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Comunicação da campanha de Flávio Bolsonaro vive disputas internas em meio a baixa nas pesquisas
Comunicação da campanha de Flávio Bolsonaro vive disputas internas em meio a baixa nas pesquisas
Equipe de senador tenta se recuperar da crise com caso Vorcaro enquanto lida com embates por protagonismo e poder sobre as estratégias para a pré-candidatura à Presidência da República
Por Guilherme Caetano/Estadão
22/06/2026 às 17:45
Foto: Reprodução/Instagram
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante passagem na Bahia Farm Show, em Luís Eduardo Magalhães
A menos de quatro meses das eleições, a comunicação da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República passa por disputas internas em meio ao rescaldo do caso Vorcaro e à queda nas pesquisas de intenção de voto.
A pré-campanha de Flávio sofreu um abalo no último mês a partir da revelação pelo site Intercept de que o senador pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, pivô da maior fraude bancária da história do Brasil, para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Até então, o senador surfava uma crescente nas pesquisas com baixas cobranças. A maré mudou, e ele foi pressionado a dialogar mais com o bolsonarismo raiz, grupo menos afetado pelo abalo na reputação que a revelação dos áudios a Vorcaro causaram.
O jornal O Estado de São Paulo conversou com cinco pessoas da pré-campanha e ouviu críticas e queixas sobre disputas de protagonismo e divergências sobre a estratégia a ser tomada até o pleito em outubro.
Há uma rivalidade “fisiológica” dentro da equipe pela proximidade com Flávio e influência sobre a campanha, segundo relatos dos integrantes. O controle sobre o que vai ser publicado nas redes sociais do senador, que tipo de discurso ele vai adotar e como ele vai se vender enquanto presidenciável são focos de desentendimentos.
Houve baixas no último mês por conta dessa concorrência interna. Um dos atritos ocorre entre Fernando Pessoa, assessor do gabinete do Senado que hoje atua como uma espécie de marqueteiro digital, e os profissionais de publicidade que chegam para trabalhar na equipe. O então estrategista de mídias sociais da campanha, Marcos Carvalho, por exemplo, deixou o projeto dias atrás após divergências com Pessoa.
Algumas das marcas que Flávio vem tentando imprimir na persona presidenciável são ideias de Pessoa, como as camisetas com frases que ele tem usado em eventos. Seus aliados dizem que as camisetas de Flávio são o boné de Trump e exemplificam o tipo de jogada que costuma ser pensado pelo marqueteiro-chefe da campanha.
As frases são tiradas de sentimentos captados pela equipe de Pessoa entre os moradores de cada região visitada pelo senador. Em Altamira (PA), Flávio vestiu o slogan “A Amazônia é nossa”. Na cidade agrária de Luís Eduardo Magalhães (BA), a frase foi “Lula taxa, a gente planta”; no Paraná, berço da Operação Lava Jato, “Curitiba prendeu, Brasília soltou”.
O empresário Marcello Lopes, amigo de Flávio que coordenava a área de comunicação, também deixou a equipe após entrar em rota de colisão com o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha. Profissionais ligados a “Marcelão” caíram junto dele.
A outra disputa, a “ideológica”, também causa insatisfações. Uma ala se queixa da pressão por acenos ao bolsonarismo raiz feita por aliados externos, como Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, enquanto os profissionais comunicação defendem privilegiar o eleitorado indeciso e moderado, cujo voto o PL disputará com o PT para vencer a corrida.
A ida aos Estados Unidos para o encontro com o presidente Donald Trump no mês passado desagradou a essa ala, em especial após o senador ser associado ao novo tarifaço anunciado pela Casa Branca — a que Flávio tenta se desvincular na medida em que o PT trabalha para fazer pegar o apelido “Tariflávio”.
Flávio vinha adotando uma postura mais moderada nos primeiros meses após o anúncio de sua pré-candidatura, o que era criticado pela militância mais estridente, que gostaria de ver um Jair Bolsonaro 2.0. A crise da divulgação dos áudios a Vorcaro, no entanto, fez o senador abraçar as origens e se virar para a direita radical.
O motivo dessa estratégia é que seria prioritário abraçar o grupo que estará com a família Bolsonaro independentemente do noticiário, para segurar a base mais fiel, e depois trabalhar para resgatar os mais independentes, cuja intenção eleitoral oscila. Um dos aliados explica a estratégia afirmando que quando há uma crise “você se abriga em sua casa”.
Passada a tempestade, a ideia é que Flávio seja “radical onde ele possa ser radical”, como no discurso da segurança pública, ao defender castração química para estupradores, por exemplo. Em outros temas, como na agenda voltada às mulheres, ele quer acenar mais ao centro. O comportamento ambivalente levou a militância insatisfeita a apelidá-lo de “feministo”.
Com a saída de Marcello, o time anunciado para reforçar a comunicação entrou num limbo. Dias antes da crise estourar, ele anunciara a contratação de Antônio Costa Neto, ex-diretor global de criação da Bates Worldwide, Walter Longo, ex-presidente do Grupo Abril, e Roberto Munhoz, diretor de jornalismo da Record.
Eles já não trabalham mais na campanha, e os contratos antigos estão sendo reavaliados. A parceria com a Aldeia Filmes, que sediava o QG da campanha no Lago Sul, em Brasília, foi rompida dias atrás. A equipe de Flávio voltou a trabalhar na sede do PL, no edifício Brasil 21, na região central.
A reestruturação vem sendo implementada pela dupla de publicitários Alexandre Oltramari e Eduardo Fischer, que fixaram base em São Paulo e fecharam contrato com a produtora Digital 21. A equipe responsável pela relação com a imprensa veio da Prefeitura de São Paulo, liderada por Fábio Portela.
O evento realizado nesta quinta-feira, 18, na capital paulista para anunciar algumas propostas na área de segurança pública foi ideia dos novos marqueteiros. A ideia é gerar fatos políticos para encobrir o noticiário negativo que vinha engolindo Flávio.
O anúncio, no entanto, acabou ofuscado pela operação da Polícia Federal que teve como alvo o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT), suspeito de receber propina para atuar a favor do Banco Master no Congresso.
Agora, a a prioridade da campanha de Flávio se tornou explorar o quanto puder o acontecimento. Escaldado com as revelações do caso “Dark Horse”, o objetivo é jogar a crise Vorcaro de volta para o colo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — e tentar voltar a crescer nas pesquisas eleitorais.
