Grupo de Jaques Wagner na Bahia recebia R$ 3 milhões por mês, diz Vorcaro
Por Natália Portinari, Fabio Serapião e Cézar Feitoza/UOL
25/09/2026 às 06:38
Foto: Geraldo Magela/Arquivo/Agência Senad
Jaques Wagner
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master, afirmou que o grupo político do senador Jaques Wagner (PT) na Bahia recebia R$ 3 milhões por mês em propina. A acusação consta de uma proposta de colaboração premiada rejeitada pela PF (Polícia Federal) e pela PGR (Procuradoria-Geral da República) por insuficiência de elementos de corroboração.
Vorcaro diz não ter presenciado o suposto acerto, mas tomado conhecimento por seu ex-sócio Augusto Lima, que nega a acusação.
Segundo o ex-banqueiro, havia duas modalidades de pagamento que somariam R$ 3 milhões mensais.
Cerca de R$ 2 milhões eram repassados por meio de um contrato entre o Master e a PKL One, empresa que explorava o Credcesta, cartão de crédito consignado destinado aos servidores da Bahia. O R$ 1 milhão restante era pago em espécie, ainda de acordo com a proposta de delação.
Vorcaro afirma ainda que havia outras formas de repasse, como distribuição de lucros e dividendos e contratos fictícios.
Segundo ele, Wagner teria participação oculta na operação do Credcesta por meio da PKL One.
A Ebal (Empresa Baiana de Alimentos), estatal que detinha a operação do Credcesta, foi vendida em um leilão no qual a PF apura suspeitas de fraude e direcionamento à empresa de Augusto Lima. O certame ocorreu quando Wagner era secretário de governo da Bahia durante a gestão de Rui Costa (PT), ex-ministro da Casa Civil e hoje candidato a senador.
A proposta de delação obtida pelo UOL foi rejeitada. A PF deixou a negociação duas vezes e a PGR recusou o acordo por avaliar que os relatos não vinham acompanhados de elementos de corroboração suficientes.
As defesas de Jaques Wagner e de Augusto Lima refutaram as alegações e ressaltaram que a delação não apresentou provas suficientes. Já a defesa de Vorcaro disse repudiar a divulgação dos anexos e afirmou não reconhecer a autenticidade e a integridade do material.
O que disse Vorcaro
Segundo a proposta de delação, no centro da operação estava a PKL One, empresa com os direitos de exploração do Credcesta e que, de acordo com Vorcaro, era controlada por laranjas de Augusto Lima e de políticos.
Vorcaro afirma no documento que o "grupo de Jaques Wagner e Rui Costa recebia vantagens indevidas de diferentes formas:
- cerca de R$ 2 milhões mensais pagos pelo Banco Master à PKL ou a prestadores indicados pela empresa, valor que Vorcaro afirma ter sido destinado a contratos fictícios e pagamentos em dinheiro;
- distribuição de lucros e dividendos da PKL One, na qual Vorcaro afirma que pessoas ligadas ao grupo político tinham participação oculta;
- R$ 1 milhão em espécie por mês após a saída de Guilherme Sodré, descrito por Vorcaro como "operador de confiança de Jaques", do quadro de sócios indiretos da PKL;
- contratos que Vorcaro afirma serem fictícios e terem sido firmados com pessoas indicadas por Wagner, incluindo um contrato entre uma filha do senador e uma empresa offshore ligada a João Carlos Falbo Mansur.
O acerto, segundo Vorcaro, teria sido feito em 2018, quando o Master comprou uma participação na empresa que geria o cartão Credcesta, produto de consignado criado no âmbito da Ebal.
"O produto tinha acesso a um percentual da renda dos servidores públicos que as demais instituições financeiras não tinham acesso, tornando-o extremamente valioso", diz trecho do documento, reproduzindo o relato de Vorcaro.
Segundo a proposta de delação, Augusto Lima "se uniu com políticos baianos para fraudar a privatização da Ebal, por meio do direcionamento do processo de leilão e do escamoteamento do produto Credcesta".
O documento aponta como operador de Wagner o empresário Guilherme Henrique Sodré Martins, o Guiga, pai de um enteado do senador, que teria influenciado o processo de privatização.
No leilão, a NGV Empreendimentos arrematou a Ebal por R$ 15 milhões. Segundo Vorcaro, Augusto Lima era o dono de fato da empresa, que estava formalmente em nome do investidor espanhol Ignácio Morales, apontado como "interposta pessoa".
Dezesseis dias depois do leilão, dois decretos assinados pelo então governador Rui Costa ampliaram as possibilidades de exploração do Credcesta e alteraram seu enquadramento no regime de consignações. A NGV transferiu posteriormente os direitos de exploração do cartão à PKL One Participações.
A participação na PKL era estruturada por uma cadeia de fundos de investimento. Segundo a proposta de delação, os beneficiários finais incluíam Augusto Lima, Guiga —representando Jaques Wagner, na versão de Vorcaro— e representantes de outros políticos.
