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Moraes, que trocou mensagens que somem com Vorcaro, criticou textos apagados por 'Débora do batom’
Moraes, que trocou mensagens que somem com Vorcaro, criticou textos apagados por 'Débora do batom’
Ministro do STF, no voto em que defendeu a condenação cabeleireira pelo 8 de Janeiro, reproduziu a constatação da PF de que havia indícios de que a mulher ‘tenha apagado do seu telefone os dados relevantes’
Por Vinícius Valfré/Weslley Galzo/Estadão
06/03/2026 às 16:15
Atualizado em 06/03/2026 às 16:14
Foto: Luiz Silveira/STF
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, trocavam mensagens de visualização única, que somem assim que são abertas pelo interlocutor. Esse expediente indica uma contradição com o que o próprio magistrado já disse reprovar.
Em decisão proferida no caso da cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, a “Débora do batom”, que vandalizou a escultura “A Justiça”, localizada em frente ao STF, no 8 de Janeiro, Moraes reproduziu a constatação da PF de que havia indícios de que a mulher “tenha apagado do seu telefone os dados relevantes”.
“Reforça a conclusão referida, a demonstrar desprezo para com o Poder Judiciário e a ordem pública, o fato de que a ré apagou e ocultou provas de sua intensa participação nos atos golpistas do dia 8/1/2023, que ocasionaram os danos relatados, haja vista a conclusão apresentada pela Polícia Federal, em Informação de Polícia Judiciária, relacionada ao celular de sua propriedade”, escreveu no voto dele pela condenação da cabeleireira.
A análise mostrou uma interrupção nos diálogos do WhatsApp entre dezembro de 2022 e a primeira quinzena de fevereiro de 2023, fato interpretado pela PF como uma tentativa de apagar provas do envolvimento dela nos atos.
Informações encontradas pela Polícia Federal no celular de Vorcaro indicam relação entre o empresário e o ministro há pelo menos dois anos. Os arquivos estão na investigação da PF e uma parte dela foi enviada à CPI do INSS. Os registros são mantidos sob sigilo e ainda não permitem uma conclusão completa de como era a interação entre ambos.
A defesa do banqueiro apresentou um pedido ao STF para investigar o vazamento de informações do conteúdo do telefone celular dele, incluindo “conversas íntimas” e “supostos diálogos com autoridades e até com o ministro do STF Alexandre de Moraes”.
Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes conversaram por WhatsApp ao longo do dia 17 de novembro de 2025, data na qual foi cumprida a primeira ordem prisão contra o banqueiro. A PF cumpriu o mandado por volta das 22 horas, quando ele se preparava para embarcar em Guarulhos (SP) com destino a Dubai.
Há registro de uma janela de conversa entre ambos nesse dia, com mensagens trocadas entre 7h19 e 20h48. A informação foi publicada pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo, e confirmada pelo Estadão.
Ao extrair dados do celular de Vorcaro, a PF encontrou sete prints (capturas de tela), do dia 17, de textos escritos no bloco de notas com menções a negociações do Master com o Banco Central.
Os horários marcados no relógio do celular quando os prints foram feitos batem com os horários das mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes. Contudo, os metadados (informações sobre a origem do arquivo) indicam que os arquivos foram criados em horários diferentes dos que aparecem na tela.
Dos sete prints encontrados na extração de dados do celular de Vorcaro com data de 17 de novembro e que podem ter sido o de mensagens de visualização única enviadas a Moraes, alguns fazem menção direta à negociação de venda do Banco Master.
O primeiro, feito quando o relógio do celular indicava 7h18, Vorcaro escreveu que estava “tentando antecipar os investidores aqui, e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte”.
Ele prosseguiu: “Se vazar algo sera pessimo mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo. Se tiver alguma novidade vamos falar”.
Naquele dia, ele anunciaria a venda do Master para o grupo Fictor. Para a PF, tratou-se de uma “cortina de fumaça” para justificar uma fuga para o exterior.
Em outros dois prints, feito quando o relógio do celular marcava 17h26 e 18h32, o texto continha uma pergunta: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
Às vésperas da primeira prisão de Vorcaro, a venda do Master para BRB já era cercada de críticas e suspeitas de que a negociação tenha sido uma saída política para salvar a instituição do banqueiro, que enfrentava problemas.
A existência de um inquérito já era pública. O que só se soube no dia 17 de novembro foi a Vara da Justiça Federal onde ele tramitava. Segundo a PF, Vorcaro obteve essa informação por meio de hackeamento de sistemas, usou um site para divulgar que o caso tramitava na 10.ª Vara do Distrito Federal e, ato contínuo, colocou os advogados para peticionar contra a prisão.
‘Débora do batom’ foi condenada pelo STF
Débora foi condenada a 14 anos de prisão por ter pichado com batom a frase “Perdeu, mané” na estátua da Justiça, escultura que fica em frente ao edifício do STF, durante os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
A defesa alegou que a cabelereira pensou que “estava apenas exercendo um ato simbólico” e não sabia que estava cometendo um crime.
A frase “Perdeu, mané” é uma referência à resposta que o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do STF, deu a um bolsonarista que o abordou em Nova York contestando a derrota do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022.
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