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Vantagem de Lula sobre os Bolsonaro cai em 98% das cidades do Nordeste

Vantagem de Lula sobre os Bolsonaro cai em 98% das cidades do Nordeste

Por João Pedro Pitombo, Marina Pinhoni e Nicholas Pretto, Folhapress

18/10/2026 às 17:54

Foto: Ricardo Stuckert/Arquivo

Imagem de Vantagem de Lula sobre os Bolsonaro cai em 98% das cidades do Nordeste

Lula mantém força, mas militância de direita ganha ruas e reforça campanha no interior

Na rodovia que leva ao centro de Dom Macedo Costa, município de 4.407 habitantes do Recôncavo Baiano, bandeiras verde e amarelas estão penduradas nas portas das casas. Um comitê instalado na praça central, junto à prefeitura, distribui adesivos a apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL).

A cena era inimaginável em 2022, quando Lula (PT) chegou a 71,5% dos votos na cidade contra 23,5% de Jair Bolsonaro (PL). Mas o cenário eleitoral local foi reconfigurado: Lula ainda ganhou em 2026, com 59,3% dos votos, mas Flávio chegou a 35%. Uma diferença que era de 48 pontos caiu para 23,7.

O cenário se repetiu em outras cidades nordestinas. Levantamento da Folha aponta que a diferença de votos entre Lula e os candidatos da família Bolsonaro caiu em 98% dos municípios do Nordeste, comparando os primeiros turnos das eleições de 2022 e 2026.

A região segue como principal reduto do petista, que teve 21,5 milhões de votos nos nove estados nordestinos. Mas Flávio cresceu comparado a Jair e chegou a 10,4 milhões de votos, um avanço de 18,3%.

A diferença de Lula frente aos Bolsonaro teve uma queda maior em cidades pequenas e médias com influência do agronegócio. A queda de Lula e ascensão de Flávio também aconteceram em municípios que passaram a ser comandados por prefeitos de oposição do PT.

Foi o caso de Caldeirão Grande, de 13 mil habitantes, no sertão baiano, onde o prefeito Pedro Henrique Bezerra (PP) apoiou Flávio Bolsonaro e o ajudou a ampliar sua votação comparada à do pai.

Há quatro anos, Lula teve quase 79,5% na cidade, ante 15,5% de Jair Bolsonaro. Agora, o petista teve 68%, contra 28,5% de Flávio. Assim, a vantagem que era de 64 pontos percentuais caiu para 39.

O cenário foi parecido em localidades com a influência do agronegócio. A vantagem petista caiu em municípios como Formosa do Rio Perto e Baianópolis, produtoras de grãos no oeste do estado, e em Barra da Estiva, cidade da Chapada Diamantina conhecida pela produção de morangos.

Em Dom Macedo Costa, no Recôncavo, o prefeito Tote Fróes (União Brasil) apoiou Flávio no primeiro turno e agora trabalha para ampliar o percentual de votos do aliado na cidade.

"Graças a Deus a gente fez um bom trabalho. E também tem o desgaste do PT, são 20 anos no poder e tudo tem um limite, né? Agora está na hora de mudar", afirmou o prefeito. Ele foi eleito para a prefeitura em 2024 após um ciclo de oito anos de gestão do PT na cidade.

Prefeito de 2017 a 2024, o agente comunitário de saúde Guito (PT) afirma que o crescimento de Flávio na cidade foi impulsionado pelo poder econômico do adversário. "Esse grupo político tem muito dinheiro. A gente não tem recurso e fez uma campanha de porta em porta, conversando com as pessoas", afirma.

Dom Macedo Costa é uma cidade com as contas públicas fortemente dependentes de transferências governamentais. Em 2025, a prefeitura teve receita de R$ 35,1 milhões, sendo R$ 1,1 milhão com a arrecadação com impostos e taxas municipais.

A base da economia é a pecuária, a agricultura de subsistência. Ao todo, 850 famílias da cidade são atendidas pelo programa Bolsa Família.

Na zona urbana, o eleitorado é mais conservador. O mecânico Manuel Fróes, 40, que trabalha com venda de autopeças, votou no PT até 2006, quando passou a se alinhar com candidatos da direita. Era uma minoria entre os eleitores de Dom Macedo Costa, mas agora vê uma cidade mais dividida.

"O que falta é gente com peito dizer assim: ‘minha posição é essa’. Porque o petista tem a posição dele, bota a bandeira dele, a estrela, e sai. A direita também tem que botar a sua bandeira", avalia.

Na comunidade Pinga Fogo, na zona rural da cidade, eleitores do PT têm adesivos do partido colados na parede de suas casas. A lavradora Jacilene Oliveira dos Santos, 38, diz que o voto em Lula é uma escolha consolidada na família, associada à redução da pobreza.

Ela demonstra preocupação com eventuais cortes de benefícios sociais e diz que os mais jovens não compreendem os efeitos de um possível retorno da família Bolsonaro à Presidência: "Essa mocidade é inocente, não sabe nem o que é a vida ainda. Temos que olhar pelos nossos filhos."

No mesmo povoado, a dona de casa Eliete Bahia, 45, votou em Flávio Bolsonaro por desejar mudanças nas políticas de segurança pública. Beneficiária do Bolsa Família, ela diz não temer que o programa seja interrompido caso Lula deixe a Presidência: "Quem entrar, continua tudo a mesma coisa".

Na casa vizinha, Mércia Pires Oliveira, 40, tem uma bandeira do PT hasteada na porta de sua casa, mas votou em Flávio Bolsonaro no primeiro turno —o petista da família é o marido dela. Agora, diz que vai votar em branco. "Não quero me responsabilizar por nada que aconteça", afirma.

No centro da cidade, o comitê do União Brasil que fez campanha para o candidato ao governo ACM Neto foi transformado no quartel-general de Flávio Bolsonaro. Na quarta-feira (14), o prefeito recebeu deputados aliados e prometeu engajamento na campanha.

Ao todo, somente 9 dos 417 prefeitos da Bahia apoiaram Flávio no primeiro turno. Agora, o número de gestores municipais aliados passa de 40, aponta o presidente estadual do PL, João Roma, ex-ministro de Bolsonaro.

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