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Campos Neto sabia dos problemas do Master, mas evitou intervir no banco em seu último ano no BC

Campos Neto sabia dos problemas do Master, mas evitou intervir no banco em seu último ano no BC

Por Alvaro Gribel/Estadão Conteúdo

28/01/2026 às 11:05

Foto: José Cruz/Arquivo/Agência Brasil

Imagem de Campos Neto sabia dos problemas do Master, mas evitou intervir no banco em seu último ano no BC

Campos Neto

O ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto sabia dos graves problemas de liquidez enfrentados pelo Banco Master durante a sua gestão à frente da autoridade monetária, mas evitou tomar medidas mais extremas contra o banco.

À época, havia a expectativa de que o Master tivesse ativos que pudessem ser revendidos ao mercado, dentro da lógica de separação do “good bank” (parte boa do Master) e o “bad bank” (ativos podres do banco). Assim, o custo para o sistema financeiro e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) seria menor.

O crescimento da instituição financeira de Vorcaro ocorreu entre 2019 e 2024. Campos Neto chegou a dar uma espécie de ultimato informal até março de 2025 para se encontrar uma “solução definitiva”, segundo apurou a reportagem. A decisão sobre a liquidação acabou sendo executada pelo atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, em novembro do ano passado.

Procurado, Campos Neto não se pronunciou sobre os questionamentos da reportagem.

A interlocutores, Campos Neto tem dito que o processo de decisões do BC é técnico, e não exclusivo da presidência - e que tudo passa pela análise da Diretoria de Fiscalização e pela diretoria colegiada do órgão. Segundo relatos, ele alega que, durante seu período à frente do BC, não houve proposta de voto encaminhada para o colegiado para que o Master sofresse algum tipo de intervenção ou fosse liquidado.

O Estadão apurou que pelo menos duas vezes Campos Neto teria atuado para evitar uma intervenção ou liquidação do Master ao longo do ano de 2024, seu último ano à frente do BC: uma primeira em março e outra em novembro.

As datas coincidem com o aperto da fiscalização sobre o Master, de acordo com relato feito pelo BC ao Tribunal de Contas da União (TCU), no processo sob a relatoria do ministro Jhonatan de Jesus.

Segundo o documento, no primeiro semestre de 2024, o Banco Central passou a fazer “acompanhamento contínuo da gestão de risco de liquidez” do Master. Isso porque a instituição tinha um cronograma forte de desembolsos para o pagamento de passivos, ao mesmo tempo que mantinha no seu balanço “baixo estoque de ativos líquidos”.

“Nessas circunstâncias, o Banco Central determinou a adoção de providências com vistas a assegurar a liquidez em níveis suficientes e adequados, assim como a apresentação de plano de contingência de liquidez atualizado”, afirma o BC.

Ainda de acordo com o documento enviado ao TCU, o BC diz que, no segundo semestre de 2024, a crise no Master se agravou, com frustração do seu plano de negócios, que previa captar R$ 15 bilhões em recursos institucionais de longo prazo - mas somente R$ 2 bilhões foram efetivamente captados.

“Ainda assim, a instituição financeira manteve a contratação de operações estruturadas de longo prazo e reduzida liquidez, sem gerar fluxos financeiros relevantes. O gerenciamento inadequado do risco de crédito contribuiu para o agravamento da crise de liquidez do conglomerado”, diz o BC.

No documento, o BC cita que detectou uma série de irregularidades no Master. “Em função da atipicidade das operações, o Banco Central apurou a existência de irregularidades relacionadas a: insuficiência de capital, como resultado de ajustes determinados após se apurar que haviam sido prestadas informações incorretas à Autarquia; inexistência de ativos líquidos na composição de fundo de liquidez que dava amparo às operações estruturadas de longo prazo; e não atendimento de normas relativas ao gerenciamento do risco de crédito, inclusive por depender de informações prestadas por terceiros”, diz o banco.

