A arte e a política em “Estação Atocha”, por Guilherme Reis*
Por *Guilherme Reis é jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia.
02/01/2024 às 07:41
Atualizado em 02/01/2024 às 07:42
Foto: Jake Naughton/The New York Times / NYT

O desinteresse dos americanos pela cultura estrangeira e a superficialidade da elite europeia estão no centro do primeiro romance de Ben Lerner, “Estação Atocha”, lançado em 2011 nos Estados Unidos. Na narrativa autobiográfica, cuja tradução foi publicada no Brasil em 2015 pela extinta editora Rádio Londres, o jovem poeta Adam Gordon ganha uma bolsa de estudos e vai passar um ano em Madri, onde precisa escrever um longo poema narrativo sobre o papel da literatura na Guerra Civil Espanhola. Adam, porém, depara-se com uma sucessão de dificuldades, como os limites da linguagem, seu parco conhecimento sobre a Espanha e sua própria personalidade conflituosa.
Todos os eventos são desencadeados pelas tentativas de o narrador-protagonista executar seu projeto de pesquisa (ou de procrastiná-lo), o que a princípio pode desagradar ao leitor pouco habituado ao mundo acadêmico. Mas agradar é a menor de suas preocupações: sem nenhum pudor, ele expõe o lado mais pueril de sua intimidade com passagens de necessidade questionável: “Depois, o projeto exigia que eu voltasse para dentro, descendo pela claraboia, cagasse, tomasse banho, engolisse os comprimidos brancos e me arrumasse”, escreve logo na primeira página.
No entanto, à medida que o texto avança, torna-se cada vez mais nítida a personalidade instável e insensível de Adam, que se define como “mentiroso compulsivo, violento e bipolar” e, por isso, “um autêntico americano”. Ao conhecer a jovem poeta e tradutora Teresa, com quem tentará uma relação amorosa, Adam, com seu espanhol capenga, inventa que sua mãe havia morrido. E, mesmo sem saber por que mentiu, repete a história para Isabel, uma funcionária do curso de idiomas com quem também começa a se relacionar.
A partir da metade do romance, o discurso político ganha força. De manhã, Adam acorda e, da janela do hotel, vê caminhões de bombeiros e viaturas passando em alta velocidade. Ele caminha até a Estação Atocha, chegando “àquilo que se costuma descrever como cenas de caos e destruição”. Há médicos, paramédicos, policiais e feridos sendo evacuados. É o atentado terrorista de 11 de março de 2004, que matou quase 200 pessoas e feriu mais de 2 mil às vésperas das eleições gerais.
Manifestantes ocupam as ruas, incluindo a rica e culta Teresa, cujo luxuoso apartamento é agora a segunda casa de Adam. “Perguntei se ela conhecia alguém que tinha morrido no ataque, mas respondeu que não. Disse que muitas das vítimas eram imigrantes. Que era um crime contra os trabalhadores e que ela não conhecia muitas pessoas que trabalhavam”, narra. E ao se ver sozinho, acrescenta: “Tudo estava impecavelmente limpo, e eu me perguntei se era ela mesma quem limpava. Talvez uma imigrante cuidasse do apartamento, uma imigrante que tinha ido pelos ares”.
Teresa e os amigos se reúnem no local para conversar sobre política e combinar novos protestos. Entretanto, filtradas pelo olhar desinteressado do narrador, as movimentações parecem superficiais, como se os personagens, todos adultos, fossem adolescentes em busca de experiências, enquanto mentem para si mesmos que se importam com os acontecimentos.
No último capítulo, no auge da sua trilha de experiências vazias, o protagonista se perde em Barcelona e passa doze horas vagando, sem celular e sem conseguir se lembrar do nome e da fachada do hotel onde está hospedado com Teresa. Adam, “um autêntico americano”, é incapaz de se localizar fora do seu habitat. Em todo o romance, essa é a crítica mais contundente aos Estados Unidos de Bush em relação ao resto do mundo.
As semelhanças entre autor e personagem são evidentes. Em entrevista ao jornal “O Globo” em 2018, Lerner disse que seus narradores são versões exageradas de si mesmo. Assim como em “Estação Atocha”, ele morou por um ano na Espanha após ganhar uma bolsa de estudos, concedida pelo Programa Fulbright. Isso reforça a impressão, durante a leitura, de que ambas as entidades se confundem na maior parte da narrativa, da qual nada nem ninguém sai imune.
