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Ibaneis tenta se descolar de Master e atribui responsabilidade a ex-presidente do BRB
Ibaneis tenta se descolar de Master e atribui responsabilidade a ex-presidente do BRB
Por Thaísa Oliveira e Adriana Fernandes/Folhapress
05/02/2026 às 10:30
Foto: Marcelo Camargo/Arquivo/Agência Brasil
Ibaneis Rocha
O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), tem repetido a estratégia de defesa adotada após o ataque golpista de 8 de janeiro e dito a aliados que, no caso do Banco Master, apenas confiou no ex-presidente do BRB (Banco de Brasília) Paulo Henrique Costa. O executivo é formalmente investigado pela Polícia Federal por operações feitas pelo BRB com o Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Dois integrantes do governo e um dirigente partidário relatam que, em conversas de bastidor, Ibaneis diz estar tranquilo, apesar do avanço da investigação, porque acreditava na avaliação feita por Paulo Henrique sobre o Master.
No ataque de 8 de Janeiro, Ibaneis disse que havia confiado nas informações do então secretário interino de Segurança Pública, Fernando Oliveira, e atribuiu a falha ao então secretário de Segurança Pública, Anderson Torres, que está preso.
No caso de Paulo Henrique Costa, Ibaneis tem usado como exemplo a relação dele com o secretariado. O governador afirma que costuma delegar tarefas aos subordinados e acreditar em suas decisões. Com Paulo Henrique e o BRB, não teria sido diferente.
Na visão dele, Paulo Henrique fez com que o Banco de Brasília mudasse de patamar e ganhasse projeção nacional. Diante de um histórico de atuação aparentemente bem-sucedido, não teria por que questionar a decisão do BRB de comprar o Banco Master.
Com as revelações sobre a conduta do executivo e a crise do Master, Ibaneis diz demonstrar surpresa com os desdobramentos da investigação e com a necessidade de injetar recursos no BRB para cobrir prejuízos causados pelo Master —que, segundo o depoimento à Polícia Federal do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, hoje está estimada em R$ 5 bilhões.
Na última semana, diante da informação de que teria conversado com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, Ibaneis disse à TV Globo que seu único erro foi ter confiado em Paulo Henrique.
"Em momento algum, nas quatro vezes que o encontrei [Vorcaro], tratei de assuntos relacionados ao BRB/Master. Entrei mudo e saí calado. O único erro meu foi ter confiado demais no Paulo Henrique", disse o governador à emissora.
Após a operação que afastou Paulo Henrique e prendeu Vorcaro, em novembro do ano passado, Ibaneis também disse que houve "excesso de confiança" e que o ex-presidente do BRB precisaria se explicar.
"Eu debito essa operação que aconteceu e esse fato que aconteceu com o ex-presidente Paulo, que eu tenho por ele um carinho enorme e uma confiança enorme, ao excesso de confiança no crescimento do banco. Mas isso ele que vai ter que se explicar com as autoridades competentes", disse a jornalistas na ocasião.
Procurado pela Folha, o ex-presidente do BRB disse que não iria comentar informações repassadas por terceiros e que o tema foi tratado no depoimento à Polícia Federal, no STF (Supremo Tribunal Federal) —divulgado na íntegra na quinta-feira (29).
A interlocutores, Paulo Henrique tem dito que quer ter a oportunidade de apresentar uma defesa técnica baseada em fatos e tem se mostrado incomodado com a tentativa de colocar o BRB como um cúmplice do Master.
"As aquisições de carteiras de crédito originadas pelo próprio banco Master se iniciaram em julho de 2024, antecedem qualquer discussão societária e sempre se inseriram no curso ordinário das atividades bancárias, em linha com a estratégia de gestão de ativos e passivos e com o planejamento estratégico aprovado pelos órgãos de governança, observados os ritos e instâncias decisórias competentes", diz nota divulgada pela defesa dele.
Tanto o Governo do Distrito Federal quanto o BRB alegam ter sido vítimas na operação frustrada de compra do Master. Um auxiliar de Ibaneis afirma que houve um erro de avaliação por parte do governo. Ele diz que o banco apostou em transações que se mostraram ineficientes em um primeiro momento e, agora, também irregulares.
Mesmo tendo sido afastado do governo após o ataque de 8 de janeiro de 2023, Ibaneis tem enfrentado hoje a maior crise política desde que chegou ao cargo, em 2019, na avaliação de parlamentares do Distrito Federal.
O governador é pré-candidato ao Senado e tenta emplacar sua vice-governadora, Celina Leão (PP), como sucessora. Na terça-feira (27), ele reafirmou a intenção de disputar uma das vagas de senador e disse acreditar que seu projeto político será vitorioso.
Em depoimento à Polícia Federal em 30 de dezembro, Paulo Henrique disse que "costumeiramente prestava contas" ao acionista controlador (o Governo do Distrito Federal) na figura de Ibaneis.
"Eu fazia pontos de controle com ele e reportava as iniciativas que a gente tinha do banco. Ou seja, um papel meu, de prestação de contas, que eu não levaria adiante uma operação, uma tentativa de aquisição de um banco sem que isso fosse comunicado ao acionista controlador", disse o ex-presidente do BRB.
Enquanto a compra do Master pelo BRB ainda estava sob análise do Banco Central, Ibaneis criticou opositores e defendeu enfaticamente o negócio.
Em março, Ibaneis afirmou à Folha que não misturava política com questões técnicas do banco e ironizou seu antecessor, o hoje deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB). "Quase quebraram o BRB na gestão deles. Recebemos a chave da Polícia Federal na época do Rodrigo Rollemberg", declarou.
Em setembro, o governador disse que o veto do BC à operação colocaria em risco o sistema financeiro nacional. "Nós não estamos comprando risco, estamos comprando uma oportunidade. A questão do risco para o sistema financeiro é porque, com a demora, esses ativos deles [Master] vão se deteriorar", afirmou.
Com a dobradinha entre Ibaneis e Paulo Henrique, o BRB passou a participar cada vez mais do governo do DF: assumiu desde a gestão da Torre de TV, um dos cartões postais da cidade, até a operação do sistema de bilhetagem do transporte público.
Nacionalmente, o banco ganhou visibilidade a partir de uma parceria com o Flamengo, time de Ibaneis, para criação de um banco digital. Desde 2022, o BRB também detém o "naming rights" (direito de nome, em português) do Estádio Nacional Mané Garrincha.
Sob nova direção, o BRB contratou uma auditoria independente para apurar as operações feitas com o Master na gestão de Paulo Henrique, o que inclui a compra de R$ 12, 2 bilhões de carteiras de crédito fraudulentas, a sua devolução e depois a transferência de ativos do banco de Vorcaro.
