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Disputa entre Flávio e Lula ganha ares de guerra espiritual com boato sobre Nossa Senhora Aparecida
Disputa entre Flávio e Lula ganha ares de guerra espiritual com boato sobre Nossa Senhora Aparecida
Candidato do PL corre para desmentir boataria de que removeria santa como padroeira do país
Por Anna Virginia Balloussier/Folhapress
25/09/2026 às 17:00
Atualizado em 25/09/2026 às 17:27
Foto: Ricardo Stuckert/PR e Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
Lula e Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro (PL), se vencer a disputa presidencial contra Lula (PT), vai remover Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil?
Não há qualquer indício sólido de que algo assim esteja no plano do presidenciável do PL. A boataria se espalhou feito rastro de pólvora na campanha eleitoral, ligando o alerta entre bolsonaristas e dando ares de guerra espiritual ao pleito de 2026.
Flávio entrou no modo contenção de danos já na quinta (24), diante da dimensão que vem ganhando o que classificou como "uma grande mentira" sem "pé nem cabeça". Voltou ao tema nesta sexta (25), para dizer que defende o direito de "pessoas de qualquer fé" de "exercer sua crença livremente".
Frisou que um gesto desses nem sequer caberia ao presidente e tentou empurrar a batata quente religiosa para o adversário. "Quem desrespeita a fé e o cristianismo é o Lula e a esquerda."
Nos bastidores, aliados temem impacto similar ao de uma fake news que atropelou a campanha de Fernando Haddad em 2018: o petista distribuiria mamadeiras com bico em formato de pênis em creches públicas para combater a homofobia.
Uma declaração do próprio Flávio deu fôlego à tese de que ele atacaria o status de padroeira que Nossa Senhora Aparecida detém desde 1931. Em agosto, o primogênito de Jair Bolsonaro (PL) justificou sua ausência no debate da Band dizendo que gostaria de confrontar "quem não acredita em Deus", repercutindo outra fake news, a de que Lula, que também faltou no dia, seria um descrente.
Na sequência, disse a frase que se volta contra ele agora, na reta final da campanha: eleito presidente, um dos seus primeiros atos será "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo". A fala foi interpretada como um "apito de cachorro": uma mensagem cifrada direcionada ao eleitorado evangélico, sinalizando uma suposta prioridade religiosa que acabou servindo de combustível para a distorção sobre a padroeira.
Acontece que evangélicos não acreditam em santos e, portanto, não veneram Maria, a mãe de Jesus, como tal. Um projeto de lei apresentado em 2007 por um pastor, o então deputado Victorio Galli, ajudou a fomentar o boato de que Flávio, que se declara evangélico, apoiaria derrubar Aparecida como padroeira do país.
O PL foi arquivado em 2008 e, 11 anos depois, Galli virou assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro.
Aliados evangélicos de Flávio correm para evitar que a atual crise vire uma espécie de novo "chute na santa". A referência é a 12 de outubro de 1995, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus deu pontapés numa figura da padroeira brasileira, que chamou de "um bicho tão feio, tão horrível, tão desgraçado". Jornais de todo o país registraram o arroubo, que gerou desgaste para a Universal e evangélicos como um todo.
Já em 2018 o pai de Flávio havia sido alvo da mesma munição religiosa, ainda que sem a tração de agora. Na época, circulou que Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro assinaram o PL que sugeria a alteração do termo "padroeira do Brasil" para "padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos" —Eduardo não era deputado ainda.
Jair também foi alvejado com a fake news de que mudaria o tom de pele da imagem de Aparecida, de negra para branca.
O deputado e pastor Marco Feliciano (PL-SP) diz que a onda atual configura "a maior fake news religiosa da história, tudo preconceito por Flávio ter se declarado evangélico". O pastor Silas Malafaia fala em "conversa fiada" de "esquerdopatas desesperados".
Para Rodrigo Toniol, antropólogo da UFRJ que pesquisa o catolicismo, os ataques contra Flávio são "tão fake news quanto dizer que o Lula vai fechar igrejas". Nada de novo no front, afirma. "A questão aqui é a mobilização da pauta religiosa na chave do medo para criar o constrangimento, para disputa política mesmo".
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), cuja fé católica é ativo político há décadas, botou lenha nessa fogueira eleitoral.
Em vídeo, contou que tem recebido "mensagens de católicos preocupados com os rumos do país e com as notícias lamentáveis que estão circulando desde o dia de ontem". Que se aquietem, recomendou. "Enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando este país, as tradições religiosas, tão sagradas para nossas famílias, estarão protegidas e preservadas".
Uma suposta rivalidade latente entre católicos e evangélicos é tensão que já arde dentro do próprio bolsonarismo. Setores mais extremistas miram a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), irritados com manifestações de prelados em defesa da democracia, do voto consciente e da soberania nacional no contexto das eleições de 2026.
Para a militância bolsonarista, essas posições refletem um claro viés pró-Lula, tese reforçada pela repercussão de uma gravação de abril, em que bispos católicos entoam o hino antifascista "Bella Cio".
