito importante, a aprovação da mudança da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. Isso dialogou com essas mobilizações, que são mobilizações jovens.

O segundo fator é a incrível mobilização popular. Pela minha memória, é a maior mobilização de esquerda, genericamente falando, que ocorreu no Brasil. As duas mobilizações na avenida Paulista são as maiores manifestações que a esquerda fez em São Paulo e possivelmente no Brasil. E são uma resposta, ainda que tardia, à grande manifestação da direita na véspera do impeachment da então presidente Dilma Rousseff [PT], que a Folha considerou a maior manifestação da cidade. Infelizmente, não vamos ter elementos comparativos, porque o Datafolha não fez a mesma mensuração, mas, de maneira impressionista, essas manifestações atuais equivaleram àquela. Esse talvez até tenha sido o fator decisivo, mas não posso comprovar, então falo em três.

O terceiro fator é essa incorporação da política digital por meio dessa estruturação que o deputado André Janones fez, que de fato é uma coisa nova no campo da esquerda. Aparentemente, ele conseguiu capilarizar essas duas mudanças anteriores que mencionei, que me parecem centrais.

Algumas das medidas que o sr. citou, como o reajuste do Bolsa Família, receberam críticas pelo caráter eleitoreiro. Existe, além disso, uma preocupação com o impacto nas contas públicas. Como o senhor vê essa situação?

As medidas de fato ocorreram no momento em que a eleição estava sendo decidida, então isso foi o pano de fundo. E o custo que elas implicam vai incidir sobre o gasto público a partir do ano que vem, mas acho que há uma sobrevalorização do problema do déficit público. O governo tomou medidas no sentido de conter o déficit. Medidas até debatidas no âmbito da esquerda, que estão sinalizadas no arcabouço fiscal.

E acredito que o governo Lula tem sido suficientemente responsável do ponto de vista fiscal. Em última análise, essas medidas farão girar a economia e, portanto, aumentar a receita de impostos. Todas essas medidas vão significar maior poder aquisitivo para a população e farão com que a economia volte a girar, o que vai aumentar a receita.

Em 2022, Lula venceu com uma frente ampla. Muitos dos atores dessa coalizão se viram pouco representados no terceiro mandato. Como Lula deve agir em relação a isso no quarto mandato?

Esse é um aspecto singular desta eleição. O que chamo de a fração cosmopolita da burguesia que abertamente apoiou Lula em 2022 não o fez desta feita. Ou seja, os empresários de todos os setores neutros —o agronegócio é abertamente favorável à candidatura derrotada— não se posicionaram na campanha deste ano. Diria que foi uma posição até parecida com a de 2018.

Portanto, do ponto de vista de classe, não do ponto de vista político-partidário, a coalizão que sustentou a vitória do presidente em 2026 é bastante diferente da que sustentou a de 2022. Na prática, quem ganhou foi o movimento popular de esquerda que se organizou espontaneamente assim que acabou o primeiro turno, com o candidato da extrema direita dois pontos percentuais acima. Acho que essa eleição termina com um compromisso popular do Lula. Como líder popular que é, penso que ele vai levar isso em consideração nas decisões que tomar daqui para frente.

A inédita prorrogação do prazo de votação determinada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) afeta a legitimidade da vitória?

Não. Até porque os eventos que levaram à dilatação do prazo de votação teriam prejudicado mais o candidato Lula. Portanto, a vitória dele me parece, desde esse ponto de vista, completamente incontestável.

As pesquisas de opinião mostraram rejeição alta de ambos os candidatos, e Lula venceu por margem pouco superior a 50%. O que ele deve fazer para unir o país?

Eu queria chamar a atenção para duas coisas. A diferença em 2026 acabou sendo maior do que a de 2022. Em 2022 foi 1,8 ponto percentual, agora a diferença dobrou. A segunda coisa é que precisamos fazer uma distinção importante entre o que é a extrema direita e o que é o conjunto da direita. Penso que o bolsonarismo deve ter cerca de 15% dos votos. Mas, como a direita é muito fragmentada no Brasil e é mais representada pelo centrão, a direita não tem bons candidatos presidenciais, seus nomes não têm grande competitividade. Numa situação como essa, a extrema direita sobressai.

O que acontece é que a extrema direita, há três eleições, está polarizando o conjunto da direita. A extrema direita quer eliminar a democracia no Brasil. O conjunto da direita não quer. O trabalho que tem que ser feito, e isso é importante, é um trabalho de isolar a extrema direita. Esse é o desafio que está posto no Brasil e no mundo. E acho que esta vitória da democracia no Brasil vai ter impacto mundial.

O Congresso que foi eleito neste ano é mais de direita que o de 2022. Lula terá problemas de governabilidade?

