Derrocada do conglomerado do Master reduz patrimônio do FGC em R$ 17,1 bi
Por Júlia Moura, Folhapress
28/04/2026 às 16:49
Foto: Divulgação/Arquivo
Fundo terminou o ano passado com R$ 123,2 bilhões disponíveis após ressarcir clientes de Daniel Vorcaro
O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) terminou 2025 com um patrimônio líquido de R$ 123,2 bilhões, uma queda de 12,25% em relação aos R$ 140,4 bilhões de 2024, antes da onda de liquidações envolvendo o Banco Master.
Balanço divulgado nesta terça-feira (28) aponta que, considerando os valores arrecadados com os bancos associados ao fundo e os valores pagos com os reembolsos, houve déficit de R$ 17,1 bilhões no ano passado.
O FGC garante até R$ 250 mil, por CPF ou CNPJ, para investimentos em produtos como conta corrente, poupança, CDB, RDB, LCI, LCA e LCD, por instituição financeira associada ou conglomerado.
As liquidações extrajudiciais de Banco Master, Master de Investimentos e Letsbank levaram o fundo a reservar R$ 40,6 bilhões ao final de 2025 para pagamento de garantias aos credores, que começou em 17 de janeiro de 2026.
Já as liquidações de Will Bank e Pleno, também ligados ao conglomerado de Daniel Vorcaro, demandaram mais R$ 11,2 bilhões.
Ao total, foram provisionados R$ 51,8 bilhões e pagos R$ 49 bilhões, ou seja, 94,5% do total. O restante depende do cadastramento dos credores nas plataformas do FGC. Até o momento, o pagamento de garantias já alcançou 870 mil clientes e investidores dessas instituições.
As contribuições das instituições associadas totalizaram R$ 6,3 bilhões em 2025, ante R$ 5,7 bilhões em 2024. Além disso, o resultado financeiro dos investimentos do fundo alcançou R$ 21,8 bilhões, acima dos R$ 10,8 bilhões do ano anterior, com rentabilidade correspondente a 99,39% da Selic média para o período.
Os depósitos elegíveis à garantia também cresceram e somavam R$ 5,53 trilhões ao final de 2025 ante R$ 5 trilhões em 2024. Os depósitos a prazo cresceram 11,81% na comparação anual e passaram a representar 58,7% do total dos instrumentos elegíveis à garantia do FGC.
Estavam cobertos pelos limites do fundo 47,93% do total. Em relação a contas individuais, 99,65% estavam integralmente cobertas pela garantia.
RECOMPOSIÇÃO DO FUNDO
Dados os gastos do FGC com o Master, o fundo aprovou junto aos seus associados o adiantamento de 60 meses de contribuições, que foi pago ao fim de março.
Entre os dias 23 e 25, o fundo recebeu R$ 32,2 bilhões, o que deixou o patrimônio líquido em R$ 118,5 bilhões ao fim do primeiro trimestre de 2026.
Este valor pago pelos bancos saiu do depósito compulsório de cada uma das instituições no Banco Central, de modo a minimizar o impacto no sistema financeiro. Compulsório é a fatia dos depósitos que cada banco deve deixar guardada no BC para assegurar sua liquidez e estabilidade.
MUDANÇAS PARA EVITAR UM NOVO MASTER
O BC também apertou as regras para captações de instuituições com garantia do FGC, ao exigir que os recursos sejam lastreados em ativos de maior qualidade, que podem ser títulos públicos, operações de crédito, depósitos compulsórios, entre outros.
Além disso, se os depósitos do banco garantidos pelo FGC superarem em seis vezes o seu patrimônio líquido e se forem mais que 890% de suas captações, ou se superarem em dez vezes o patrimônio líquido, estas novas captações deverão ser alocadas em títulos públicos federais, considerados os investimentos mais seguros disponíveis.
O regulador também decidiu expandir a exigência de enquadramento no Índice de Liquidez de Curto Prazo para instituições do segmento S2 da regulação prudencial –aquelas com ativos que respondem por 1% a 10% do PIB (Produto Interno Bruto), como BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Citibank e XP.
Até então, a regra valia apenas para os maiores bancos do país, do segmento S1, com porte maior ou igual a 10% do PIB. É o caso de Itaú, Bradesco, Santander, BTG Pactual, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Esse índice de liquidez deve ser maior que 1, o que significa que a instituição está em uma posição relativamente segura. O cálculo mede a relação entre o estoque de ativos de alta liquidez e as saídas líquidas de caixa projetadas para um horizonte de 30 dias, assegurando que as instituições mantenham reservas suficientes para enfrentar períodos de estresse.
O órgão também vai implementar um Índice de Liquidez de Curto Prazo Simplificado, que valerá para instituições dos segmentos S3 (porte médio, com ativos que respondem de 0,1% a 1% do PIB) e S4 (pequeno porte, com exposição inferior a 0,1% do PIB), desde que elas captem recursos do público por meio de depósitos ou da emissão de títulos.
Esse modelo seguirá a lógica do anterior, mas terá metodologia simplificada e adequada ao porte e à complexidade de instituições menores.
A implementação dos novos requisitos de liquidez seguirá um cronograma de transição, buscando assegurar às instituições tempo adequado para adaptação dos processos e sistemas. Entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2027, o limite mínimo dos indicadores será de 90% (0,9), passando para 100% (1) a partir de 1º de julho de 2027.
Em caso de desenquadramento do limite mínimo exigido, elas deverão entrar em contato com a supervisão do BC e apresentar um plano de recuperação.
O QUE É O FGC
O FGC é uma associação civil, sem fins lucrativos, com personalidade jurídica de direito privado. É ele que protege o brasileiro contra a falência de todas as instituições financeiras autorizadas pelo Banco Central a funcionar no Brasil.
O fundo foi criado em 1995, após autorização do CMN (Conselho Monetário Nacional), em meio a crise bancária que levou diversos bancos à falência. O seu objetivo final, além de garantir depósitos e investimentos até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, é conferir estabilidade ao sistema financeiro.
