Eduardo Salles
Sinal de alerta ligado na agropecuária brasileira
26/02/2026 às 11:02
Não podemos confundir a grande produtividade da agropecuária brasileira, que bate recorde a cada safra, com o momento financeiro atual. Os números mostram que chegou a hora de ligar o sinal de alerta em função dos dados que mostram o crescimento de pedidos de recuperação judicial e de inadimplência no setor.
Segundo os dados do Ministério da Agricultura, as exportações do setor chegaram a 169,2 bilhões de dólares em 2025, o que representa 48,5 de tudo que vendemos a outros países no período. Um crescimento de 3% quando comparado ao ano anterior. A agropecuária gerou um saldo positivo de 149,07 bilhões de dólares na balança comercial.
São números excelentes que representam a força e a importância da agropecuária brasileira na economia. Mas a rentabilidade da porteira para dentro está ameaçada por causa de conjunturas econômicas e fatores climáticos.
A carteira de crédito rural no Brasil apresentou, segundo dados da FARSUL (Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul) publicados em janeiro, forte deterioração, com o atrasos e renegociações crescendo de R$ 72,2 bilhões em julho de 2024 para R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025. A inadimplência deve seguir alta em 2026 porque o produtor continuará com custos elevados e menor margem de lucro.
A tempestade perfeita é resultado de juros altos, aumento no preço dos insumos e preço dos produtos em queda por causa da volatilidade do mercado. Essa combinação, somada aos números que já mostram o enorme crescimento da inadimplência no campo, são extremamente preocupantes.
Conforme o Serasa Experian, o Norte lidera a inadimplência, com 12,4%. Em seguida vêm Nordeste (9,7%), Centro-Oeste (9,4%), Sudeste (7%) e Sul (5,5%).
Os produtores de médio e pequeno porte têm muita dificuldade ao acesso a crédito do Plano Safra 2025/2026, já que, conforme a ABRAMILHO e APROSOJA, apenas 10% do valor disponível está em contratos de juros subsidiados.
O Ministério da Agricultura divulgou agora em fevereiro a expectativa de redução de 3,6% no VBP (Valor Bruto da Produção). A explicação é o menor valor no preço esperado para as commodities agrícolas. A queda no plantio nas lavoras, conforme o governo federal, chegará a 4% nas lavouras e 3% na pecuária quando comparado aos números de 2025.
O Banco Mundial também faz previsão pessimista de redução de 2% no índice de preços agrícolas. A instituição culpa o comportamento do PIB global, a desvalorização do dólar ante a outras moedas e o aumento dos custos dos insumos.
Outro fator é o climático, com secas prolongadas no Nordeste e Centro-oeste e chuvas no Sul, o que causou sérios prejuízos e não permite que os produtores tenham margem para passar por esse momento de instabilidade.
Não estou prevendo uma quebra generalizada ou o caos, mas alertando para a deterioração da capacidade de o produtor rural quitar suas dívidas, o que, a médio e longo prazo, pode causar sérios prejuízos à economia brasileira.
Chegou o momento de o governo federal sentar com o setor para ambos apontarem soluções que evitem um mal maior a um dos principais setores da economia e responsável pela geração de milhões de empregos.
