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Eleitores indecisos narram série de apostas e decepções com líderes de esquerda e direita
Eleitores indecisos narram série de apostas e decepções com líderes de esquerda e direita
Eleitores sem candidato relatam desilusão e campos vazios de propostas
Por Laura Intrieri/Folhapress
22/03/2026 às 08:00
Atualizado em 22/03/2026 às 11:41
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Arquivo
Urna eletrônica de votação
Uma auxiliar de cozinha de Peruíbe deixou de acompanhar política por se sentir saturada de informações e ainda não decidiu se repetirá o voto na família de Jair Bolsonaro (PL).
Um cacique evangélico da etnia Baré no Médio Rio Negro vê recursos passarem longe do seu povo, gestão após gestão, e recusa as categorias que a política tenta lhe impor.
Uma supervisora comercial de São Paulo observou Geraldo Alckmin (PSB) virar vice do presidente Lula (PT) e concluiu que os políticos se unem enquanto dividem seus eleitores.
Um cartunista do Rio de Janeiro se sente "cancelado" por todos lados após apoiar Bolsonaro em 2018 e se recusar a tomar partido em 2022.
Essas são algumas das pessoas que o jornal Folha de São Paulo ouviu para entender o que pensam brasileiros que ainda não decidiram a quem darão seu voto nas próximas eleições presidenciais.
A mais recente rodada do Datafolha mostra que 3% dos eleitores não sabem em quem votar em um cenário de primeiro turno com Lula, o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), entre outros. A parcela equivale a 4,7 milhões de pessoas, segundo as últimas estimativas do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
É mais gente do que a diferença que deu a vitória a Lula na eleição passada. Em 2022, o petista venceu o segundo turno com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro. Lula conseguiu 60,3 milhões de votos contra 58,2 milhões do então presidente, uma diferença de 2,13 milhões.
Na pesquisa de março, Lula e Flávio aparecem tecnicamente empatados em simulações de segundo turno.
Os entrevistados enxergam mais semelhanças entre Lula e o clã do ex-presidente, preso e inelegível, do que diferenças. Descrevem ambos os lados como vazios de propostas concretas. Narram a sensação de que as políticas públicas chegam pouco, não importa a gestão.
"Entra ano, sai ano, são sempre as mesmas promessas e nada muda", diz a líder de atendimento comercial Magali Barros.
Os indecisos fazem também uma equivalência entre a prisão de Lula e a de Jair, apesar dos contextos distintos: Lula ficou 580 dias em Curitiba entre 2018 e 2019 por condenação na Lava Jato, posteriormente anulada pelo STF; Bolsonaro cumpre pena após ser considerado culpado pela trama golpista de 2022.
"Quatro ex-presidentes nossos foram presos. Que moral a gente tem? Se a pirâmide lá em cima está corrompida, então é o sistema", diz o cacique Baré Rui Leno Macedo de Moraes.
O segundo turno de 2022, entre Lula e Bolsonaro, foi o mais acirrado da história do país. Foi também a primeira vez que o Brasil viu um ex-presidente disputando contra o então chefe do Executivo.
"Não era a eleição da rejeição, era a eleição das avaliações consolidadas das gestões que ambos fizeram, avaliações naturalmente opostas", diz o cientista político Antônio Lavareda.
Alguns dos consultados pela reportagem chegaram a votar no petista ou no capitão reformado, mas apontam diferentes motivos que dizem impedir a repetição do posicionamento.
O PT é o partido simultaneamente mais querido e mais odiado do país. Chegou a concentrar 30% da preferência partidária dos brasileiros, mas acumula rejeição sem equivalente à direita.
Para Lavareda, o tempo de Lula na cena pública explica parte do fenômeno. "O Lula é candidato há sete eleições. Antes disso, foi protagonista em pelo menos mais duas. Alguém que não gosta do Lula e o vê na urna de novo fica mais irritado", diz.
O legado do clã Bolsonaro enfrenta problema diferente. Flávio herdou a marca do pai, mas não as condições que elegeram Jair em 2018. O senador carrega o sobrenome e também o peso de escândalos próprios.
"Talvez esse outsider não seja mais o Flávio Bolsonaro, que é um cara que se envolve em 'rachadinha'", diz o cientista político João Feres Júnior, professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).
Os indecisos são em sua maioria mulheres e vivem no interior, mostram os dados do Datafolha. "Mulheres ponderam mais e demoram a consolidar o voto, um pouco menos afetado por fatores emocionais", diz Lavareda.