Documentos obtidos pela CPI do Crime Organizado sobre cotistas de fundos de investimentos mostram que Guilherme Sodré detinha 22,45% do Gardênia, fundo que tinha participação indireta na PKL One, até 31 de dezembro de 2018.
De maio de 2019 em diante, segundo os documentos e o relato de Vorcaro, a participação aparece em um fundo da Entre Investimentos, empresa de Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado nas investigações como operador financeiro de Vorcaro.
Os documentos confirmam a presença de Sodré na estrutura societária, mas não demonstram que ele tivesse essa participação em nome de Wagner.
O Master fechou a parceria com o Credcesta em 2018, segundo o documento. Pagou R$ 30 milhões pelo acordo com a PKL e combinou dividir metade dos lucros.
Foi nessa negociação, diz Vorcaro, que soube do suposto esquema.
"Augusto Lima informou ao colaborador que precisou corromper os políticos baianos para adquirir a operação do Credcesta, razão pela qual cedeu a políticos participação societária na PKL", afirma o documento.
O contrato de parceria entre a PKL e o Master previa pagamento mensal de cerca de R$ 2 milhões "em valores livres de impostos" a título de "despesas operacionais". Vorcaro afirma que esses valores eram usados para o pagamento de vantagens indevidas aos políticos.
Segundo ele, o dinheiro chegava depois aos beneficiários por contratos fictícios de consultoria firmados com "interpostas pessoas" e por empresas que forneciam recursos em espécie.
Vorcaro afirma ainda que um segundo acordo foi feito posteriormente. Com a expansão do Credcesta para outros estados, ele e Augusto Lima teriam concluído que manter Guiga na estrutura societária representava um risco.
Em seu lugar entrou a Entre Investimentos, de Antônio Carlos Freixo Júnior. Vorcaro descreve como fictício o contrato de compra dessa participação.
Nessa ocasião, segundo o ex-banqueiro, foi acertado o pagamento de R$ 1 milhão por mês em espécie a Guiga, que teria continuado até a liquidação do Banco Master.
Para conseguir dinheiro em espécie, havia, segundo Vorcaro, contratos com sobrepreço firmados com correspondentes bancários parceiros de Augusto Lima. Ele cita a empresa Blue Pay, que devolveria a diferença a pessoas ligadas ao sócio.
A empresa The Pay também vendeu notas comerciais de R$ 80 milhões a fundos da Reag, gestora ligada ao Master, e, segundo o relato de Vorcaro, parte dos recursos foi transformada em dinheiro vivo.
A entrega dos valores em espécie era feita ao motorista de Vorcaro, "que não sabia do que se tratava, mas que repassava os pacotes ao colaborador ou a Augusto Lima", diz o documento.
Além das duas parcelas mensais, a proposta de delação cita distribuição de lucros e dividendos da PKL e contratos que Vorcaro afirma terem sido usados para beneficiar pessoas indicadas por Wagner.
Entre eles estaria um contrato entre uma filha do senador e uma empresa no exterior ligada a João Carlos Falbo Mansur, dono da Reag.
O que os documentos mostram
O contrato entre a PKL One e o Master confirma a previsão de pagamentos mensais de cerca de R$ 2 milhões a título de despesas operacionais. O documento, porém, não identifica Wagner ou outro político como beneficiário nem demonstra, por si só, que o valor fosse destinado ao pagamento de propina.
Documentos sobre a estrutura de fundos da PKL confirmam que Guilherme Sodré teve participação no Gardênia, fundo que detinha participação indireta na empresa. Eles não demonstram que Sodré representasse Wagner nessa participação.
Vorcaro também apresentou documentos relativos à The Pay e à Blue Pay, empresas que, segundo seu relato, participavam de operações destinadas a produzir dinheiro em espécie. O material descrito na proposta de delação, porém, não mostra o dinheiro sendo entregue a Wagner.
Também foram apresentados trocas de mensagens sobre o Credcesta e um contrato envolvendo uma empresa offshore e uma filha de Wagner.
Reportagem do UOL já havia mostrado que na cadeia de fundos da PKL One apareciam pessoas ligadas ao senador, entre elas o advogado Ângelo Rezende e Guilherme Sodré.
A The Pay aparece em investigação do Ministério Público Federal do Distrito Federal como empresa suspeita de ter sido utilizada em desvios de recursos do Master.
Outras suspeitas investigadas pela PF
Separadamente das acusações feitas na proposta de delação, Wagner foi alvo de busca e apreensão no caso do Master em junho.
A PF investiga se o senador atuou em favor de interesses do banco e recebeu vantagens em troca, entre elas viagens em aeronaves ligadas ao Master, ingressos para shows e um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões.
Uma empresa de sua nora também fechou contrato de R$ 12 milhões com o Master.
Essas suspeitas integram outra frente da investigação e, por si só, não comprovam os pagamentos mensais descritos por Vorcaro na proposta de delação.
