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Coordenador de campanha de Lula, Gabrielli defende reestatizar distribuição de combustíveis
Coordenador de campanha de Lula, Gabrielli defende reestatizar distribuição de combustíveis
Por Catia Seabra/Folhapress
12/06/2026 às 06:50
Foto: Ricardo Stcukert/Arquivo/PR
Sérgio Gabrielli
O ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo do presidente Lula (PT) para a eleição deste ano, defende a reestatização da distribuição de combustíveis como forma de impedir aumento abusivo do preço na bomba. A tática para evitar volatilidade caberia à estatal.
Para Gabrielli, o modelo de integração "do poço ao posto", adotado pelas grandes petroleiras internacionais, é mais eficiente e permite maior controle.
Segundo ele, isolamento e quebra dos segmentos do setor petrolífero provocam ineficiência do ponto de vista sistêmico, aumentando o custo para o consumidor. Embora evite defender explicitamente uma reestatização da antiga BR Distribuidora, reiterou que o governo precisa recuperar instrumentos de atuação na distribuição de combustíveis.
"O que o presidente Lula defende, e que nós também defendemos, é que é necessário que a Petrobras volte à distribuição. E esse é o modelo de todas as grandes petroleiras do mundo. Todas", afirmou.
A Petrobras está impedida de ter postos de gasolina até 2029, de acordo com o contrato de privatização da BR, de 2019. A marca usada nos postos, hoje administrados pela Vibra, também é exclusiva da empresa privada até esse ano.
À Folha Gabrielli classificou a privatização da Eletrobras como "um desastre", ao propor ampliação da presença do Estado em setores considerados estratégicos.
Apesar de reafirmar o compromisso com a responsabilidade fiscal, ele criticou a centralidade da política de juros no combate à inflação. Segundo ele, a inflação tem múltiplas causas e não pode ser enfrentada apenas com juros elevados.
Também afirmou que o crescimento econômico sustentável exige redução das taxas de juros, aumento da produtividade, ampliação dos investimentos e fortalecimento de instrumentos de planejamento estatal.
Preço
Se não tiver uma empresa distribuidora associada, integrada com refino, você não consegue atuar em equilibrar as margens. Então o que acontece é o seguinte: a Petrobras segura o preço na refinaria, e a margem da distribuição aumenta. No processo, vai aumentando a margem da distribuição. Então, o que o presidente Lula defende, e que nós também defendemos, é que é necessário que a Petrobras volte à distribuição. Esse é o modelo de todas as grandes petroleiras do mundo.
BR Distribuidora
Se a Petrobras voltar [à distribuição], há várias maneiras. É uma tática da Petrobras, não vai ser um programa de governo. Se a Petrobras vai comprar a BR, se a Petrobras vai comprar outra distribuidora, se a Petrobras vai questionar a capacidade de usar marca no contrato ou não, é uma questão interna da Petrobras.
Marca
Hoje, quando você entra num posto Petrobras, você está entrando num posto fake, porque não tem nada da Petrobras ali.[...] O contrato de venda da Petrobras com a BR tem cláusulas absurdas. Por exemplo, essa de não usar a marca Petrobras por 10 anos tem que ser questionada juridicamente. Mas é uma decisão de Petrobras, isso não é uma decisão de governo. O governo vai dizer o seguinte: nós precisamos garantir o suprimento do Brasil diminuindo a volatilidade dos preços domésticos, ponto.
Fiscal e inflação
Já fizemos isso, tivemos superávit fiscal, superávit primário, em todos os governos. Já demonstramos que somos responsáveis fiscalmente. Agora, eu acho que o grande problema que nós temos não é um problema fiscal. Nós temos vários outros tipos de problemas. A inflação é um problema que nós temos que combater. Corrói os rendimentos. Você não consegue terminar o mês com o dinheiro que ganha. Agora, a inflação tem múltiplas causas, não tem uma causa só.
E essas múltiplas causas não podem ser tratadas com um instrumento só. [...] A única defesa de quem defende a questão fiscal como principal problema é que a taxa de juros detém a inflação. Detém a inflação. Acho que não é único instrumento que nós temos para tratar a inflação. Nós temos que ter responsabilidade fiscal, sim. Ninguém está defendendo aqui esbanjar os recursos públicos. Você tem múltiplos instrumentos. Você tem a meta de segurar a inflação e ao mesmo tempo crescer. Isso está inclusive na definição do Banco Central. Temos que levar isso em conta na prática.
Eletrobras
O aumento do poder de intervenção do governo na geração elétrica é um outro elemento. A privatização da Eletrobras foi um desastre.[...] Podemos fazer várias coisas na área da geração elétrica, inclusive aumentar a representação do governo de acordo com a proporção que ele tem nas ações da Eletrobras, que é outro absurdo. O contrato é feito de tal maneira que o governo, apesar de ter mais participação no capital, tem uma representação menor no conselho. Tem que fazer com que o governo, via regulação, consiga viabilizar projetos de longo prazo de planejamento energético.
Crescimento
Temos que estimular o aumento do consumo. Para estimular o aumento do consumo, tem que aumentar o ritmo de crescimento do país. O país tem que crescer. E isso requer uma política macroeconômica que não seja contraditória ao crescimento.
Corrupção
Tem que combater a corrupção fortemente e para isso você tem que ter mais transparência nos gastos públicos e tem que fortalecer os órgãos de controle. Mas nós não vamos transformar a corrupção num problema político. Queremos tratar a corrupção como um problema de polícia, um problema de Justiça. Temos que ser eficientes. Não vamos reproduzir o que a Lava Jato fez, que foi contraproducente para a luta contra a corrupção.
Você faz 365 dias por ano um tubulão no Jornal Nacional, todos os dias com aquela imagem, claro que vai ficar uma pecha. Olha o que está acontecendo depois. A corrupção tem que ser combatida individualmente. A corrupção tem que ser um elemento fundamental no combate ao comportamento corrupto da empresa e do indivíduo. Não pode ser o centro de uma política. A direita usa a corrupção como centro da política porque ela não quer de fato combater, porque os mais corruptos são os de direita. Não é a esquerda que é corrupta, é a direita que é corrupta.
RAIO-X | José Sérgio Gabrielli de Azevedo, 76
É economista e professor titular aposentado da UFBA, com doutorado pela Boston University (1987) e pós-doutorado na London School of Economics. Foi diretor financeiro e presidente da Petrobras entre 2003 e 2012 e secretário estadual de Planejamento da Bahia entre 2012 e 2014. Atualmente é pesquisador do INEEP e coordenador do programa de governo da campanha de Lula em 2026
