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Por que o acordo Mercosul–União Europeia saiu do papel agora

Eduardo Salles

Por que o acordo Mercosul–União Europeia saiu do papel agora

26/01/2026 às 13:43

Durante mais de duas décadas, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia foi tratado como uma promessa permanente. Iniciado em 1999, atravessou mudanças de governos, crises econômicas globais, disputas ideológicas e fortes resistências setoriais. Poucos acreditavam que, após 25 anos de negociações, ele realmente avançaria. Avançou porque o mundo mudou e o comércio internacional deixou de ser apenas econômico para se tornar estratégico.

Desde o início, os dois blocos negociaram a partir de interesses distintos. Os países do Mercosul buscavam maior acesso para seus produtos agropecuários, enquanto a União Europeia priorizava a abertura de mercados para bens industriais, serviços, compras governamentais e regras rigorosas de origem, sustentabilidade e propriedade intelectual. 

Agricultura e meio ambiente foram os principais pontos de impasse ao longo do tempo. Em 2019, houve um entendimento político, mas o processo voltou a travar por pressões internas europeias e desconfianças ambientais.

O que destravou o acordo foi a nova geopolítica comercial do último ano, especialmente a postura adotada pelos Estados Unidos, com políticas mais protecionistas, subsídios industriais agressivos e tarifas estratégicas. Esse movimento acelerou a reorganização do comércio global e levou a União Europeia a buscar parceiros confiáveis, diversificar mercados e reduzir dependências. Nesse contexto, o Mercosul passou a ser visto não apenas como parceiro comercial, mas como aliado estratégico em segurança alimentar, energética e produtiva.

Hoje, o comércio entre Mercosul e União Europeia gira em torno de 110 bilhões de euros por ano. Somente entre Brasil e União Europeia, o fluxo comercial supera 90 bilhões de dólares anuais. O Brasil exporta principalmente produtos agrícolas, minerais, café, carnes e soja, enquanto importa da Europa máquinas, veículos, produtos químicos e farmacêuticos. A balança é relativamente equilibrada em valores, mas desigual na composição, com o Brasil vendendo produtos de menor valor agregado e comprando bens industriais e tecnológicos.

Apesar do avanço político, ainda faltam etapas formais. O acordo precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu e ratificado pelos parlamentos nacionais dos países envolvidos. 

Agora no final de janeiro o Parlamento Europeu decidiu encaminhar os termos do acordo para avaliação do Tribunal de Justiça da União Europeia. 

Após a assinatura definitiva, a implementação será gradual, com redução de tarifas ao longo de dez a quinze anos. O mercado formado reunirá cerca de 780 milhões de consumidores e um produto interno bruto combinado superior a 22  trilhões de dólares, configurando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.

Os ganhos imediatos tendem a favorecer o agronegócio brasileiro e a indústria europeia. Os riscos estão concentrados na indústria brasileira menos competitiva, que pode sofrer com a entrada de produtos europeus mais eficientes. Para evitar perdas, o Brasil precisará avançar em inovação, infraestrutura, produtividade, qualificação de mão de obra e redução do custo interno de produção. O acordo abre oportunidades, mas não substitui políticas internas de competitividade.

Mesmo com desafios à frente, este é um momento histórico que merece reconhecimento. Chegar a esse ponto exigiu persistência, capacidade técnica e visão estratégica dos negociadores brasileiros, sul-americanos e europeus. Manter o diálogo por 25 anos, atravessando crises e transformações globais profundas, é um feito diplomático relevante. O desafio agora é aproveitar, com inteligência, as oportunidades que esse novo cenário oferece.

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