Selic a 2% é um dos fatores que explicam a derrota de Bolsonaro, diz Haddad
Por Ana Paula Branco, Folhapress
10/02/2026 às 13:57
Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados/Arquivo
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta terça-feira (10) que a manutenção da taxa básica de juros em 2% ao ano durante o governo Jair Bolsonaro é um dos fatores que ajudam a explicar a derrota do então presidente na eleição de 2022.
Segundo ele, a política monetária adotada naquele período contribuiu para a disparada da inflação e para a deterioração do ambiente econômico às vésperas do pleito. "Com uma inflação de 13%, não tinha como a dívida [pública] não cair", afirmou.
A declaração foi feita durante participação no CEO Conference, promovido pelo banco BTG Pactual.
"Fixaram os juros a 2%, o câmbio disparou e a inflação veio na sequência. A inflação chegou a dois dígitos", afirmou. "Como é que você entra numa eleição com inflação de dois dígitos?"
Em 2022, o IPCA acumulou alta próxima de 13% no pico, pressionando o custo de vida da população.
Haddad também criticou medidas adotadas no ano eleitoral para conter os preços, como a desoneração dos combustíveis. Segundo ele, a iniciativa teve efeito temporário e provocou desequilíbrios fiscais relevantes. "Fizeram aquela maquiagem com a gasolina, que arrebentou as contas estaduais e também as federais", disse.
O ministro disse que a queda da dívida pública observada naquele período não refletiu melhora estrutural das contas, mas foi consequência direta da inflação elevada.
Haddad afirmou que o início do atual governo foi marcado por um ambiente de "muita confusão", inclusive de diagnóstico, sobre o que havia ocorrido em 2022. "Se a gente não olhar o filme inteiro, não vai entender", afirmou, citando um Orçamento para 2023 que desconsiderou o não-pagamento de precatórios e o aumento no Bolsa Família.
Ao comentar o cenário atual, o ministro afirmou não ver razão econômica para a continuidade da elevação do juro real. Para ele, o patamar alto gera um efeito de alta sobre a dívida pública que o governo não consegue contrapor com "nenhum nível de superávit primário". Apesar disso, disse que o governo tem avançado no ajuste das contas e que o déficit fiscal caiu cerca de 70% desde o início do governo Lula.
"Gostaria de ter ido além? Gostaria. Mas a gente tem que negociar com o Congresso", disse.
O ministro ainda falou da importância do Banco Central para a estabilidade econômica, afirmando que a autoridade monetária pode "contribuir muito ou prejudicar muito um país". Disse que suas críticas ao patamar dos juros não têm o objetivo de macular a autonomia do BC, mas refletem uma avaliação econômica legítima.
REFORMA TRIBUTÁRIA E NOVO SISTEMA
O ministro voltou a classificar a reforma tributária como a principal transformação estrutural em curso no país. Para Haddad, o novo sistema será comparável, em escala e impacto, a uma revolução tecnológica.
"Estamos falando de um sistema operacional muitas vezes maior do que o Pix. Vamos ter o melhor sistema tributário do mundo", afirmou.
Segundo Haddad, nenhum outro país oferecerá o mesmo nível de transparência ao consumidor. "O cidadão vai saber exatamente qual é a tributação no ato da compra", disse.
O ministro disse ainda acreditar que, com o ajuste fiscal em curso e a modernização do sistema tributário, o Brasil tende a se tornar mais atraente para o investimento estrangeiro.
