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Participação oculta de Vorcaro no BRB coloca ex-gestores do banco na mira de investigação
Participação oculta de Vorcaro no BRB coloca ex-gestores do banco na mira de investigação
Por Nathalia Garcia/Folhapress
11/02/2026 às 06:42
Foto: Reprodução/Arquivo
Daniel Vorcaro
Auditoria instalada no BRB (Banco de Brasília) para apurar a operação envolvendo o Banco Master coloca sob suspeita a atuação de antigos gestores do banco do Distrito Federal, incluindo o ex-presidente Paulo Henrique Costa, segundo pessoas próximas ao banco.
Chama a atenção que Daniel Vorcaro, dono do Master, Maurício Quadrado, seu antigo sócio, e João Carlos Mansur, da administradora de fundos Reag, se tornaram acionistas do BRB de forma oculta, por trás de fundos de investimento, enquanto a instituição do Distrito Federal aumentava seu capital, com ofertas de ações que levantaram R$ 1 bilhão em 2024.
Em conjunto, esses dois fatores levantam a desconfiança por parte dos investigadores de que a expansão do patrimônio do BRB via oferta de ações tinha como objetivo final ampliar a capacidade do banco de Brasília de fazer negócios com o Master.
O material serviu de base para o inquérito da Polícia Federal que averigua se a antiga gestão do BRB sabia quem estava por trás dos fundos e facilitou ou agiu de alguma forma para que essas pessoas –investigadas pela operação Compliance Zero– virassem acionistas do banco do Distrito Federal. A investigação apura se houve crime de gestão fraudulenta e temerária de instituição financeira.
Se a aquisição do Master pelo BRB tivesse sido aprovada pelo Banco Central, essa engrenagem por meio dos fundos poderia permitir que, na prática, Vorcaro participasse do comando da instituição, só que sob o véu do banco do DF. O negócio foi rejeitado pela autoridade monetária em setembro do ano passado.
O fato de ter havido a entrada de novos fundos na base de acionistas do BRB pouco antes das operações de compra de carteiras fraudulentas do Master pelo Banco de Brasília chamou a atenção da auditoria conduzida pelo escritório Machado Meyer Advogados, com suporte técnico da Kroll. Posteriormente, as apurações apontaram que Vorcaro, Quadrado e Mansur eram cotistas desses fundos.
Os dois aumentos de capital do BRB feitos em 2024 totalizaram cerca de R$ 1 bilhão, sendo uma primeira operação no valor de R$ 250 milhões e outra de R$ 750 milhões.
A oferta de ações do BRB foi feita por meio de subscrição privada, modelo em que a compra só pode ser realizada por quem já integra a base de acionistas do banco.
Na primeira operação, o fundo Borneo, administrado pela Reag, comprou 44% das ações. Já na segunda operação, realizada em dezembro, o fundo Deneb, administrado pelo Master, adquiriu outra fatia de ações do BRB. Além deles, já tiveram ações ou recibos de subscrição do BRB os fundos Verbier e Delta. Esses fundos têm ligação com operações financeiras do Master sob investigação.
A PF investiga a teia de movimentação financeira montada pelo Master para a compra de ações do BRB. Os investigadores buscam entender por que Vorcaro optou por uma operação tão complexa a uma compra direta de ações do banco.
Procurado, o ex-presidente do BRB não se manifestou sobre a suspeita de facilitação.
Segundo relato de uma pessoa próxima a ele, Costa tem visto a acusação como injusta porque argumenta que não tinha conhecimento da estrutura dos beneficiários finais até submeter o processo à homologação do BC, em abril de 2025.
Entre o momento do aumento de capital e a homologação, houve movimentações no mercado secundário e nas cotas dos fundos de maneira que os fundos e seus beneficiários sofreram mudanças, de acordo com essas pessoas.
Como mostrou a Folha, a auditoria encontrou sobreposição de nomes e fundos que participaram da compra de ações do BRB com aqueles que estão envolvidos no esquema de fraude da compra de carteiras de crédito no valor de R$ 12,2 bilhões.
O BRB informou em nota ter encontrado "achados relevantes" na primeira etapa do relatório preliminar entregue pela auditoria forense contratada pelo banco.
A análise, que teve início no começo de dezembro, segue em andamento. Na fase atual, a auditoria tem como foco o processo de compra e substituição das carteiras adquiridas junto ao conglomerado de Vorcaro. O plano é entregar à instituição do DF atualizações mensais e concluir o trabalho até abril.
Na semana passada, o BRB atualizou seu formulário de referência junto à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), com Mansur como um de seus principais acionistas. Ao todo, ele tem 4,5% do capital do BRB, sendo 1,8 milhão de ações ordinárias (0,5% das ações nesta classe), com direito a voto, e 20,3 milhões de ações preferenciais (12,2%).
O ex-sócio de Vorcaro deixou o cargo de presidente do conselho de administração da Reag em setembro de 2025 para conter crise de credibilidade depois da operação Carbono Oculto. A Reag foi um dos alvos do ato deflagrado pela PF para investigar um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC no mercado financeiro.
A Folha não obteve resposta da defesa de Mansur até a publicação da reportagem.
No formulário de referência do BRB, além de Mansur, também consta como acionista o fundo Borneo, com cerca de 3,1% do capital do banco.
Depois que a participação de Vorcaro veio à tona, a defesa dele disse em nota que o Master detinha participação acionária no BRB por meio de sua holding, devidamente registrada e dentro das regras do mercado.
"A aquisição foi feita no âmbito de aumento de capital regularmente aprovado pelo Banco Central. Daniel Vorcaro segue colaborando com as autoridades para o esclarecimento dos fatos", disse.
A assessoria de Quadrado afirmou que a participação dele decorre da aquisição, no mercado secundário, de recibo de subscrição de ações do BRB.
"Esses recibos já haviam sido pagos ao banco pelo fundo vendedor quatro meses antes da aquisição por Quadrado. Isso significa que essa operação não originou ingresso de novos recursos no BRB, portanto sem qualquer impacto sobre o seu patrimônio líquido. Dessa forma, não cabe sustentar que a operação tenha tido por finalidade inflar ou artificialmente elevar o capital do BRB."