A seguir, os perfis dos ouvidos pela Folha, que serão acompanhados até a eleição.
Ednilza Jacinto de Oliveira, 53, chegou a Peruíbe, no litoral sul de São Paulo, há poucos meses, vinda de Cubatão. Trabalha como auxiliar de cozinha, não tem televisão em casa e se informa pelas redes sociais. Já foi mais engajada —participou de uma associação de mulheres em Cubatão, acompanhava campanhas. Mas "situações da vida" e o volume de informação foram afastando a política do cotidiano. "Muito rápido, muita informação, então não acompanho".
No Cadastro Único, diz que o Bolsa Família ajuda, mas não basta: acredita que os brasileiros merecem capacitação real para o mercado de trabalho.
Diz que votaria em Jair Bolsonaro, que "já conhece". No filho Flávio, não sabe: nunca viu projetos. Em Lula, reconhece melhorias pontuais, mas acha que "poderia ter melhorado bastante para muitas pessoas". "Eu preciso tomar uma decisão até lá. Tá pouco tempo já, né?"
O empresário Renato Lucas da Silva, 60, fabrica embalagens plásticas numa pequena empresa em São José dos Campos (interior de SP) há mais de duas décadas. Define sua história política como uma sequência de apostas e decepções. Acreditou em Fernando Henrique Cardoso (PSDB) quando o Plano Real domou a inflação —e viu o mesmo presidente "perder a mão" na crise cambial que se seguiu.
Apostou em José Serra (PSDB) pelos avanços na área de remédios genéricos e viu seu candidato fracassar nas urnas. Votou em Jair Bolsonaro em 2018 e se decepcionou com a postura do governo na pandemia. Viu João Doria enfrentar Bolsonaro e apostar na vacina do Butantan —e sumir da política logo depois.
Por muito tempo zapeava entre todos os canais de notícias por assinatura até perceber que estava "ficando alucinado". Parou. Hoje observa de longe. "Não tenho inclinação nenhuma para votar em ninguém que seja derivado do Lula, nem do Bolsonaro. Somando os dois, para mim, tendência zero".
Morador do Rio de Janeiro, André Guedes, 45, chegou à indecisão pelo arrependimento. Cartunista político que vive do próprio canal no YouTube, ele faz sozinho os roteiros, os desenhos e todas as vozes dos personagens.
Em 2018, diz ter "caído na besteira" de votar em Jair Bolsonaro e, três a quatro meses depois do início do governo, já era um crítico. Perdeu seguidores, foi cancelado pela militância bolsonarista e, em 2022, recusou-se a tomar lado.
"Para o pessoal que me critica, eu sou culpado pelo Bolsonaro e sou culpado pelo Lula também", disse. Hoje acompanha o MBL com simpatia, mas sem adesão. Tem reservas sobre o que chama de "lacração na direita".
Sandra Roque, 50, trabalha com franquias em São Paulo há mais de 25 anos. É divorciada, mãe de dois filhos já formados —um de direita convicto, o outro mais aberto à esquerda. A política divide a mesa de casa.
"Eu tenho orgulho de ser brasileira. Eu não tenho orgulho dos políticos brasileiros", diz.
A trajetória do ex-governador Geraldo Alckmin (PSB) é uma das que mais a desconcertou: viu nele um político sério até o momento em que ele virou vice de Lula. "Ele se juntou ao PT, eu falei opa, o cara não consegue abrir a boca. Ele realmente é um chuchu".
O que sobrou foi a sensação de que a polarização não partiu das pessoas, mas foi imposta a elas. "Quem dividiu a gente foram os políticos, que colocaram na nossa cabeça que um é louco e o outro é um pouco mais louco. Mas a gente é gente do bem".
Rui Leno Macedo de Moraes, 37, é cacique da etnia Baré em Barcelos, no Médio Rio Negro, no Amazonas, e vice-presidente da Associação Xoromawe, que representa cerca de 1.800 famílias Baré, Yanomami e Baniwa. Neto de extrativista, começou a trabalhar aos 9 anos.
As políticas públicas, na sua avaliação, chegam pouco —de ambos os lados. Quando não vêm pelo governo, ele busca outras vias. "Se a gente não conseguir via governo, a gente vai conseguir via iniciativa privada, via ONGs, via o movimento mesmo." Recusa a polarização. "Eu sou aquele que quero estar no meio, quero juntar o Lula, quero juntar o Bolsonaro, bora comer todo mundo junto aqui e pronto."