Como mostrou o Estadão, o Banco Central sob Campos Neto também editou uma norma, em outubro de 2023, alterando a contabilização de precatórios (dívidas judiciais) como ativos de risco carregados pelos bancos, mas com uma brecha que ajudou o Master a não ser obrigado a fazer alterações em seu balanço.

Com isso, o Master, que carregava bilhões de precatórios e direitos creditórios em seu balanço, pôde continuar operando sem a necessidade de receber mais aportes por parte dos sócios ou ser obrigado a vender ativos.

Em agosto de 2023, a Warren Investimentos soltou relatório a clientes não recomendando a compra de CDBs do Banco Master. Ou seja: no mercado, já havia desconfianças sobre o crescimento acelerado do banco.

Cartão amarelo

No relatório enviado ao TCU, o Banco Central relata que, a partir de novembro de 2024, o Master passou a ter dificuldades para rolar suas dívidas por meio das plataformas de investimentos.

É também a partir desse mês - um antes de Campos Neto deixar o cargo - que o Master começa a não recolher os compulsórios exigidos junto ao Banco Central. Esse é um dinheiro que os bancos são obrigados a deixar depositado no BC, como medida de prudência para a estabilidade do sistema financeiro.

“Diante das dificuldades de captação de recursos de investidores institucionais e mesmo após iniciar cessões de carteiras em conformidade com o plano de contingência implementado, a partir de novembro de 2024 o Banco Master S.A. não conseguiu mais rolar a totalidade de obrigações vencidas captadas via plataformas de investimento. Além disso, foram registrados diversos episódios de recolhimento insuficiente dos depósitos compulsórios por parte do conglomerado.”

O agravamento da crise levou o BC a notificar o Master de que o banco poderia ser alvo de medidas “prudenciais preventivas”, uma espécie de cartão amarelo, tendo como base uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN), de 2011, que busca “assegurar a solidez, a estabilidade e o regular funcionamento do Sistema Financeiro Nacional”.

“Seus dirigentes foram cientificados pelo Banco Central de que essa situação poderia dar azo à aplicação de medidas prudenciais preventivas previstas na Resolução CMN nº 4.019, de 29 de setembro de 2011″, diz o BC.

A norma permite ao BC exigir que controladores de bancos façam aportes nas instituições, que ativos sendo vendidos e que haja limite para a distribuição de lucros e dividendos.

A autorização para a compra e operação do então banco Máxima (depois rebatizado para Master) por Daniel Vorcaro foi concedida em outubro de 2019, primeiro ano de Campos Neto, indicado para o cargo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Os problemas que levaram à prisão de Vorcaro começarma em janeiro de 2025, um “crime novo”, segundo Polícia Federal, com a venda de carteiras falsas de terceiros ao Banco de Brasília (BRB).

Crescimento exponencial

Do final de 2019 ao fim de 2024, o Master (então banco Máxima) deixou de ser um banco com R$ 3,7 bilhão em ativos para alcançar R$ 82 bilhões, em valores nominais, sem considerar a inflação, de acordo com dados do Banco Central.

Segundo relatório da agência Moody’s, o crescimento do banco foi de 40% ao ano em 2019, chegando a 100% em 2024 - ano em que o banco dobrou de tamanho.

“Em menos de quatro anos, o Master se tornou a 25ª maior instituição financeira do Brasil, em junho de 2024, quando era a 77ª em 2021″, diz a agência.

Campos Neto, quando esteve à frente do BC, sempre teve uma agenda a favor do crescimento dos bancos pequenos e médios, assim como dos bancos digitais, as chamadas fintechs, para tentar diminuir a concentração bancária no País.

Essa agenda, contudo, sempre deixou o BC em uma situação entre apertar a fiscalização, que acabaria prejudicando os pequenos, ou deixar o mercado correr mais solto, a fim de estimular a concorrência. Ao que parece, no caso do Master, o banco pode ter se aproveitado das regras para crescer de forma desordenada e possivelmente criminosa, segundo investigações da Polícia Federal na Operação Compliance Zero.

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