Pressão menor de carne e de hortifrúti segura inflação de alimento
Com oferta maior e preço em conta, carne de porco ganha parte do espaço da de boi
Por Mauro Zafalon/Folhapress
22/06/2026 às 20:35
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil/Arquivo
Inflação dos alimentos perde ritmo neste mês
A inflação dos alimentos perde ritmo neste mês, ajudada por pressão menor das carnes e dos produtos "in natura". A proteína animal, mesmo com demanda maior em tempos de Copa do Mundo e de festas juninas, subiu menos no acumulado da última quinzena de maio e da primeira de junho em relação a igual período imediatamente anterior.
É um jogo de competição, diz Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). Com a alta constante que a carne bovina vinha registrando, a suína e de frango ganharam a preferência do consumidor. Nessa competitividade, a bovina acaba cedendo lugar para as concorrentes, devido ao custo.
A Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) aponta que a carne suína está com queda de 6% neste ano; a de frango, de 4,5%, mas a de boi acumula elevação de 11,5%. A carne bovina se mantém pressionada porque reflete os preços elevados pagos pela indústria pelo boi no campo há um ou dois meses. Esse é o período entre a escala de abates dos animais e a chegada da carne ao consumidor.
A carne bovina perde ritmo, mas não registra a retração das demais porque ainda está em um cenário favorável de demanda. Uma redução poderá ocorrer a partir da segunda quinzena de julho, quando a Copa estará terminando, as festas juninas terão acabado e o período de férias fará o consumidor se alimentar menos em casa.
O pesquisador do Cepea acredita que o efeito das cotas da China ainda não esteja interferindo nos preços atuais. Pelas estatísticas da China, o Brasil exportou 724 mil toneladas até maio para o país asiático, preenchendo 65,4% da cota anual de 1,1 milhão de toneladas. No próximo mês, é possível que o preço da arroba de boi sinta os reflexos do final da cota, mas Carvalho lembra que, logo a partir de outubro, a indústria começa a se preparar para as entregas de janeiro de 2027, quando a cota aumenta em 100 mil toneladas, para 1,2 milhão. Aí a China deverá voltar ao mercado para compras que serão entregues a partir de janeiro.
Quanto à interrupção de compra pela União Europeia, programada para setembro, o pesquisador acredita que o problema será mais uma questão financeira do que de volume. Os europeus pagam bem pela carne bovina, que chega a até US$ 10 mil por tonelada no continente. Repassar as 130 mil toneladas por ano compradas pelos europeus não será grande problema, mas o Brasil receberá um valor menor pela proteína.
Carvalho diz que é preciso ver como ficará a dinâmica do mercado a partir de agora. Provavelmente os países que irão substituir o Brasil no mercado europeu virão buscar carne brasileira para o consumo interno, mas pagando menos. Diante desse cenário, Carvalho prevê um preço mais acessível da carne bovina também para os consumidores em julho e agosto. A indústria receberá menos pelo produto exportado, pagará menos para o pecuarista e, consequentemente, essa queda chega ao consumidor.
Um dos motivos da perda de ritmo de aumento das proteínas animais é a elevada oferta de carne suína. Os produtores aproveitaram os preços do milho e a boa demanda externa para elevar a produção. O excedente de oferta impactou na dinâmica da formação de preço.
Quanto aos produtos "in natura", eles sobem, mas em ritmo menor, segundo dados da Fipe. A pressão ainda vem do tomate, mas perde força em cebola, laranja, maçã, mandioca e verduras, devido à melhora na oferta.
