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'Nova direita nasceu porque ninguém mais aguentava Caetano Veloso', diz cineasta Josias Teófilo

'Nova direita nasceu porque ninguém mais aguentava Caetano Veloso', diz cineasta Josias Teófilo

Em entrevista ao podcast A Máquina, diretor de documentário sobre Olavo de Carvalho afirma que comunicação da direita está muito agressiva e isso é perigoso

Por Patrícia Campos Mello/Folhapress

26/09/2026 às 09:00

Atualizado em 26/09/2026 às 08:23

Foto: Reprodução/Facebook

Imagem de 'Nova direita nasceu porque ninguém mais aguentava Caetano Veloso', diz cineasta Josias Teófilo

O cineasta conservador Josias Teófilo

"A nova direita nasceu porque ninguém mais aguentava o Caetano Veloso." É assim que o cineasta conservador Josias Teófilo resume a reação da direita contra uma suposta hegemonia da esquerda na cultura. Teófilo dirigiu documentários sobre Olavo de Carvalho, "Jardim das Aflições", e sobre a ascensão do bolsonarismo, "Nem tudo se desfaz".

Em entrevista ao podcast A Máquina, ele diz que a internet permitiu romper a hegemonia da esquerda, mas que a comunicação digital da direita está ficando muito agressiva e isso é perigoso. E ele critica "Dark Horse", o filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. "Achei péssimo (trailer). O projeto do filme é uma desculpa para arrecadar dinheiro para um grupo político".

No seu último filme, "Nem Tudo se Desfaz", o senhor discute o papel dos memes e das redes sociais na ascensão da nova direita. Qual foi a importância deles?

O bolsonarismo é um fenômeno de internet, seria impensável antes da internet. E aí temos uma interseção entre o olavismo e o bolsonarismo. No começo dos anos 2000, a imprensa foi se fechando em variações da esquerda. Então Olavo [de Carvalho] perdeu as colunas que ele tinha e não tinha matéria nenhuma sobre ele. Isso se manteve até quando eu fiz o filme [documentário 'Jardim das Aflições', de 2017]. Olavo precisava pagar as contas nos Estados Unidos, então criou um curso online pioneiro, em 2008. Para divulgar, ele criou o True Outspeak, que é a ideia genial de juntar Aristóteles com Alborghetti [jornalista policial e ex-deputado estadual paranaense].

Parece piada, mas era essa a ideia mesmo: aquele jeito de falar do Alborghetti e temas aristotélicos. Ele falava muito palavrão, ofendia, coisas que não se falavam em canais. Esse é um elemento fundamental da nova direita, a ideia da polêmica como iniciação. Chamar a atenção através da polêmica virou um modelo de negócios. O True Outspeak trazia muita gente para dentro do curso online de Filosofia, que chegou a ter cinco mil alunos. E formou várias pessoas que viriam a participar do governo Bolsonaro.

Um grupo específico tem grande relevância. Aqueles meninos da periferia de Fortaleza [José Mateus Salles Gomes e Mateus Matos Diniz] eram alunos do Olavo, viam o programa True Outspeak, e colocaram essas ideias em prática para criar uma página de memes pro Bolsonaro, o Bolsonaro Zoeiro.

Eles depois foram trabalhar na Presidência de Bolsonaro, naquele que ficou conhecido como o "gabinete do ódio"...

Eu não concordo com o nome. Não duvido que exista uma rede de difamação aí, existe até hoje. Mas não acho que seja desses rapazes. Eles estavam ali para fazer memes mesmo e moldaram a imagem do bolsonarismo. Carlos Bolsonaro chamou essas pessoas. Não à toa Carlos foi colocado no Rolls-Royce presidencial junto com o Bolsonaro e a Michelle [Bolsonaro]. Ele é importantíssimo, criou a imagem e a comunicação do bolsonarismo.

O que mudou na comunicação da nova direita desde Olavo de Carvalho?

Alguns elementos permanecem, como o uso massivo de memes e a comunicação bastante agressiva. Acho que a mudança principal é de IA, que me desagrada um pouco, porque é muito artificial, mas eles estão usando bastante.

A principal característica é usar todas as modas da internet. Apareceu o TikTok, vamos usar o TikTok. Apareceu IA, vamos usar. A esquerda é muito mais conservadora na comunicação. Aliás, é uma característica: a esquerda no Brasil é reacionária e a direita é revolucionária. A esquerda tem as instituições, o establishment, e a direita tem o uso da internet.

Agora, estou notando um aumento da agressividade. Tem muito candidato usando os embates diretos, vai para a Avenida Paulista, a gente não sabe onde é que vai parar. Acho perigoso, mas tem a ver com as coisas que o Olavo começou. Na verdade, tem a ver com o Bruno Tolentino (poeta e escritor de direita, tema de filme de Teófilo), que estabeleceu um novo grau de hostilidade. Tem o livro "Sapos de Ontem", em que ele critica os irmãos [Augusto e Haroldo de] Campos.

Quais os erros de comunicação da esquerda?

A esquerda não sabe fazer meme. Ela quer explicar demais. A linguagem tem que ser visual, não pode ser baseada no texto. Mas ela não sabe porque não precisa fazer. Ela tem os movimentos sociais, toda essa capilaridade social que a direita não tem, então não precisa.

O senhor assistiu ao trailer do filme "Dark Horse" sobre Jair Bolsonaro. O que achou?

Achei péssimo. É um filme que está errado desde o começo, filmado em inglês, diz que é "produção hollywoodiana", não tem nada de hollywoodiana. O projeto do filme é uma desculpa para arrecadar dinheiro para um grupo político. Custou caríssimo e a gente não vê esse valor de produção no filme. Realmente, é de se pensar onde foi parar esse dinheiro.

