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Estimulado nos EUA, denunciante no Brasil vira traidor, por Raul Monteiro*
Estimulado nos EUA, denunciante no Brasil vira traidor, por Raul Monteiro*
Por Raul Monteiro*
07/05/2020 às 09:00
Atualizado em 07/05/2020 às 09:00
Foto: Divulgação/Arquivo

Uma polêmica recente nos Estados Unidos decorrente do combate ao coronavírus que resultou na demissão do diretor da agência responsável pelo desenvolvimento de medicamentos para combater a pandemia, Rick Bright, trouxe oportunamente à tona uma discussão sobre os mecanismos que a democracia norte-americana utiliza para fazer frente a desvios de toda ordem, inclusive de corrupção. Bright liderava o processo de desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19 e foi removido do cargo, aparentemente, após questionar o modo como o governo norte-americano queria usar a cloroquina e hidrocloroquina no combate à doença.
A semelhança com o caso brasileiro pára por aqui. Exatamente porque foi removido, o ex-diretor resolveu registrar uma denúncia contra a Casa Branca esta semana na qual acusa o governo de retaliá-lo por sua posição contra o uso das duas substâncias como uma "panacéia", embora "sem mérito claro científico definido". Como se sabe, o presidente Donald Trump vinha repetidamente elogiando os remédios de comprovada eficácia contra a malária como eficientes também contra a pandemia, mesmo com poucos estudos que comprovassem a tese, no que foi repetido amplamente no Brasil.
A medida extrema de Bright foi possível porque nos EUA, diferentemente do que acontece no Brasil, a legislação protege aqueles que denunciam governos e eles têm apoio manifesto da sociedade. Isso ocorre exatamente porque o Estado não é visto como propriedade dos governantes de plantão, aos quais críticas sempre são consideradas abusivas por seguidores que os apóiam incondicionalmente, mas como uma instituição pública, que precisa servir a todos. Por este motivo, o próprio Estado reconhece a importância de ser fiscalizado de dentro, provendo proteção àqueles que assumem o risco de confrontar seus eventuais dirigentes.
O desentendimento recente entre Jair Bolsonaro e seu ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, revela a diferença gritante entre as duas culturas. Porque denunciou a tentativa, segundo suas palavras, de interferência do presidente da República na Polícia Federal, o ex-juiz da Lava Jato virou alvo dos bolsonaristas loucamente militantes, que passaram, sob o estímulo do chefe, na falta de expressão melhor, a acusá-lo de traidor, entre outros impropérios. Houve quem, para reforçar seu argumento, dissesse que não era digno de confiança alguém que delatasse um chefe com quem tivesse convivido 15 meses.
A comparação, à qual muitos recorreram, é o exemplo vivo de como o eleitor - e não apenas dirigentes ou executivos políticos - tem dificuldade de separar o público do privado no Brasil, o que representa um problema adicional para que entenda a importância de defender as instituições que existem para protegê-lo daqueles que podem usurpar seus direitos. Neste contexto, o fanatismo significa o coroamento da confusão. Afinal, quem entrega sua consciência àquele que elegeu ou que passou a apoiar, com fervor religioso, abre mão do exercício de buscar melhorar continuamente, por meio do aperfeiçoamento das instituições, uma Nação.
* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.
