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Diretor de empresa usada pelo Master para captar R$ 12 bi é suspeito de lavar dinheiro no 'tigrinho'
Diretor de empresa usada pelo Master para captar R$ 12 bi é suspeito de lavar dinheiro no 'tigrinho'
Ex-funcionário do Master, André Felipe Maia foi sócio principal de empresa apontada como responsável pela gestão de contas bancárias de firmas de fachada por meio das quais entrava dinheiro de bets ilegais
Por Vinícius Valfré/Alvaro Gribel/Estadão
23/02/2026 às 17:15
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Arquivo
Banco Master
Um ex-funcionário do Banco Master e dirigente da Tirreno, instituição financeira usada pelo banco de Daniel Vorcaro para captar R$ 12,2 bilhões em créditos falsos vendidos ao Banco de Brasília (BRB), é suspeito de envolvimento com um esquema de lavagem de dinheiro por meio de bets ilegais.
Em paralelo aos negócios com Vorcaro, André Felipe de Oliveira Seixas Maia, de 54 anos, atuava como principal sócio de uma empresa apontada pela Polícia Civil de São Paulo como “peça central na engrenagem financeira” de uma organização criminosa de jogos de azar ilegais.
A defesa do empresário afirma que ele não cometeu qualquer ilícito e que isso ficará demonstrado no decorrer da investigação.
A existência do inquérito foi inicialmente revelada pelo SBT News. A investigação, a qual o jornal O Estado de São Paulo também teve acesso, tramita em sigilo.
O parceiro de Vorcaro deixou formalmente a intermediadora de pagamentos Silium dias após policiais da divisão contra estelionato do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) irem à sede da empresa para tentar intimar os responsáveis.
Uma semana depois da visita dos policiais, realizada em 12 de março de 2025, André Maia e mais três sócios — entre eles um de nacionalidade coreana — renunciaram à empresa, que mudou de nome e passou a se chamar Nuoro Pay.
Para a polícia, as medidas “sugerem tentativa de reorganização societária ou ocultação da verdadeira estrutura de controle da empresa, possivelmente em resposta às medidas de persecução adotadas”.
Nessa época, o BRB vinha comprando carteiras de crédito do Master, mas que eram originadas pela Tirreno, empresa da qual André Maia constava como diretor — além de ter sido funcionário do Master até março de 2022.
Ele também é acusado de fornecer documentos falsos ao Banco Central, com intuito de ludibriar a autoridade monetária. Entre janeiro e maio de 2025, a Tirreno cedeu cerca de R$ 6,7 bilhões em créditos ao Master, mesmo sem históricos claros de pagamento ou movimentação bancária.
Em seguida, o Master repassou esses créditos ao BRB por R$ 12,2 bilhões (embutindo um prêmio de R$ 5,5 bilhões), valor pago pelo banco gerido pelo governo do Distrito Federal. A Polícia Federal aponta que esses créditos eram “podres” e que a Tirreno funcionou como empresa de fachada para simular créditos que, na verdade, não existiam.
O BRB anunciou a fusão com o Master no dia 28 de março de 2025. A investigação preliminar sobre bets ilegais não indica haver relação direta com as transações referentes ao Banco Master, mas pessoas próximas ao Banco Central apontam que esse braço da investigação revela o quão elaborado era o esquema, com suspeitas de crimes em diversas frentes.
Em depoimento, Daniel Vorcaro disse que fez negócios com a Tirreno porque conhecia Henrique Peretto, outro responsável pela empresa, e que não considerou o fato de a Tirreno ter sido aberta dias antes. Também disse que não checou o lastro do capital social de R$ 30 milhões alegado pela firma.
As bets do suposto esquema de André Maia funcionavam com a mesma aparência e nos moldes das “bets chinesas”. Como mostrou o Estadão, elas recebem aportes de vítimas apostadoras por meio de CNPJs abertos em nomes de laranjas, dificultam saques e oferecem jogos cujos mecanismos não seguem regras básicas previstas na legislação brasileira. Os links para apostas são disseminados nas redes sociais e em aplicativos de mensagens.
Entre os principais jogos oferecidos, estão os classificados como cassino online, como o do tigrinho. O jogo é permitido desde que oferecido por casas de apostas autorizadas pelo Ministério da Fazenda e desde que comprovem que seus mecanismos atendem requisitos de controle e de pagamento de prêmios.
A investigação aponta que a Silium/Nuoro Pay atuava como a instituição responsável pela gestão das contas bancárias de outras empresas de fachada que serviam como porta de entrada para os recursos de apostas feitas em bets ilegais.
Uma vez em posse dos recursos, segundo a polícia, a empresa usava mecanismos para dificultar o rastreamento do dinheiro. Um deles era as chamadas “contas-bolsão”, que permitem o recebimento de recursos de várias origens sem necessidade de movimentação pelos titulares formais.
O modelo, que também foi identificado em investigações contra o PCC, é usado para fragmentar, misturar e redistribuir valores, o que dificulta o rastreamento de recursos no sistema bancário.
Para o Ministério Público de São Paulo, as características da firma de André Maia e de outras com atuação semelhante têm elementos de que foram criadas com o propósito de dissimular origem e destinação de dinheiro obtido com apostas ilegais.
“A análise dos dados cadastrais, registros societários, boletins de ocorrência, reclamações de consumidores e diligências técnicas realizadas pela equipe policial demonstram a existência de uma estrutura sofisticada e ramificada, com atuação transnacional, voltada à prática de jogos de azar, fraudes financeiras e lavagem de dinheiro”, frisou o MP em parecer de outubro de 2025.
O advogado de André Maia, Luiz Felipe Mallmann de Magalhães, afirmou estar confiante de que o empresário não cometeu qualquer ilícito e de que isso será demonstrado no decorrer da investigação, que ainda não está concluída.
