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Ação da Polícia Militar na USP tensiona greve e se torna alvo de críticas da comunidade acadêmica
Ação da Polícia Militar na USP tensiona greve e se torna alvo de críticas da comunidade acadêmica
Movimento, que já perdia força, agora ganha adesão após operação com relatos de violência policial
Por Bruno Lucca/Folhapress
10/05/2026 às 17:45
Foto: Guilherme Farpa/Divulgação
PM realizou operação para retirar 150 alunos do saguão do prédio administrativo da USP, ocupado havia três dia
A desocupação da reitoria da USP (Universidade de São Paulo) pela Polícia Militar tensionou a greve dos estudantes —que se dissipava— e virou alvo de críticas de professores e diretores. Algumas unidades que já tinham desmobilizado a paralisação, agora reconsideram voltar a protestar.
Pouco depois das 4h deste domingo (10), cerca de 50 agentes realizaram uma operação para retirar 150 alunos do saguão do prédio administrativo, ocupado havia três dias. Houve registro de violência. Cinco alunos foram hospitalizados e quatro, detidos. O governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) diz investigar possíveis excessos.
A ação era planejada desde sexta-feira (8), como apurou a reportagem. A USP afirmou não ter sido avisada sobre a operação da PM e repudiou o ato.
Desde a invasão do prédio, na tarde de quinta-feira (7), os alunos tentavam contato com a reitoria para tratar uma possível solução. O objetivo era oferecer uma desocupação pacífica em troca da retomada das negociações pelo fim da greve estudantil, encerradas unilateralmente pela USP dias antes. Nenhuma mensagem ou ligação foi respondida pela gestão de Aluisio Segurado.
Na noite após a entrada dos manifestantes na reitoria, uma assembleia foi realizada. Nela, foi votado o seguinte encaminhamento: caso o reitor oferecesse uma data para conversa entre as partes, o saguão seria esvaziado. Novamente, nenhuma resposta da instituição.
Em entrevista na sexta-feira (8), o reitor Segurado afirmou desconhecer essa abertura. Para ele, até então, só havia intransigência.
A falta de diálogo da reitoria e a subsequente ação das forças de segurança mudaram a postura das faculdades. Antes críticas à ocupação, agora se colocaram ao lado dos estudantes.
Desde as primeiras horas deste domingo, diretores e professores da USP têm se manifestado repudiando a desocupação pela Polícia Militar. A ação foi classificada como violenta e desrespeitosa.
A primeira manifestação veio da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), condenando o ato "na calada da noite, sem sequer tentativa de negociação para uma solução pacífica e com aspectos de brutalidade exibidos em imagens circuladas na mídia".
Segundo a unidade, independentemente da avaliação sobre a ação dos estudantes, foi escolhido o meio mais inadequado para resolver conflitos dentro da universidade.
A ECA (Escola de Comunicação e Artes) seguiu linha semelhante. A unidade considerou inaceitável o recurso à força policial no ambiente acadêmico e defendeu o respeito à integridade física e à dignidade das pessoas em qualquer estratégia de resolução de conflitos.
O Instituto de Psicologia condenou a ausência de tentativas de negociação, e a Faculdade de Saúde Pública exigiu esclarecimentos sobre as circunstâncias da ação policial.
Na Faculdade de Direito, professores do Departamento de Direito do Trabalho e Seguridade Social divulgaram extensa nota afirmando que a sequência de violência escalada —"da negativa de diálogo ao uso do aparato policial do Estado, sem comunicação prévia"—evidencia que a USP ainda trata parte de seus alunos como invasores de uma propriedade privada historicamente reservada à elite.
Os acontecimentos desta madrugada também provocam um efeito reverso no movimento: a dissolução da greve estava em curso, mas agora está sendo revisada.
Nos últimos dias, diversos cursos e campi haviam retomado as aulas. A partir da ação da PM, esse processo está sendo reconsiderado. Assembleias foram convocadas para revisar a posição dos estudantes e definir uma agenda mais agressiva de cobranças à reitoria e ao governo do estado. Agora, não apenas sobre aumento de auxílios, mas também sobre combate à violência e maior diálogo institucional.
Leia também: PM usa bombas, gás e 'corredor polonês' para desocupar reitoria da USP
