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Lula experimenta game baiano antes de regulamentar setor e estúdio celebra "momento histórico" para a indústria
Lula experimenta game baiano antes de regulamentar setor e estúdio celebra "momento histórico" para a indústria
Por Redação
14/10/2026 às 17:40
Foto: Divulgação
Aoca Game Lab levou a história da Guerra de Canudos ao Palácio do Planalto; presidente experimentou o título de sobrevivência no sertão antes de oficializar pacote de fomento para a indústria nacional
O sertão baiano desembarcou com força no Palácio do Planalto nesta quarta-feira (14). Minutos antes de subir ao palco para assinar a regulamentação do Marco Legal dos Jogos Eletrônicos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reservou um momento nos bastidores da solenidade para segurar o controle e experimentar Árida 2, jogo histórico desenvolvido pelo estúdio baiano Aoca Game Lab.
Acompanhado da primeira-dama Janja da Silva e do fundador do estúdio, Filipe Pereira, Lula comandou os passos de Cícera, a jovem sertaneja protagonista da trama. O enredo, ambientado no século XIX, tem como pano de fundo a seca e o caminho rumo à histórica comunidade de Canudos. Na demonstração, os desenvolvedores orientaram o presidente em comandos típicos da dinâmica de sobrevivência: colher caju, usar o facão para abrir passagens na Caatinga e interagir com elementos locais, como mandacarus e o carcará Canela, ave que acompanha a menina na jornada.
Em seu pronunciamento, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, citou nominalmente o estúdio baiano e destacou com entusiasmo que o presidente havia acabado de jogar o game antes de entrar no auditório. A ministra usou o exemplo para reforçar que a tecnologia digital brasileira carrega identidade, memória e valor artístico.
“Game é cultura, game é audiovisual”, cravou a ministra, defendendo que o decreto coloca os estúdios nacionais sob o guarda-chuva de mecanismos consolidados como a Lei Rouanet, a Lei do Audiovisual e o Fundo Setorial do Audiovisual. Segundo o Ministério da Cultura, o setor reúne cerca de 115 milhões de jogadores no país e movimenta até R$ 13 bilhões ao ano.
A visibilidade em Brasília coroa uma fase de forte expansão da Aoca Game Lab, hoje um dos principais símbolos de descentralização da indústria de games para fora do Sudeste. O primeiro capítulo da franquia já foi traduzido para 16 idiomas e passou a ser adotado como ferramenta pedagógica interdisciplinar em escolas brasileiras, auxiliando aulas de história, geografia e literatura ao retratar o episódio de Canudos com pesquisa histórica rigorosa.
O estúdio prepara agora a chegada de ÁRIDA 2: Rise of the Brave. Fruto de expedições e pesquisas de campo em locais como o Santuário de Monte Santo, no interior da Bahia, o novo título traz um salto visual e narrativo para retratar as disputas e a resistência sertaneja.
Para a diretoria da Aoca, o decreto assinado em Brasília representa uma virada estruturante para quem produz no país. Segundo Victor Cardozo, COO da empresa, a medida destrava gargalos práticos e históricos que travavam o setor independente. “O marco regulatório é um momento histórico para a indústria de desenvolvimento de jogos. O avanço do projeto vai permitir à produção nacional ter acesso a kits de desenvolvimento das principais plataformas como Xbox, Nintendo e PlayStation com muito mais facilidade, isenções e agilidade, garantindo que as empresas avancem em seus projetos com mais segurança e previsibilidade. Além disso, ter uma categoria que organize o enquadramento fiscal possibilitará taxas melhores, redução de tributos e uma contabilidade mais clara, o que amadurece o mercado como um todo”, avalia Cardozo.
Para o diretor de operações da Aoca, o marco regulatório “é um programa robusto que amplia o apoio com frentes de pesquisa, incentivo e financiamento”. “Novas linhas e fundos abrirão espaço para novos estúdios, novos títulos e um ciclo consistente de fortalecimento. Foi uma construção de longo prazo, que veio desde a Cartilha Gamers até o decreto, e estamos muito felizes com esse marco”, conclui.
No púlpito, o próprio presidente Lula retomou o contato que teve com o projeto baiano e fez questão de elogiar a valorização da memória nacional através dos games. “Hoje eu vi um game sobre Canudos. Eu já li três livros sobre Canudos, já fui a Canudos, conheço a história... Até parece que Antônio Conselheiro é meu parente”, brincou o presidente. “Acho extraordinário a gente fazer um game com as histórias brasileiras. Por que eu tenho que contar uma história americana, chinesa ou francesa se eu posso contar uma história brasileira e fazer o mundo conhecer a nossa trajetória via game? Parabéns”, declarou.
Ao defender a mudança na matriz econômica do país, Lula reforçou que o Brasil precisa deixar de ser visto apenas como exportador de commodities para virar polo criativo: “O Brasil não pode ser o eterno país exportador de soja, de milho. O Brasil tem que ser exportador de inteligência. A chamada 'indústria digital' cresce, ganha mais corpo, e temos que criar condições para exportar nossos produtos”.
Por fim, ao celebrar a consolidação de uma política de Estado voltada aos jogos eletrônicos, o presidente fez um alerta sobre a necessidade de a comunidade defender as conquistas do setor: “O que vocês estão conquistando agora é dizer que o Estado brasileiro tem uma política de game. Mas se preparem, porque fazer é difícil, mas destruir é apenas um passo”.
Além do acesso facilitado a crédito e incentivos fiscais da Lei Rouanet, o pacote anunciado pelo governo federal prevê a abertura de editais de R$ 200 milhões pela Finep voltados à inovação em startups de games, a estruturação da plataforma pública Game Brasil e a criação de cursos superiores especializados na área em cinco universidades federais.
