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Medo de morrer, crises de soluço e Flávio candidato: relembre rotina de Bolsonaro na prisão
Medo de morrer, crises de soluço e Flávio candidato: relembre rotina de Bolsonaro na prisão
Por Ana Gabriela Oliveira Lima, Folhapress
24/03/2026 às 15:38
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/Arquivo
Ex-presidente reclamou de barulho do ar-condicionado, pediu SmartTV e quase recebeu conselheiro de Trump
Desde que violou a tornozeleira eletrônica usada na prisão domiciliar, em novembro de 2025, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pressionou o STF (Supremo Tribunal Federal) para, na impossibilidade de escapar da sentença por ter liderado um golpe de Estado, cumpri-la em casa.
A violação da tornozeleira foi seguida pela condenação na corte e o encarceramento na Superintendência da PF (Polícia Federal) de Brasília. Entre idas e vindas do hospital e por meio de seus advogados, o político pediu uma SmartTV e reclamou do barulho do ar-condicionado. Ele também escreveu uma carta aos brasileiros na qual anunciava o aval ao senador Flávio (PL-RJ) para concorrer à Presidência.
Em janeiro, Bolsonaro foi para a Papudinha, onde saiu para fazer uma cirurgia de hérnia e viu a possibilidade de receber a visita de Darren Beattie, conselheiro do presidente americano Donald Trump, além de receber políticos em busca de apoio para as eleições 2026.
Tudo isso aconteceu entre relatos do ex-presidente a aliados, como mostrou a Folha, sobre medo da morte e de um atentado contra Flávio.
Neste mês, um quadro de broncopneumonia foi tratado por sua equipe médica como agravamento das condições clínicas do ex-presidente. A defesa solicitou a prisão domiciliar, que foi concedida nesta terça-feira (24) pelo ministro do STF Alexandre de Moraes.
Relembre os principais momentos de Bolsonaro desde a tentativa de romper a tornozeleira até a concessão da prisão domiciliar.
‘Surto’ e tornozeleira
Em novembro de 2025, o ex-presidente cumpria prisão domiciliar quando tentou romper sua tornozeleira eletrônica. O equipamento era uma das medidas cautelares alternativas à prisão determinadas pela Justiça em contexto no qual Bolsonaro havia descumprido uma proibição de usar as redes sociais.
O político alegou ter tido um surto e uma crise de paranoia. Depois do episódio, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou sua prisão preventiva. Além da violação da tornozeleira, o magistrado citou risco de fuga para a embaixada dos EUA e uma vigília convocada pelo filho Flávio em frente ao condomínio do ex-presidente.
Prisão preventiva na PF
A prisão preventiva de Bolsonaro ocorreu no dia 22 de novembro. O político já havia sido condenado pela Primeira Turma do Supremo a 27 anos e 3 meses de prisão, mas o período era de recurso antes do trânsito em julgado.
Ele foi levado à Superintendência da PF do Distrito Federal, onde ficou em uma sala no térreo, de 12 m², com cama, banheiro privativo e mesa de trabalho. O local é reservado a figuras públicas e autoridades.
Condenação definitiva e ar-condicionado
Três dias depois de ter ido preventivamente para a sala da PF, Jair Bolsonaro recebeu a condenação definitiva pela tentativa de golpe. Isso aconteceu 656 dias após o início das investigações.
O início do cumprimento da pena foi na sala da PF. O espaço também tinha frigobar, televisão e um ar-condicionado que virou alvo de reclamação do político. Segundo sua defesa, o barulho do equipamento comprometia o repouso e afetava a saúde do ex-presidente. No período, os advogados também pediram uma SmartTV.
Hérnia, soluço e hospital
Em 24 de dezembro, Jair Bolsonaro deixou pela primeira vez a prisão na Polícia Federal para fazer uma cirurgia de correção de hérnia inguinal bilateral, condição na qual um tecido do abdômen incha e gera uma protuberância na região da virilha.
Ele também passou por procedimentos para controlar crises de soluço e registrou picos de hipertensão. O político recebeu alta no dia 1º de janeiro, quando voltou a cumprir pena na sede da Superintendência.