Esse é um ponto importante. De fato, como o primeiro turno foi diferente do segundo, ele ampliou a representação do PL, que representa o bolsonarismo tanto no Senado quanto na Câmara. Eles não têm maioria, mas têm uma bancada bastante expressiva, como quase nunca ocorreu desde a redemocratização, e isso pesa. Nesse particular, acho que Lula adquiriu uma capacidade de negociação com os partidos do centrão quase única no Brasil. Não conheço um político que tenha, no campo da esquerda, conseguido dialogar com esses setores e traçar uma convivência, em muitos momentos os levado até o próprio governo.

Então, sem desconhecer a importância que teve o aumento das bancadas do PL, penso que o desempenho deve ser o de isolar essas bancadas, que em certa medida foi o que aconteceu no terceiro mandato. Por exemplo, o presidente conseguiu aprovar isenção do Imposto de Renda e redução da jornada de trabalho quase por unanimidade. Penso que não vai ser fácil, mas o caminho está aberto pelo que foram os mandatos anteriores.

O STF tem sido um fator central, com o que muitos chamam de politização da Justiça ou judicialização da política. Qual a expectativa do sr. nessa frente?

Estão acontecendo as duas coisas, ou seja, há uma judicialização da política e, em decorrência, há uma politização do Judiciário. Neste momento em que estamos passando pelas consequências do caso Master, estamos na presença de uma crise que decorre desses dois processos, e nenhum deles é benéfico para a democracia. Sem dúvida, o presidente terá de lidar com isso no quarto mandato. Ele próprio assinalou na campanha que terá que ser proposta uma reforma do Judiciário. Essa situação, em benefício da democracia, precisa ser superada. E a única maneira de superar é produzir mudanças para que a sociedade volte a acreditar no Judiciário. Sem a credibilidade do Judiciário, a democracia fica manca.

Do ponto de vista institucional, essa terá que ser a prioridade dele. O chefe do Executivo não é chefe do Judiciário, mas o presidente da República tem papel arbitral entre as instituições, e na eleição presidencial se concentra a vontade da maioria do país. Sou otimista, no sentido de que me parece que o presidente enunciou diversas vezes que quer ajudar sem interferir. Creio que, se vier a acontecer, a recuperação da credibilidade do Judiciário possa ser um dos elementos institucionais mais positivos do quarto mandato.

Parte da sociedade fala em impeachment de ministros do STF, a começar por Alexandre de Moraes. Isso nunca aconteceu. Os efeitos positivos de uma medida como essa superariam as eventuais sequelas negativas?

Num primeiro momento, eu diria que não devemos começar pela ideia de impeachment. Devemos começar pela necessária apuração dos fatos. As responsabilidades precisam ser expostas. Acho que a ideia de impeachment de ministros, tal como está colocada hoje, é uma bandeira com a qual devemos ter cuidado, se não evitar, porque é uma bandeira da extrema direita, que foi levantada com uma finalidade específica, que era punir um ministro que havia sido muito vocal na defesa da democracia e da condenação dos golpistas de 8 de Janeiro. Mas não devemos tomar posições a priori nesse particular. Devemos avaliar, deixar que as responsabilidades sejam apuradas e verificar como o próprio Judiciário vai lidar com elas, de forma que possa recuperar sua credibilidade para ajudar a democracia brasileira —como de fato ajudou durante o governo de Jair Bolsonaro [PL] e na tentativa de golpe.

O sr. foi porta-voz de Lula no primeiro mandato e, depois, como acadêmico, publicou livros importantes sobre o lulismo. Qual é a principal marca dele que continuou ao longo do tempo e o que mudou após os governos?

O que acho que permaneceu é uma grande sensibilidade para o sentimento das camadas populares no Brasil. Uma capacidade que talvez tenha raízes na própria biografia do presidente. Ele tem uma espécie de sismógrafo dos humores populares, algo que acho raro no conjunto dos políticos brasileiros.

O que eu acho que mudou é o amadurecimento. Digamos assim, a capacidade de incorporar os acontecimentos negativos de tal maneira que é como se eles fossem amortecidos. Ele encaixa os golpes de uma forma como talvez não encaixasse antes.

Comentários
Importante: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião do Política Livre
politica livre
O POLÍTICA LIVRE é o mais completo site sobre política da Bahia, que revela os bastidores da política baiana e permite uma visão completa sobre a vida política do Estado e do Brasil.
CONTATO
(71) 9-8801-0190
SIGA-NOS
© Copyright Política Livre. All Rights Reserved

Design by NVGO

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria. Conheça nossa Política de Privacidade e consulte nossa Política de Cookies.