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Empresa de Israel vence licitação para blindados do Exército, que teme veto de Lula
Empresa de Israel vence licitação para blindados do Exército, que teme veto de Lula
Por Cézar Feitoza/Folhapress
29/04/2024 às 19:36
Atualizado em 29/04/2024 às 19:36
Foto: Divulgação/Elbit Systems

O Exército anunciou internamente, nesta segunda-feira (29), que o grupo israelense Elbit Systems venceu a licitação para a compra de 36 viaturas blindadas de obuseiro 155 mm —espécie de canhão de grande alcance e precisão que será utilizado pela artilharia.
A aquisição beira R$ 1 bilhão, segundo generais ouvidos pela Folha. Há receio de que a licitação, que dura quase dois anos, possa sofrer reveses por questões geopolíticas, já que o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem feito críticas à conduta de Tel Aviv no conflito contra o grupo terrorista Hamas.
O armamento israelense faz parte de um projeto chamado Atmos. A previsão é que os obuseiros sejam entregues ao longo de oito anos, já que o orçamento para investimentos do Exército tem caído aos piores índices da década.
O deputado Carlos Zarattini (PT-SP), que acompanha os temas de defesa no partido, afirmou que "não faz sentido" o Exército negociar a compra de equipamentos militares com empresa israelense num momento em que o Brasil critica as Forças Armadas de Israel por operações que atingem a população palestina.
"Com todo esse problema diplomático que temos com o governo de Israel nesse momento, me parece que não é o melhor caminho fazer uma compra desse volume de empresa israelense. Não temos a necessidade de ter esse material com essa pressa, o assunto deveria ser mais bem pensado", disse.
A Elbit Systems superou empresas da França, China e Eslováquia na reta final da disputa. Militares afirmaram à reportagem, sob anonimato, que o principal diferencial da empresa israelense é possuir subsidiárias no Brasil com capacidade de fabricar a munição de 155 mm e garantir suporte logístico.
As fábricas brasileiras são as empresas Ares Aeroespacial e Defesa e AEL Sistema, com sedes no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, respectivamente. A contratação da empresa de Israel, portanto, seria uma forma de aquecer a base industrial de defesa brasileira.
O anúncio do resultado da licitação diz que a empresa Elbit Systems será convocada para assinatura do contrato inicial no dia 7 de maio.
O temor de membros da cúpula militar é que Lula possa vetar a compra, como tem feito sistematicamente com a exportação de munições e armamentos brasileiros para a Ucrânia.
Apesar de a posição da diplomacia brasileira ser diferente nos conflitos do Leste Europeu e da Faixa de Gaza, alas do governo e integrantes do PT já acompanhavam a licitação bilionária do Exército com receio.
O presidente Lula tem adotado posição crítica à ofensiva israelense na Faixa de Gaza, que envolve operações em hospitais que atendem a palestinos e bombardeios em regiões populosas. O número de mortos já ultrapassou 34 mil, segundo o ministério da Saúde local —controlado pelo Hamas.
Em viagem a Adis Abeba, na Etiópia, Lula chegou a comparar as ações militares de Israel com o extermínio de judeus promovido por Adolf Hitler. "Sabe, o que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino, não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus", afirmou em fevereiro.
A declaração do presidente gerou reação do governo de Binyamin Netanyahu, que declarou o líder brasileiro "persona non grata".
"Não esqueceremos nem perdoaremos", disse à época o chanceler do país, Israel Katz. "Em meu nome e em nome dos cidadãos de Israel, diga ao presidente Lula que ele é persona non grata em Israel até que retire o que disse".
Mesmo diante de repercussões negativas e impacto diplomático, Lula não se retratou e, cinco dias após a declaração, voltou a falar que Israel estava cometendo um genocídio contra o povo palestino.
"O que o governo de Israel está fazendo com a Palestina não é guerra, é genocídio", disse Lula, que enfatizou: "Se isso não é genocídio, eu não sei o que é".