Flávio pré-candidato a presidente
No dia 25 de dezembro, Flávio Bolsonaro leu, em frente ao hospital no qual o pai estava internado, uma carta em que o ex-presidente o indicava para assumir seu espólio e concorrer à presidência da República.
Jair Bolsonaro falou em pagar um preço alto, com sua saúde e família, para fazer o que acredita "ser o melhor para o nosso Brasil". Ele repetiu discurso sobre injustiça e falou da necessidade de indicar o filho.
Antes disso, Flávio havia barganhado sua candidatura. Depois, falou da intenção de não abrir mão do objetivo. O senador tem sido apontado em pesquisas como o principal opositor de Lula.
Queda na sala da PF
No início de janeiro, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) relatou que o marido caiu na prisão enquanto dormia.
"Meu amor não está bem. Durante a madrugada, enquanto dormia, teve uma crise, caiu e bateu a cabeça no móvel", disse em postagem. "Como o quarto permanece fechado, ele só recebeu atendimento quando foram chamá-lo para minha visita."
A defesa falou em suspeita de risco de traumatismo. Já o médico da PF constatou ferimentos leves e disse que não era necessário encaminhar o presidiário ao hospital.
O ministro do STF Alexandre de Moraes autorizou a ida do político ao hospital DF Star de Brasília para a realização de exames.
Papudinha
Em 15 de janeiro, Bolsonaro foi transferido para o 19º Batalhão da Polícia Militar, conhecido como Papudinha.
A nova cela, de 65 m², é exclusiva do ex-presidente. A transferência foi autorizada por Moraes, que rebateu críticas de familiares do político sobre a sala na PF, dizendo que prisão não é "estadia hoteleira" ou "colônia de férias".
"Mentirosa e lamentavelmente, vem ocorrendo uma sistemática tentativa de deslegitimar o regular e legal cumprimento da pena privativa de liberdade de Jair Messias Bolsonaro, que vem ocorrendo com absoluto respeito à dignidade da pessoa humana e em condições extremamente favoráveis em relação ao restante do sistema penitenciário brasileiro", escreveu.
O local tem lavanderia, quarto, sala e área externa, cozinha, banheiro, armários, cama de casal e TV.
Visitas na prisão e medo da morte
Bolsonaro recebeu visitas de aliados como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ao visitá-lo pela primeira vez na Papudinha, Tarcísio reforçou o compromisso com o time e sua tentativa de reeleição.
Outros pré-candidatos foram ao presídio em busca de respaldo do político para se lançarem em seus redutos eleitorais. À Folha aliados que visitaram o ex-presidente afirmaram que o político relatou temer a morte e um atentado a Flávio Bolsonaro.
Conselheiro de Trump
Uma visita foi autorizada e depois cancelada pelo Supremo. O ministro Alexandre de Moraes havia permitido que o ex-presidente recebesse Darren Beattie, conselheiro do presidente americano Donald Trump. Depois de manifestação do ministro Mauro Vieira, das Relações Exteriores, o magistrado retrocedeu.
O juiz afirmou que a visita poderia configurar "indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro". Ele também disse que o pedido não se enquadra nos objetivos oficialmente comunicados pelo Departamento de Estado, relacionados a entender o funcionamento do sistema eleitoral brasileiro.
Darren Beattie é crítico de Moraes e do governo federal, e sua visita se daria em contexto no qual o Brasil avalia que Trump pode tentar interferir nas eleições.
Broncopneumonia
O ex-presidente foi internado no dia 13 de março em razão de um quadro de broncopneumonia, um tipo de infecção que afeta bronquíolos e alvéolos. A internação foi usada pela defesa para pedir, novamente, a concessão da prisão domiciliar.
Os advogados argumentaram que a saúde do presidente demanda a medida, o que estava sendo negado pelo STF sob o argumento de que a unidade prisional tem os recursos necessários para cuidar adequadamente do ex-presidente. A PGR (Procuradoria-Geral da República) se manifestou a favor do pedido, que foi concedido por Moraes.
