Dólar cai a R$ 5,19, mínima em quase dois anos; Bolsa recua
Temores de bolha de IA voltaram a rondar mesas de operação após relatório da Microsoft
Por Folhapress
29/01/2026 às 18:20
Atualizado em 29/01/2026 às 23:51
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Arquivo
Cédulas de dólar
O dólar se firmou no negativo no fim de tarde desta quinta-feira (29) e fechou em queda de 0,25%, cotado a R$ 5,194 —nova mínima para a moeda norte-americana em quase dois anos.
A última vez em que a divisa esteve nesse patamar foi em 28 de maio de 2024, quando fechou em R$ 5,160.
O dia, no entanto, foi de volatilidade no mercado de câmbio. Pela manhã, o dólar encostou na mínima de R$ 5,165, embalado nas decisões de juros do Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central). No início da tarde, a divulgação do relatório da Microsoft sobre gastos com inteligência artificial reavivou temores de uma bolha no setor, instaurando fuga de ativos de risco globalmente. Aqui, a moeda chegou às máximas de R$ 5,248.
As preocupações sobre a crescente de investimentos na tecnologia e a falta de retornos imediatos empurrou Wall Street para baixo. O Nasdaq Composite, conhecido como o "índice da tecnologia", caía 1,5%.
O pessimismo chegou na Bolsa de Valores brasileira, que reverteu a máxima de 186.449 pontos, atingida também ao sabor das decisões de juros, e passou a cair. Às 17h, o Ibovespa marcava queda de 0,85%, a 183.107 pontos, apesar da valorização da Vale e da Petrobras.
Os mercados estão puxando o freio de mão nesta quinta em meio a sinais de que as maiores empresas de tecnologia não estão demonstrando sinais de que irão reduzir os gastos com inteligência artificial tão cedo —mesmo com dúvidas crescentes sobre a demanda que justifique esses investimentos.
A primeira onda desses temores ocorreu no final do ano passado, quando Wall Street passou a questionar se os bilhões de dólares investidos nessa tecnologia iriam dar o retorno previsto no tempo previsto. Com o relatório desta quinta da Microsoft, esses medos voltaram a rondar as mesas de operação.
A empresa fundada por Bill Gates caía 12%, na maior queda desde 2020. A Meta, por outro lado, avançava 8% depois de amenizar preocupações com seus planos de gastos.
"Os investidores estão vendendo porque provavelmente perceberam que não vão ganhar tanto dinheiro com o tema da IA quanto esperavam há seis meses", diz Matt Maley, da Miller Tabak & Co. "O mercado de IA está saturado e os investidores estão reavaliando o setor, então estão redistribuindo suas posições em ações de grandes empresas de tecnologia".
O movimento de venda chegou ao Brasil, que viu o Ibovespa se valorizar mais de 14% no mês de janeiro devido ao fluxo de investidores estrangeiros no país.
"A Bolsa acompanhou a tendência de fora e virou para queda durante o dia. Mas o fluxo de capital para o Brasil continua positivo, com Vale e Petrobras subindo bastante e um capital relevante entrando em renda fixa", diz Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.
O recuo do dólar, porém, se deve ao diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, à luz das decisões dos bancos centrais da véspera.
"Esse diferencial de juros continua atrativo, e o investidor aposta no carry trade, o que mantém o câmbio valorizado", diz Marcatti. Nessa operação, operadores tomam empréstimos no exterior, onde os juros são menores, e aplicam no Brasil, onde o retorno é maior.
O Copom manteve a taxa Selic em 15% ao ano, mas prevê iniciar o ciclo de cortes nos juros a partir da próxima reunião caso o cenário esperado para a inflação se confirme. O comitê reforça que "manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", segundo o comunicado.
A centro da meta de inflação da autoridade monetária é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo. No modelo atual de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).
Como reflexo do cenário de juros elevados por período prolongado, a inflação perdeu força em 2025 e fechou o acumulado do ano em 4,26%, abaixo do teto da meta. Foi o menor índice para um ano fechado desde 2018, quando o IPCA avançou 3,75%.
Na visão da equipe de pesquisa macroeconômica do Itaú, o comunicado indica que o compromisso do Copom com a meta "requer serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, e dependerá do grau de confiança que seus membros desenvolverem em relação a convergência".
A expectativa do banco é que o primeiro corte do ciclo seja de 0,25 ponto percentual. "Aguardaremos a divulgação da ata da reunião na próxima terça-feira para reavaliar nossa projeção. Ainda assim, não esperamos um ciclo muito maior que 2,25 pontos, levando a taxa básica a 12,75% ao ano até dezembro".
Mesmo com a perspectiva de uma Selic mais baixa, agentes do mercado têm ponderado que o diferencial de juros seguirá atraente para operações de carry trade, considerando que as taxas no exterior são bem menores.
Nos EUA, por exemplo, o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) optou por manter a taxa de referência na faixa de 3,50% a 3,75% e não deu previsão para a retomada do ciclo de cortes.
A manutenção já era amplamente esperada pelo mercado, apesar da pressão do presidente Donald Trump por mais reduções e da abertura, neste mês, de uma investigação criminal contra Jerome Powell, presidente da instituição.
Nesta quinta, Trump afirmou que os Estados Unidos deveriam ter a taxa de juros mais baixa do mundo.
Os embates do republicano com o banco central têm gerado preocupações nos mercados conforme a escolha pelo novo presidente do Fed se aproxima. O mandato de Jerome Powell termina em maio, e operadores temem que Trump opte por um dirigente que responderá às suas demandas, e não aos dados econômicos.
Essa preocupação se soma a outras incertezas relacionadas às políticas fiscais, domésticas e internacionais de Trump —um caldo que tem incentivado um movimento de rotação para fora das praças norte-americanas.
