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PL é antiliberal, e dianteira de Flávio reflete insatisfação, diz autor de 'Como as Democracias Morrem'
PL é antiliberal, e dianteira de Flávio reflete insatisfação, diz autor de 'Como as Democracias Morrem'
Steven Levitsky diz que senador, se eleito, também precisará negociar com partidos para governar
Por Bárbara Blum/Folhapress
15/10/2026 às 17:30
Atualizado em 15/10/2026 às 17:05
Foto: Divulgação/Universidade Harvard
O cientista político e professor de Harvard Steven Levitsky, autor de 'Como as Democracias Morrem'
O sucesso de Flávio Bolsonaro (PL) nas urnas do primeiro turno das eleições presidenciais não surpreendeu o cientista político americano Steven Levitsky. Um dos autores do best-seller "Como as Democracias Morrem", publicado em 2018, ele já esperava que o candidato que desafia o atual status fosse bem-sucedido.
Um levantamento feito por ele havia mostrado que, desde a pandemia, 74% dos governos incumbentes perderam as eleições nas democracias ocidentais analisadas. Foram 40 de 54. Foi o caso do Brasil, que não reelegeu Jair Bolsonaro (PL) em 2022.
Para o cientista político e professor de Harvard, essa insatisfação é a chave para ler os resultados das urnas do primeiro turno. O resultado positivo nas urnas para Flávio indica, segundo Levitsky, que o país continua insatisfeito com o status quo que o PT de Lula representa. "Não é que essa maioria dos brasileiros seja autoritária. Parte desse eleitorado está votando contra o status quo", afirma.
Levitsky afirma que, se antes o mundo se dividia entre esquerda, centro, direita e suas gradações, hoje o espectro é melhor orientado pela chave do liberalismo e do antiliberalismo, ou seja, o autoritarismo.
A tendência ao autoritarismo é global. Na Alemanha, a AfD é um dos partidos mais populares. Os Estados Unidos são encabeçados por um presidente antiliberal. A defesa da democracia foi um mote abraçado pela campanha de Lula.
"Seria péssimo para a democracia se a defesa dela se tornasse uma questão partidária", diz Levitsky. "Para que a democracia esteja segura, todos os partidos precisam abraçá-la."
Para ele, não é o que ocorre no Brasil hoje. Ele diz que o PL (Partido Liberal), a outra grande legenda em atividade além do PT, é amplamente iliberal. "É um erro de nomenclatura chamá-lo de Partido Liberal", diz.
Levitsky critica, ainda, a falta de atenção do PT para a fragilidade da busca pela reeleição e a resistência aos incumbentes recentemente. Ele diz que o partido deveria ter aprendido as lições deixadas pela campanha à reeleição de Joe Biden, nos Estados Unidos, que acabou com uma renúncia à candidatura, uma campanha às pressas encabeçada por Kamala Harris e culminou na reeleição de Donald Trump.
No ano passado, era do Brasil que Levitsky tirava as lições. O americano viu com bons olhos quando Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, coisa que os Estados Unidos não fizeram quando Donald Trump estava em situação similar.
"É uma mensagem muito melhor do que a dos Estados Unidos, em que as instituições estenderam um tapete vermelho para alguém que tentou derrubar o resultado de uma eleição", afirma.
O candidato do PL se posiciona –e posiciona o próprio pai– como vítimas de uma caça às bruxas. É, como diz Levitsky, uma estratégia empregada por líderes autoritários ao redor do mundo e abraçada por Trump e por Keiko Fujimori, filha do ditador peruano Alberto Fujimori e hoje presidente do país.
Uma das plataformas de campanha de Flávio é conceder o perdão ao pai, movimento que Levitsky vê como "infeliz para a democracia brasileira". Ele afirma, porém, que não seria fatal para o sistema político. "Se essa é a plataforma dele e se ele for eleito pela maioria dos brasileiros, então é isso que terá que acontecer", diz.
Para o cientista político, o alinhamento de Flávio com o pai é mais preocupante para o país do que o alinhamento do candidato do PL com Trump. "Foi o pai dele que tentou derrubar uma eleição".
Levitsky afirma que o Brasil é um país cujo sistema político demanda que alianças para governar. E ele vê potencial nas instituições do país para frear uma guinada autoritária. É o caso do STF (Supremo Tribunal Federal) que, "mesmo em uma crise séria, ainda é uma instituição poderosa".
Ele afirma, ainda, que o Congresso Nacional, mesmo dominado pelo conservadorismo, vai demandar pragmatismo caso Flávio seja eleito. Isso porque, com 121 deputados federais eleitos de 513 vagas na Câmara dos Deputados, e 28 de 81 congressistas no Senado, o PL não tem maioria absoluta no Legislativo. Isso significa que, se alçado à Presidência, o senador precisará negociar a governabilidade.
"Os outros partidos de direita e o centrão vão ser parte da conversa e vão oferecer certas restrições ao potencial autoritarismo de Flávio", diz Levitsky. "Mas sempre que um país elege um presidente que não está totalmente comprometido com a democracia, ainda mais em um país em que essa figura é tão poderosa, é uma ameaça”.