Votou em Bolsonaro em 2018 e 2022. Nos anos anteriores, se dividia entre candidatos do PT e do PSDB.
A psicóloga Agda Abreu, 42, vive em Senhor do Bonfim, no semiárido baiano, onde atende no consultório, em escolas e aplica psicotestes de habilitação. Cresceu em Salvador, filha de funcionário público federal, e se mudou para o interior logo após se formar.
Foi no atendimento em saúde mental na rede pública que passou a votar na esquerda. "Sempre fui pelo lado da esquerda, mas não ia pelo partido, ia muito pelo candidato." Não avalia bem o terceiro mandato de Lula, e a polarização a incomoda dos dois lados. "Acho tudo isso muito adoecedor. Vejo dois candidatos com problemas gritantes emocionais e que vai uma manada atrás deles, achando que é a única coisa certa, sem avaliar criticamente".
Conta que foi no interior que percebeu a força da política. "A coisa aqui é muito mais inflamada", afirma.
Há 30 anos morando no centro de São Paulo, Magali Barros, 51, viveu a cidade sob prefeitos de diferentes espectros políticos. "Entra ano, sai ano, são sempre as mesmas promessas, sempre as mesmas coisas e nada muda", diz ela, que é líder de atendimento numa empresa de produtos para pets.
Trabalha em escala 6x1, entra à tarde e sai perto da meia-noite.
Magali votou em Lula no primeiro mandato e achou "perfeito". No segundo, viu o mesmo homem "se corromper". Votou em Bolsonaro e acha os 27 anos de prisão pela trama golpista excessivos — "foi injusto com ele", diz. A simpatia pelo ex-presidente convive com a rejeição pelo filho. "Eu nunca fui com a cara dele. Ele quer muito parecer com o pai. Só que não tem nada a ver."
Na família, metade é PT e tenta convencê-la; ela resiste.
O professor aposentado Almir Barros Costa, 72, lembra de cada decepção política com precisão: Collor, FHC, Temer. Do primeiro, guarda a frustração de quem acreditou num presidente que se vendia como culto e preparado. "Boas ideias, mas no final daquele bolo todo com aquela ministra Zélia [Cardoso de Mello, da pasta da Economia, que anunciou o confisco da poupança em 1990]", disse.
De FHC não esquece uma frase: "Chamou aposentados de vagabundos". De Michel Temer ficou o "modelo centrão" que, na sua avaliação, nunca mudou de verdade.
Votou em Ciro Gomes (PDT) em 2018. Não tem simpatia pela família Bolsonaro. Em Lula, vê pouca mudança concreta na gestão. O aposentado quer mudança radical no sistema. Por enquanto, não apareceu quem a encarne.
José Marques, 65, agricultor em Bocaiuva, no norte de Minas Gerais, precisa improvisar quando o campo não rende. Experimentou entregas de aplicativo, mas desistiu —eram 150 entregas por dia, todas por conta dele, sem margem para imprevistos. "O seu carro não pode quebrar", disse.
Evangélico, tem reservas sobre discutir política na igreja, onde as posições tendem à direita, segundo ele. "Tem sempre algum que não entende de nada, querer discutir comigo." A espera por uma alternativa já dura décadas.
Compartilhou com a reportagem um vídeo em que um apresentador de podcast discorria sobre o que seria o "sistema" —uma rede de influências entre políticos, empresas de comunicação e grandes bancos, segundo o programa.
"Sempre ouço que ‘o sistema é isso’, que ‘ninguém muda o sistema’, mas alguém pode me explicar o que é esse sistema?"
Nissen Cabral Jr., 65, lida diariamente com conflitos de terra em Dourados (MS), onde mora e trabalha com agrimensura e direito agrário. Acompanha política pelo rádio e pela TV porque desconfia das redes sociais.
A região onde vive é conservadora. "O coronel escolhe por você", resume. A família está dividida —parte pensa "pelo lado extremo", diz— e ele evita o assunto para não desgastar relações.
Admira Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e avalia Lula positivamente, mas reprova falas recentes do presidente que, na sua avaliação, prejudicam a imagem do Brasil no exterior. Quer um candidato novo — um diplomata, alguém com "retórica polida" e ficha limpa, capaz de construir coalizão.
"A minha bomba atômica é o meu voto".