O que a delação não esclarece
Vorcaro não explica a relação de Rui Costa com o suposto esquema. O capítulo atribui os pagamentos ao "grupo de Jaques Wagner e Rui Costa", mas as formas de repasse descritas apontam para pessoas supostamente ligadas a Wagner.
Costa é citado cinco vezes no capítulo: na lista de envolvidos, como o governador que assinou os decretos, em encontros sociais com Vorcaro, na expressão "grupo de Jaques Wagner e Rui Costa" e na lista final. Nenhum valor, intermediário ou contrato é atribuído diretamente a ele.
Vorcaro também diz não ter presenciado o suposto acerto político. Afirma que soube do esquema por Augusto Lima. A origem da acusação, portanto, é um relato que Vorcaro atribui ao ex-sócio, que nega tê-lo feito.
O documento não esclarece tampouco qual ato concreto Wagner teria praticado como contrapartida pelos supostos pagamentos nem como teria interferido no leilão ou nas decisões do governo estadual.
O caminho do dinheiro em espécie também não está claro. Pelo relato, o operador financeiro entregava os pacotes ao motorista, que "repassava os pacotes ao colaborador ou a Augusto Lima", mas não há descrição de como os recursos teriam chegado a Wagner ou a integrantes de seu grupo político.
Sobre a Blue Pay, o texto diz que a empresa "repassava parte dos valores pagos a maior diretamente para pessoas interpostas de Augusto Lima", sem identificar integrantes do grupo político entre os destinatários.
O contrato dos R$ 2 milhões apresentado pelo ex-banqueiro também não nomeia beneficiários políticos. A cláusula reproduzida na proposta de delação prevê pagamento "à PKL e/ou a prestadores de serviços indicados pelos atuais controladores da PKL".
Sobre a parcela de R$ 1 milhão em espécie, o capítulo diz que ela foi paga "até a liquidação do Banco Master em novembro de 2025", mas não informa quando os pagamentos começaram.
A proposta também não calcula quanto teria sido pago ao longo de todo o período nem apresenta uma relação consolidada das parcelas, datas e destinatários.
A distribuição de lucros e dividendos da PKL mencionada por Vorcaro não tem valor, data ou beneficiário individualizado no capítulo.
Por fim, sobre o contrato com a filha de Wagner, a proposta não informa no texto o nome da filha, o nome da empresa ligada a Mansur, o valor, a data, o objeto ou quais serviços teriam sido prestados. Segundo o documento, essas informações estariam em um anexo ao qual o UOL não teve acesso.
Outro lado
A defesa de Daniel Vorcaro disse que "repudia a divulgação de supostos anexos que estariam relacionados a tratativas de colaboração premiada que não foi celebrada".
"A defesa não confirma o conteúdo do material divulgado, cuja origem, autenticidade e integridade não são reconhecidas."
"O material preliminar da colaboração foi disponibilizado a um número restrito de autoridades que possuem dever legal de confidencialidade. A defesa reafirma que Daniel Vorcaro possui informações personalíssimas e relevantes para o caso e segue disponível para contribuir com as autoridades."
A defesa do senador Jaques Wagner afirma que "tais declarações são completamente falsas e oportunistas, criadas para interferir nas eleições".
"Reafirma também que ele não tem conhecimento sobre contratos fictícios da PKL One e nunca teve nenhuma relação com essa empresa."
"Além disso, a mentira vem de uma pessoa que está presa, criando factoides na tentativa de ter de volta a sua liberdade."
"Vale reforçar, ainda, que o senador nunca teve qualquer vínculo com Daniel Vorcaro, nunca atuou em favor das pautas do Banco Master no Congresso Nacional e sempre votou contra os interesses do banco."
A defesa de Augusto Lima disse que "considera as informações apresentadas um completo absurdo, mentirosas, desconexas da realidade e delirantes". Classificou o relato como "uma obra de ficção já rechaçada pelas autoridades competentes".
"A defesa desde já nega de forma veemente que tenha acontecido qualquer ato funcional praticado pelo senador Jaques Wagner e muito menos pelo ex-ministro Rui Costa em benefício de Augusto Lima ou do banco Master. Quanto ao contrato mencionado, da PKL com o Banco Master, os serviços foram efetivamente prestados, não havendo ilicitude alguma."
"Causa indignação a divulgação de trechos de uma suposta proposta de delação, que não podem sequer serem levados em consideração uma vez que já foram rejeitados."
"O vazamento de supostos trechos de uma colaboração reiteradamente recusada pelas autoridades constitui proceder criminoso, cuja conduta, pela sua gravidade, exige investigação rigorosa."
"Tais informações, que deveriam ser sigilosas, não passam de uma narrativa falsa, fictícia e unilateral, sem valor probatório, utilizada apenas para lançar suspeitas sobre terceiros."
"A defesa reafirma que não há fundamento para atribuir a Augusto Lima qualquer ato ilícito e confia que a investigação comprovará sua inocência."
