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Maternidade impõe barreiras profissionais a 8 em cada 10 mulheres líderes, diz estudo

Maternidade impõe barreiras profissionais a 8 em cada 10 mulheres líderes, diz estudo

Mães têm menos apoio de outras mulheres ao longo da carreira, aponta levantamento da Todas Group

Por Cristiane Gercina/Gabriela Cecchin/Folhapress

10/05/2026 às 10:00

Foto: Priscila Cossenzo/Arquivo pessoal

Imagem de Maternidade impõe barreiras profissionais a 8 em cada 10 mulheres líderes, diz estudo

Mariana Bicalho, ao lado dos filhos, fundou empresa e comunidade Mommys e dá consultoria a mulheres

A maternidade segue como um marcador que amplia as desigualdades no mercado de trabalho. 

Levantamento com mulheres em cargo de liderança mostra que 8 em cada 10 mães (79%) que tentam conciliar carreira e maternidade no ambiente corporativo já vivenciaram algum tipo de obstáculo de gênero em sua profissão.

O número é de 77% na média geral e de 73% no caso de mulheres que não têm filhos. O estudo, da Todas Group em parceria com Nexus, de pesquisa e inteligência de mercado, aponta que 45% das profissionais sem filhos dizem ter sido ajudadas principalmente por outras mulheres ao longo da carreira, percentual que cai para 38% entre as que são mães.

O levantamento ouviu 1.548 mulheres em fevereiro. Ao lidar com a maternidade, as profissionais também observam mais obstáculos: 33% das mães entrevistadas relataram ter enfrentado muitas barreiras para crescer por serem mulheres, enquanto 28% das profissionais sem filhos têm a mesma percepção.

Mariana Bicalho, fundadora da empresa e comunidade Mommys, com 10,8 mil mulheres, avalia que, mesmo com muito trabalho, esforço e tentativa de conscientização para mudança da sociedade, a maternidade ainda pesa diretamente sobre a trajetória profissional das mulheres.

"A mulher é cobrada para performar no trabalho como se não tivesse filhos e cuidar da casa como se não trabalhasse", afirma. Segundo ela, a sobrecarga faz com que muitas mães desistam de promoções, mudanças de carreira e oportunidades de crescimento.

Antes advogada, Mariana decidiu deixar a carreira jurídica ao engravidar de Lucas, hoje com 15 anos, por não ver a possibilidade de ter uma rotina que conciliasse a profissão e a vida de mãe.

Na tentativa de trocar experiências entre mulheres, montou uma comunidade no Facebook, que cresceu e virou uma empresa. Mariana, que também é mãe de Laura, 10, passou a estudar psicologia e outras linguagens para estruturar seu negócio.

A comunidade tem dois braços: o empresarial e o grupo inicial. Este último promove encontros, eventos e capacitação de mães. Estudo da Mommys em parceria com a Consultoria Maya, que ouviu 400 mães, mostra que 78,4% já deixaram de buscar crescimento profissional devido à maternidade.

Além disso, 9 em cada 10 se sentem sobrecarregadas, mesmo estando casadas ou em união estável (83,7% dos casos). "Existe uma construção cultural muito forte sobre o que é ser uma boa mãe, e isso pesa diretamente na vida profissional. A gente viu na pesquisa como a maternidade tem feito muitas mulheres abrirem mão do crescimento", diz.

A experiência da brasileira Polyana Ferrari, diretora global de Social Media e Influência da Deezer, mostra como as mulheres têm se adaptado. Com uma carreira consolidada, Polyana relata ter apoio no ambiente corporativo quanto à forma como vive sua maternidade. Isso, afirma, é resultado de anos de crescimento na carreira, o que a fez adiar o sonho de ser mãe.

Diz ter planejado de forma cuidadosa a maternidade, já que optou por uma produção independente e é mãe solo. "Eu queria já estar num lugar da carreira em que, se não crescesse mais, eu estivesse tranquila profissional e financeiramente", afirma. "Quando você é lésbica e precisa de um planejamento específico, existe muito mais racionalidade nesse processo", diz.

Aos 36 anos, Poly iniciou o tratamento para engravidar enquanto conciliava mudanças de país, promoções e decisões sobre carreira. No início, fez uma viagem de nove meses pelo Brasil, durante a pandemia. Chegou a sair da Deezer e trabalhar em outra empresa.

Em um dos momentos mais decisivos de sua vida, quando já pensava em fazer uma FIV (Fertilização in Vitro), recebeu uma proposta para assumir um cargo global. "Quando achei que estava pronta para focar a vida pessoal, a vida respondeu: você vai ter que escolher de novo", diz.

Poly conta que resolveu fazer a FIV. Viajou para a França pouco tempo depois do resultado positivo, mesmo com medo de tantas horas em um avião. Hoje mãe de Cora, de quase dois anos, afirma que a maternidade mudou totalmente sua relação com trabalho e produtividade.

Apesar de ter rede de apoio —a mãe mora provisoriamente com ela—, relata que a readaptação profissional foi marcada por cansaço, privação de sono e necessidade de impor limites. "Você se redescobre como profissional. Tem menos tempo, menos energia e muitas caixinhas abertas na cabeça. E a sociedade ainda não considera isso com naturalidade."

Para ela, o peso é ainda maior por ser mãe solo. "Quando as mulheres ocupam cargos de liderança e continuam sendo as principais responsáveis pelo cuidado, isso pesa muito", afirma. Poly diz que não trocaria a experiência da maternidade, porque se sente realizada, mesmo diante dos desafios. "Você se redescobre como ser humano pelos olhos de uma criança".

Dona de um grupo de bares cariocas em São Paulo, Mariele Horbach, 42, afirma que, mesmo após se tornar empresária, enfrenta desconfiança em um setor majoritariamente masculino. "Sempre que eu vou a uma reunião com fornecedores, que geralmente são todos homens, preciso me autovalidar", diz.

Ela empreendeu aos 18, e é mãe de dois filhos, de 7 e 12 anos. Mariele afirma que a maternidade ampliou os desafios de sua rotina. "Você começa a falar ‘Meu Deus, e agora? Como eu vou conciliar tudo isso? A responsabilidade com um filho ainda recai sobre as mulheres."

A executiva Adriana Alcântara, 52, gerente da Audible —serviço de áudio da Amazon— afirma que a maternidade coincidiu com um dos períodos mais difíceis da vida profissional. Ela voltou ao trabalho após a licença-maternidade assumindo um novo emprego, com viagens frequentes e uma filha bebê.

O resultado foi um burnout —numa época em que o termo ainda era pouco discutido. "Voltei a trabalhar pós-licença-maternidade, aceitei um desafio novo, o que foi um erro", avalia. "Comecei a não me sentir bem, até as minhas próprias entregas foram comprometidas, meu emocional muito comprometido".

Para Adriana, que tem mais de 30 anos de carreira, mulheres em cargos de liderança ainda enfrentam avaliações diferentes na comparação com homens.

Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, afirma que o estudo mostra que a maternidade não interrompe necessariamente a trajetória profissional, mas altera de forma profunda as condições em que ela acontece. "O que vemos é uma combinação de maior percepção de barreiras, redução da rede de apoio e aumento das renúncias".

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