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Trump tenta enviar assessores ao Brasil para questionar eleições, mas Itamaraty nega vistos
Trump tenta enviar assessores ao Brasil para questionar eleições, mas Itamaraty nega vistos
Por Augusto Tenório e Ana Bottallo, Folhapress
25/07/2026 às 14:46
Foto: Divulgação/Arquivo
O governo Lula e o Itamaraty ligaram o alerta, temendo a instrumentalização da viagem
O Itamaraty negou o visto a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos que viajariam ao Brasil nos próximos dias.
Segundo revelou o The Washington Post neste sábado (25), o presidente americano, Donald Trump, planejava mandar os auxiliares para lançar dúvidas sobre a integridade e a transparência do processo eleitoral brasileiro, segundo quatro funcionários americanos e brasileiros ouvidos pelo jornal.
À Folha, integrantes do corpo diplomático brasileiro afirmaram que a decisão de negar o visto foi tomada após detectarem uma possível ligação entre o ataque às urnas promovido pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) e o governo Donald Trump.
Os vistos foram solicitados no dia 20 de julho pelo secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson. A divulgação de informação falsa sobre as urnas por Flávio ocorreu no dia 21, e a negativa do Itamaraty foi na sexta-feira (24).
A intenção dos funcionários do governo americano era chegar ao Brasil semanas antes do primeiro turno, que acontecerá no dia 4 de outubro. O governo Lula e o Itamaraty ligaram o alerta, temendo a instrumentalização da viagem.
A avaliação é que quando Flávio Bolsonaro repetiu uma informação falsa citando a CIA (sigla para Agência Central de Inteligência dos EUA), estava preparando seu discurso para caso de derrota na eleição. Isso poderia fomentar uma tentativa de intervenção.
Durante uma conversa com embaixadores na segunda-feira, Flávio afirmou: "Há poucos dias, por coincidência, há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela. [...] Muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma... Têm a mesma origem dessa empresa venezuelana".
Na convenção estadual do PT, neste sábado (25), Lula disse: "Quem de fora quiser vir se meter nas eleições brasileiras, já vou avisando logo, vai apanhar muito nas eleições".
"É uma manobra completamente incompatível com a democracia brasileira", disse uma autoridade ao Washington Post, que falou sob condição de anonimato porque não estava autorizada a dar entrevista.
O Departamento de Estado confirmou, em comunicado, que a viagem ao Brasil está na agenda de Barnes e Samson, mas não deu detalhes sobre o motivo da visita.
Nem Barnes nem Samson responderam à reportagem do Post solicitando comentários.
Esta é a segunda vez que o Itamaraty nega vistos a funcionários dos EUA neste ano. Em março, o governo Lula proibiu a entrada no país de Darren Beattie, conselheiro de Trump para o Brasil. À época, Beattie pediu para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão, mas o pedido foi negado. Integrantes do governo viram uma tentativa de tumultuar o processo pré-eleitoral no Brasil.
Além disso, segundo próprio presidente Lula disse à época, o cancelamento do visto de Beattie era uma resposta ao cancelamento do visto do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
"Aquele cara americano [Darren Beattie] que disse que vinha para cá para visitar o Jair Bolsonaro, ele foi proibido de visitar [Bolsonaro] e eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar o visto do meu ministro da Saúde, que está bloqueado", disse Lula na época.
Riley M. Barnes, natural de Uvalde, Texas, é cientista político pela Universidade de Washington, e Lee é mestre em relações internacionais pela Escola Bush de Serviço Público e Governança do Texas.
Barnes ocupa o cargo de secretário-assistente de Estado para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL, na sigla em inglês). Foi designado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, em fevereiro deste ano, para atuar também como coordenador especial do governo americano no Tibet. Em abril, o secretário delegou a ele as atribuições de embaixador itinerante para a Liberdade Religiosa Internaciona, além de ter sido indicado para presidir a agência Corpos da Paz.
Já Samuel D. Samson, natural de Boston, Massachusetts, diz ser um "texano orgulhoso". Nomeado para o cargo de subsecretário-assistente do DRL, sua função inclui a proteção de direitos naturais e o desenvolvimento de políticas para preservar a herança das sociedades ocidentais, incluindo os Estados Unidos, de acordo com sua biografia na página do Departamento de Estado.
Ele é autor de textos que falam sobre a importância de "preservar civilizações ocidentais", formar parcerias entre os Estados Unidos e países da Europa e o "combate a governos que transformam instituições políticas em armas contra seus próprios cidadãos e nossa herança em comum". Samson afirma que a "Europa se transformou em um foco de censura digital, migração em massa, restrições à liberdade religiosa e inúmeros ataques à autogovernança democrática".
A sua agenda global inclui visitar países, sobretudo do continente africano, em defesa da "América em primeiro lugar", principal bandeira de Trump a seus apoiadores.
