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Países citam facções, golpes e roubos em advertências a cidadãos sobre viagens ao Brasil

Países citam facções, golpes e roubos em advertências a cidadãos sobre viagens ao Brasil

Ao todo, 22 das 30 maiores economias do mundo relatam problemas de violência em cidades brasileiras

Por André Fleury Moraes/Folhapress

07/06/2026 às 07:20

Atualizado em 07/06/2026 às 10:57

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil/Arquivo

Imagem de Países citam facções, golpes e roubos em advertências a cidadãos sobre viagens ao Brasil

Aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo

Países de diferentes continentes recomendam cautela a cidadãos que queiram viajar para o Brasil e chegam a desaconselhar deslocamentos a determinadas regiões por problemas relacionados à violência e ao crime organizado.

Os comunicados também citam golpes, como o da maquininha e o da clonagem de cartão de crédito, e o risco de ser roubado nas ruas em assaltos à mão armada.

Avisos estão na seção de alertas para viajantes de 22 das 30 maiores economias do mundo. Especialistas ouvidos pela reportagem dizem que a escalada da violência em determinados locais no Brasil contribui para a deterioração da imagem do país no exterior.

O Itamaraty não comentou o assunto, e o Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que acompanha os comunicados com atenção.

A pasta afirmou reconhecer que "o enfrentamento à criminalidade organizada, à violência urbana e aos crimes patrimoniais segue como um desafio permanente do Estado brasileiro". Diz ter ampliado investimentos em inteligência e integração das forças de segurança.

Citou também medidas para reforçar o combate ao crime organizado, como a ampliação de ações especializadas da PF (Polícia Federal) e a aprovação da lei antifacção, que endureceu punições para integrantes dessas organizações.

No caso do crime organizado, citado por 17 países da relação, os alertas falam em gangues, grupos armados ou facções.

O Japão, por exemplo, diz que o Brasil convive "com uma alta taxa de criminalidade" e que "ataques e represálias de facções podem ocorrer até em locais públicos", sob o risco de civis serem atingidos.

Não é uma declaração vazia: o país asiático sustenta a informação a partir do assassinato do empresário e corretor de imóveis Vinícius Gritzbach, morto no fim de 2024 numa emboscada do PCC (Primeiro Comando da Capital) no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Três civis foram baleados naquela ocasião.

Países também desaconselham formalmente seus cidadãos a visitar comunidades, ainda que acompanhados de um guia turístico.

O Canadá, por exemplo, afirma que qualquer viagem aos complexos da Penha e da Maré, no Rio de Janeiro, deve ser evitada "por causa dos altos índices de crimes violentos, da frequência com que grandes operações policiais são realizadas e da dificuldade em se obter atendimento emergencial".

É uma descrição semelhante à alemã, segundo a qual "favelas do Rio são, no geral, controladas por criminosos e facções".

A SSP (Secretaria de Segurança Pública) do Rio disse à reportagem que "orientações voltadas a turistas estrangeiros fazem parte de protocolos adotados internacionalmente por diversos países". O próprio governo fluminense distribui cartilhas sobre recomendações em três idiomas.

Declarou também que não há um cenário de insegurança a turistas. "Em 2025, o Rio recebeu cerca de 2,2 milhões de estrangeiros e foram registradas aproximadamente 4.000 ocorrências envolvendo este público, ou seja, menos de 1%", afirma. No geral, relata a secretaria, os casos envolvem furto ou extravio de documentos.

Roubos

O problema não se limita às favelas.

Em São Paulo, diz a Espanha, cidadãos devem "evitar o uso de celulares ou a exibição de objetos de valor em público, pois há alto risco de roubo à mão armada a qualquer hora do dia e em qualquer lugar da cidade". A França, por sua vez, diz que "nenhum bairro está completamente imune".

No fim do mês passado, um homem foi socorrido em estado grave após ser baleado em Pinheiros, zona oeste da capital, durante um assalto. Os criminosos estavam em quatro motocicletas. Dias antes, em 18 de maio, o irmão de um PM foi morto no Morumbi após reagir a um roubo.