O senhor faria um filme sobre o Bolsonaro?

Esse filme aí não, jamais. Se você faz um filme para louvar um personagem assim, tem grandes chances de dar errado. Eu tive grande cuidado no "Nem Tudo se Desfaz" para que não se tornasse uma coisa, não digo nem partidária, mas retórica.

No final do seu filme, há uma fala do pesquisador João Cezar de Castro Rocha dizendo que Lula foi o bode expiatório das massas digitais após ter sido o presidente mais popular da história, e que as massas digitais precisam de sangue e elegerão um novo bode expiatório. Depois que seu filme saiu, em 2021, Bolsonaro foi julgado e preso. Quem será o próximo bode expiatório?

A gente precisaria é de um Napoleão, alguém que pegue esse processo revolucionário e dê uma forma estável. Os ganhos da revolução têm que ficar estabelecidos, a gente precisa parar com isso, e Flávio Bolsonaro não está com cara de ser essa figura. Acho que continua o processo revolucionário de busca por um bode expiatório. E aí ficam os dois lados tentando que o outro vire o bode expiatório indefinidamente.

O lado da esquerda não é nem Lula, eu acho que é o STF, porque o presidente muda de quatro em quatro anos, mas o ministro do STF fica. O problema é o seguinte: quando vai parar? É preciso ter uma estabilidade institucional e periga parar só com o fim da Nova República. A Nova República se estabeleceu muito formatada pela esquerda, com a Constituição Cidadã e no âmbito da cultura. Bruno Tolentino (poeta e escritor de direita, tema do próximo filme de Teófilo) veio para o Brasil em 1992 e quando chegou aqui ficou chocado com a hegemonia da esquerda.

A nova direita tem vários mitos fundadores. Um deles foi a entrevista que Tolentino deu à Veja, em que disse "Quero o país de volta". Ele criticou o establishment cultural da esquerda, a academia, a USP, a Folha. Tudo isso viria a ser o caldo da nova direita. E principalmente Caetano Veloso. A nova direita nasceu porque ninguém aguentava mais o Caetano Veloso. A nova direita tem militar, republicano, tem bolsonarista e antibolsonarista, como o MBL, tem todo tipo de gente, mas o que tem em comum é odiar o establishment cultural da esquerda. Caetano Veloso, Gilberto Gil, toda aquela cultura que foi elevada à cultura brasileira para exportação no governo Lula.

Outro mito fundador da nova direita foi o [filme] Tropa de Elite, que existe no nosso imaginário até hoje. O [diretor José] Padilha sabia que ele ia atingir um público de direita, conservador. Wagner Moura tá tentando fugir desse fantasma até hoje, mas não consegue. Então os mitos fundadores são: a entrevista de Bruno Tolentino, Tropa de Elite e a obra de Olavo. Tudo isso não chegou a ser expresso no Ministério da Cultura (secretaria) do governo Bolsonaro. Nem chegaram a saber quem é Bruno Tolentino, a colocar em prática as ideias de Olavo. Olavo morreu muito desgostoso com o governo Bolsonaro.

A cultura no governo Bolsonaro foi uma decepção?

Foi uma decepção profunda. Bolsonaro colaborou muito com a hegemonia da esquerda na cultura. Regina Duarte me falou uma vez que ele tinha um trauma na cultura por causa da facada, porque muita gente da cultura comemorou. Não todo mundo, evidentemente. Tem gente de direita, de esquerda, de centro, liberal, conservador, inclusive no cinema produzindo. Só que existe uma sub-representação do pessoal da direita, porque para não haver confusão, as pessoas acabam não falando de política. Muita gente não se expõe. Até eu, durante muito tempo, não me expus.

O senhor criou a associação Artistas Livres para lutar contra o que vê como viés de esquerda na cultura.

Criei junto com o (cineasta) Newton Cannito, que foi secretário do audiovisual do governo Lula, para lutar pela liberdade na arte, porque existe a censura oficial, gente de direita que não consegue aprovar um projeto no edital, porque há uma hegemonia da esquerda dentro das comissões, mas existe uma coisa velada também.

A gente está participando das conversas sobre os programas de cultura de vários candidatos. Temos diálogo com o governo do Estado e com a prefeitura de São Paulo. Existe muito espaço aí para pensar o que pode ser uma gestão que abra espaço para os cristãos, para os católicos, para os evangélicos.

A ideia é tirar um suposto viés woke da cultura ou das licitações?

Principalmente as cotas. Quem é homem, branco e heterossexual tem grande dificuldade de aprovar projeto, porque tem cotas. Já conversei com [Ronaldo] Caiado, com [Romeu] Zema, e tenho conversado também com a equipe do Flávio, mas estou um pouco desgostoso porque já vi que o caminho do Mário Frias está sendo seguido. Não acho que o Mário Frias volta, acho que ele volta é para a cadeia, não para secretaria nenhuma. Mas ainda acho que podem repetir todos os erros. Não atuar na cultura é não deixar um legado.

Numa gestão cultural anti-woke, quais seriam os temas privilegiados?

O principal é resgatar personagens da nossa história que foram negligenciados, como Gilberto Freyre e José Geraldo Vieira. Não tem um filme sobre Dom Pedro 2°, não tem um filme relevante sobre José Bonifácio.

Quem pode ocupar o espaço de Olavo de Carvalho como pensador da nova direita?

Tem o [escritor e acadêmico] Ronald Robson, um excelente pensador, que está continuando o trabalho do Olavo. Tem o Juliano Cazarré, tem o [diretor] Breno Moreira. Mas o pessoal confunde cultura na direita com marketing digital. E marketing digital é uma coisa efêmera, você vende o produto e isso não repercute.

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