Passageiros de cruzeiro com surto de hantavírus iniciam desembarque na Espanha
Embarcação saiu em 1º de abril da Argentina antes de sofrer o surto que matou três de seus passageiros
Por Folhapress
10/05/2026 às 12:30
Foto: Divulgação
Cruzeiro MV Hondius, que registrou um surto de hantavírus
Os ocupantes do cruzeiro MV Hondius, que registrou um surto de hantavírus, começaram a deixar a embarcação neste domingo (10). O desembarque teve início horas depois de sua chegada ao porto de Granadilla de Abona, na ilha espanhola de Tenerife. A operação deve se estender até esta segunda-feira (11).
O cruzeiro saiu em 1º de abril da Argentina, com 149 pessoas a bordo, de 23 nacionalidades. O último balanço da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre o surto no navio indica um total de seis casos confirmados entre oito suspeitos.
O hantavírus geralmente é transmitido por roedores, mas em casos raros pode ser transmitido de pessoa para pessoa. O vírus foi detectado em 2 de maio, 21 dias após a morte do primeiro passageiro. Ao todo, houve três óbitos: um casal de holandeses, de 70 e 69 anos, e uma alemã.
Suspeita-se que o primeiro caso de infecção possa ter ocorrido antes do embarque, com a propagação posterior no navio.
Neste domingo, a embarcação entrou no pequeno porto do sul de Tenerife às 2h, no horário de Brasília. Catorze espanhóis foram os primeiros a deixá-la, por volta das 5h30. Eles foram levados ao aeroporto de Tenerife Sul, a dez minutos dali. O transporte até o local se deu em ônibus vermelhos da Unidade Militar de Emergência (UME), com a parte do motorista separada dos passageiros por uma espécie de barreira profilática.
No aeroporto, os espanhóis trocaram os trajes de proteção que usavam e foram submetidos a um processo para livrá-los de eventuais microrganismos. Eles então decolaram em direção a Madri, onde serão enviados a um hospital militar para cumprir quarentena.
A ideia é repetir a mesma operação com outros passageiros e membros da tripulação.
Os passageiros não deixarão a embarcação até que o avião designado a eles tenha chegado, disseram autoridades espanholas.
Para este domingo também há voos programados para os Países Baixos, Canadá, Turquia, França, Reino Unido, Irlanda e Estados Unidos. O plano foi informado pela ministra espanhola da Saúde, Mónica García.
O último voo, com destino à Austrália, está previsto para esta segunda-feira, segundo a ministra. Ela coordena a operação ao lado de outros ministros e do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.
"A operação começou e está indo muito bem. Agradecemos também à coordenação por parte da Espanha, e a União Europeia também está aqui", afirmou Ghebreyesus.
Antes de iniciar a remoção, uma equipe médica entrou no navio para avaliar os ocupantes. A ministra espanhola da Saúde disse que eles estão assintomáticos.
O governo espanhol declarou que a operação conta com "todas as garantias de saúde pública".
O Ministério da Saúde espanhol disse o seguinte em um relatório: "Há mais de 500 navios de cruzeiro por ano que vêm da Argentina e do Chile, onde o vírus é endêmico, e ainda assim um surto dessa doença nunca aconteceu em território europeu, então a possibilidade de isso acontecer em relação a este navio é remota".
A pasta acrescentou que não foram detectados roedores a bordo do navio.
Uma vez concluída a operação, 30 pessoas permanecerão a bordo e navegarão até os Países Baixos, onde o navio será desinfetado.
Casos suspeitos
Uma mulher espanhola, que era suspeita de ter contraído o vírus após compartilhar um voo com um dos pacientes que morreu, teve seu teste com resultado negativo neste sábado (9).
O exército britânico lançou de paraquedas uma equipe especializada na remota ilha de Tristão da Cunha para fornecer apoio médico a um caso suspeito, um britânico que era passageiro do navio e mora na ilha no Atlântico Sul.
Quatro pacientes permanecem hospitalizados na África do Sul, Holanda e Suíça, enquanto um caso suspeito enviado à Alemanha teve resultado negativo.
Risco de nova pandemia
No sábado, o chefe da OMS afirmou que o caso atual não é uma nova pandemia de Covid. "O risco atual para a saúde pública derivado do hantavírus continua sendo baixo".
Também na véspera da operação, a entidade disse que todas as pessoas a bordo do cruzeiro devem ser monitoradas durante 42 dias.
"Classificamos todas as pessoas a bordo como o que chamamos de contatos de alto risco", disse Maria Van Kerkhove, diretora de preparação e prevenção de epidemias e pandemias da OMS, em um vídeo publicado em redes sociais. Segundo ela, o risco para a população em geral, incluindo os habitantes das Ilhas Canárias, é baixo.
O navio permanece fundeado, sem atracar, no porto de Granadilla para não tocar terra, por pedido expresso das autoridades regionais das Canárias, que deixaram clara sua oposição.
"Com minha autorização e conivência, não vou colocar a população em perigo. Se eles quiserem afrontar a comunidade autônoma e a vontade das instituições canárias, isso será feito pelo governo da Espanha, mas não com nossa cumplicidade", afirmou o presidente das Canárias, Fernando Clavijo.
"O mundo nos observa novamente. E novamente a Espanha, como em muitas outras crises, responderá à altura do que é este grande país, com exemplaridade e eficácia", disse neste domingo o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, em um ato do Partido Socialista na Andaluzia.
"Agradeço às Canárias por permitirem que o cruzeiro Hondius atracasse", disse na praça de São Pedro o papa Leão 14, que visitará o arquipélago em abril dentro de uma viagem à Espanha.