O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) declarou que mantém investimentos contínuos em segurança pública, com foco em inteligência, integração, tecnologia e presença policial em áreas estratégicas. Nenhuma cidade paulista está entre as cem mais violentas do país, acrescentou o governo, destacando ainda que 13 dos 20 municípios brasileiros mais seguros estão em São Paulo.

A administração estadual também citou quedas nos indicadores de roubos, furtos e latrocínios e afirmou que São Paulo é o principal destino turístico de estrangeiros no país, tendo recebido mais de 2,5 milhões deles em 2025.

A gestão Lula, por sua vez, disse que parte dos alertas "reflete preocupações legítimas relacionadas à segurança, especialmente em grandes centros e regiões de fronteira". Mas afirmou ser "importante evitar generalizações ante a dimensão continental do país, diferenças regionais e avanços nos indicadores criminais".

Alertas

Problemas também são citados pelas duas maiores economias do mundo.

Os Estados Unidos afirmam que a "taxa de crimes violentos é alta na maioria dos centros urbanos brasileiros". Já a China diz que o país "enfrenta problemas de segurança relativamente graves" e chega a enviar mensagens a cidadãos que estejam no Brasil para alertá-los sobre determinados riscos.

A reportagem viu uma delas. No texto, o Centro Consular do Ministério das Relações Exteriores da China relata que a segurança no Brasil "é em geral regular", mas que golpes com cartões de crédito, furto e roubo são práticas comuns.

Países também recomendam evitar viagens às cidades-satélites de Brasília, a algumas regiões do Nordeste —que concentra 17 das 20 cidades com mais homicídios no país— e principalmente à Amazônia.

A Bélgica, por exemplo, afirma que qualquer deslocamento à região amazônica deve "levar em conta a presença de grupos criminosos organizados e a limitada atuação do Estado".

Já a Polônia informa que "as regiões da floresta amazônica e do Pantanal, as áreas fronteiriças com o Paraguai e a Bolívia, e todas as grandes cidades são particularmente perigosas".

Combate

Os alertas ocorrem à medida que o Brasil ainda patina no combate ao crime organizado. A mais nova aposta de Lula foi lançada há poucas semanas e envolve um pacote de R$ 11 bilhões divididos em quatro eixos: esclarecimento de homicídios, enfrentamento do tráfico de armas, asfixia financeira do crime organizado e maior segurança nas prisões.

Professor de direito internacional da USP, o advogado Pedro Dallari diz que a emissão de alertas é prática comum entre os Estados, mas que o cenário descrito para o Brasil retrata um país que não consegue resolver os problemas da violência. "Não dá para fazer maquiagem", afirma.

"Não duvido que as mensagens [dos países] possam muitas vezes estar carregadas de preconceito", diz Dallari, "mas no geral elas citam coisas que a população percebe no dia a dia".

Pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada em maio mostrou que 41% dos brasileiros reconhecem a presença do crime organizado no bairro onde moram, e 35% deles dizem que o fator influencia muito a rotina na região de suas respectivas residências.

Não por acaso, um relatório sobre o cenário interno no Brasil elaborado pelo Reino Unido no ano passado diz que "a corrupção [no Brasil] é generalizada". O documento afirma que "grupos criminosos organizados, particularmente o PCC e as milícias, estabeleceram ligações políticas com autoridades, a polícia e o Judiciário".

São fatores que "repercutem negativamente para nós", diz o delegado Roberto Monteiro, da Polícia Civil de São Paulo, e que ocorrem "apesar dos esforços das autoridades". Segundo ele, questões recentes na segurança doméstica, especialmente o avanço das facções, impactam a imagem do Brasil no exterior.

Os problemas afetam diferentes áreas, afirmam Dallari e Monteiro, especialmente o turismo. O setor vem crescendo —foram 9,6 milhões de turistas em 2025, um recorde, segundo o governo federal, mas os números, disse Dallari à reportagem, "poderiam ser muito maiores".

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