Morre aos 100 Alan Greenspan, presidente do Fed por 20 anos
Por Érica Fraga e Helena Schuster/Folhapress
22/06/2026 às 09:50
Foto: Reuters / Reuters EUA
Alan Greenspan
De grande responsável por um longo período de prosperidade econômica a principal culpado pela devastadora crise financeira de 2008. Assim variou, de um extremo a outro, a fama do economista americano Alan Greenspan, que morreu nesta segunda-feira (22) aos 100 anos.
A morte foi anunciada pela esposa, Andrea Mitchell, correspondente-chefe em Washington da NBC News. "Alan faleceu em nossa casa esta manhã, aos 100 anos, devido a complicações da doença de Parkinson", disse a jornalista em comunicado.
Presidente do Fed (Federal Reserve, banco central americano) entre 1987 e 2006, Greenspan era um árduo defensor da teoria do "laissez-faire", proposta pelo economista britânico Adam Smith.
"Generalizei minhas experiências, o que aprofundou ainda mais minha avaliação do livre mercado competitivo como força do bem", escreveu Greenspan em sua autobiografia "A era da turbulência", publicada em 2007.
De aprendiz obstinado a maestro —como foi apelidado—, chegou ao topo de Wall Street tendo nascido em Washington Heights, bairro operário no extremo oposto de Manhattan, em Nova York.
Descendentes de judeus, os pais de Greenspan se divorciaram logo depois do seu nascimento, em 1926. O nova-iorquino foi criado apenas pela mãe, Rose, uma vendedora.
A distância paterna foi sofrida: "não ter pai deixou um grande vazio em minha vida", escreveu. De vez em quando, ele atravessava a cidade para visitar o pai, Herbert, que virou corretor em Wall Street.
Da família materna, herdou a afinidade pela música. Do pai, veio a predileção pelos números.
A outra paixão era o beisebol. Torcedor dos Yankees, aproveitou o talento matemático para desenvolver aos nove anos um código complexo para registrar a escalação dos times, o resumo dos jogos e o desempenho dos jogadores.
Chegou a praticar o esporte, mas aos 14 anos acreditava que tinha atingido seu apogeu. Na música, também soube reconhecer seu limite. Com 12 anos, dedicava de três a seis horas por dia à prática musical.
Clarinetista e saxofonista, chegou a estudar no prestigioso conservatório musical Juilliard e a tocar na juventude em uma banda com Stan Getz, a quem chamava gênio. "Eu sabia, por intuição, que nunca conseguiria aprender aquela virtuosidade", escreveu sobre o colega.
Acabou abandonando a música e ingressando na Escola de Comércio, Contabilidade e Finanças da Universidade de Nova York, em 1945. A partir dali, abraçou a economia com o mesmo afinco dedicado às suas outras paixões.
Ao contrário da maioria dos seus contemporâneos, não embarcou na onda do keynesianismo, escola de seguidores do economista John Maynard Keynes que pregou a necessidade de investimentos públicos maciços para tirar economias da recessão. Acabou se tornando um crítico de Keynes.
O relacionamento próximo que desenvolveria com a escritora e filósofa Ayn Rand ajudou a moldar suas ideias. O tímido Greenspan foi apresentado à Rand pela artista Joan Mitchell, com quem o economista teve um breve casamento de 10 meses, que terminou em anulação em 1952 por causa da inflexibilidade do economista.
Logo se fascinaria pelas ideias de Rand, defensora do individualismo e do liberalismo econômico.
Quando conheceu Rand, Greenspan trabalhava no National Industrial Conference Board, importante celeiro de pesquisas. Em 1954, se tornou sócio do economista William Townsend em sua empresa de consultoria.
O brilhantismo e a dedicação de Greenspan foram lhe conferindo fama no meio econômico, o que acabaria o levando à vida política. Em 1968, participou da campanha de Richard Nixon à presidência dos EUA. Mais tarde, foi assessor econômico do próprio Nixon, de Gerald Ford e de Ronald Reagan.
O breve casamento anterior, que teria terminado pela inflexibilidade de Greenspan, levou o economista a adotar por décadas um estilo de vida de "solteirão convicto". Ele se envolveu com apresentadoras de TV, senadoras e vencedoras de concursos de beleza, segundo a biografia "The Man Who Knew", lançada em 2016 por Sebastian Mallaby.
A vida de solteiro se encerrou alguns anos antes de Greenspan assumir o comando do Fed. Em 1984, ele começou a namorar a jornalista Andrea Mitchell, âncora e comentarista da NBC News, com quem se casou mais de uma década depois e a quem deixou viúva. O casal não teve filhos.
Em 1987, veio o convite para substituir Paul Volcker no comando do Fed. Pouco depois de sua posse, enfrentaria a primeira prova de fogo: o "crash" de outubro das Bolas de Valores.
Greenspan reagiu cortando os juros agressivamente. Essa se tornaria sua marca registrada em momentos de crise: oferecer liquidez imediata e irrestrita ao mercado financeiro.
Em 2020, aos 94 anos, ainda oferecia insights sobre a economia americana, quando alertou para a alta da inflação e o descontrole fiscal nos EUA que viriam após a pandemia de Covid-19. "Boa sorte para nós", disse o economista à época.
Naquele ano, foi lançado no Brasil o último livro escrito pelo economista, chamado "Capitalismo na América", que revisita a história dos EUA desde a chegada dos colonos para explicar os motivos dos sucessos e fracassos do modelo econômico.
Foi considerado o grande arquiteto do mais longo período de expansão da economia americana, entre 1991 e 2000, e se tornou um dos nomes mais respeitados do mundo, recebendo condecorações como a Ordem Nacional da Legião de Honra do governo francês e o título de cavaleiro britânico.
Mas sua política de juros baixos incentivou investidores a tomar riscos excessivos. O próprio Greenspan reconheceu a tendência ao cunhar o termo "exuberância irracional" ao se referir à bolha nos preços de ativos do setor de tecnologia em 1996.
Nos tempos de bonança, porém, não agiu para prevenir o acúmulo de apostas arriscadas como as que levaram à bolha nos preços do mercado imobiliário, culminando na crise de 2008. Acabou sendo considerado um dos principais culpados pela mesma.
O maior paradoxo do comando de Greenspan no Fed, para seu biógrafo, foi que ele percebia a fragilidade do mercado e era capaz de identificar bolhas, mas relutou em furar as que antecederam a crise financeira.
"O problema aqui é que algo que parecia solidamente construído, e, na verdade, um pilar fundamental da competição entre os mercados e do livre mercado, cedeu. E isso foi para mim um choque", admitiu um abatido Greenspan, trajando seus tradicionais terno e gravata escuros, em depoimento ao Congresso americano em outubro de 2008.
A sombra da crise o perseguiu até a morte. Ficará para a história o julgamento da contribuição do maestro para a economia.
