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Brasileiros têm interesse em investir, mas medo de perder dinheiro pesa na decisão
Brasileiros têm interesse em investir, mas medo de perder dinheiro pesa na decisão
Por Christian Policeno/Folhapress
06/07/2026 às 07:20
Foto: Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil
Apesar das dificuldades, 32% dos brasileiros têm algum tipo de investimento
O brasileiro quer investir, mas o medo ainda pesa na decisão. Embora 76% afirmem que gostariam de aprender mais sobre investimentos, 34,9% apontam o receio de perder dinheiro como a principal barreira para aplicar recursos.
Na sequência, aparecem o medo de cair em golpes ou fraudes (28,9%) e o de escolher investimentos errados (28,5%). Os dados são de uma pesquisa realizada pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, que ouviu 995 brasileiros em outubro de 2025.
Para Olívia Florês, CEO da Magno Investimentos, o excesso de "conhecimento técnico" ajuda a explicar por que, embora o interesse seja alto, poucos se sentem seguros para investir.
"Criou-se a percepção de que investir bem exige que todo indivíduo desenvolva conhecimento técnico e sofisticado sobre o assunto. A verdade é que o investidor não precisa saber de tudo, mas entender seus objetivos ao investir e reconhecer seus limites", afirma.
Já Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa, diz que ampliar o acesso a conteúdos sobre finanças com linguagem simples, prática e confiável pode aumentar a confiança das pessoas para tomar decisões mais conscientes.
A pesquisa também mostra que, entre os brasileiros que nunca investiram, 41% afirmam que não conseguem começar porque não sobra dinheiro no fim do mês. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a renda domiciliar per capita do brasileiro foi estimada em R$ 2.254 por mês em 2025.
De acordo com Florês, as decisões relacionadas a dinheiro raramente estão desconectadas do ambiente econômico das famílias. "Durante décadas, o país construiu uma dinâmica em que o consumo foi muito estimulado, enquanto a formação de autonomia econômica permaneceu em segundo plano. Nenhuma estratégia individual é capaz de superar um cenário que reduz a capacidade financeira das famílias", diz.
Apesar das dificuldades, 32% dos brasileiros têm algum tipo de investimento, segundo a Serasa. Entre eles, 43% afirmam que a situação financeira melhorou após começarem a investir.
Os principais objetivos dos investidores são conquistar a independência financeira (24%), criar uma fonte de renda passiva (21%) e adquirir um bem específico, como casa ou carro (19%).
A pesquisa mostra ainda que CDBs e RDBs são, de longe, as aplicações mais populares, presentes na carteira de 56,7% dos participantes. O percentual é quase o dobro do registrado pela poupança, escolhida por 30,5%.
Segundo Aline Vieira, produtos de renda fixa oferecem maior previsibilidade de rentabilidade, podem contar com liquidez para resgates e com a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), dentro dos limites estabelecidos de até R$ 250 mil por CPF. Por isso, são alternativas adequadas para quem está iniciando a jornada de investimentos ou deseja formar uma reserva de emergência.
Para Florês, existe a relação entre o receio de perder dinheiro e a preferência pela renda fixa, mas muitos brasileiros ainda têm uma compreensão limitada sobre o que significa assumir riscos.
"O investidor brasileiro costuma associar investimentos à volatilidade ou à possibilidade de perda imediata em determinados ativos, embora conviva com naturalidade com decisões muito mais destrutivas. Basta observar o volume crescente de recursos direcionados a apostas esportivas, esquemas fraudulentos e promessas recorrentes de enriquecimento rápido", afirma.
Aline Vieira diz ser natural que investidores iniciantes priorizem aplicações que transmitam maior sensação de segurança e previsibilidade. Segundo ela, cabe à educação financeira ampliar a compreensão sobre o funcionamento das diferentes modalidades de investimento, seus riscos e seus objetivos.
Entre os brasileiros que investem, 52% afirmam que já precisaram resgatar aplicações por necessidade imediata de dinheiro. Outros 40% fizeram isso para quitar dívidas.
Florês afirma que o principal problema não está no fato de investidores utilizarem aplicações para quitar dívidas, mas na dificuldade estrutural do país em consolidar uma cultura de acumulação de patrimônio ao longo do tempo.
"Quem possui investimentos para resgatar ainda representa uma parcela relativamente pequena da população e, em alguma medida, encontra-se em situação mais favorável do que milhões de brasileiros que jamais conseguiram acumular qualquer reserva", diz.
