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Ministério da Prosperidade proposto por Flávio Bolsonaro tem apelo evangélico e coaching

Ministério da Prosperidade proposto por Flávio Bolsonaro tem apelo evangélico e coaching

Superministério prometido carrega gramática religiosa que evoca a Teologia da Prosperidade

Por Anna Virginia Balloussier/Folhapress

15/10/2026 às 18:15

Atualizado em 15/10/2026 às 18:16

Foto: Charles Vieira/Divulgação

Imagem de Ministério da Prosperidade proposto por Flávio Bolsonaro tem apelo evangélico e coaching

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República

No dia 9 de outubro, passados cinco dias do primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) sacou uma proposta que não consta no plano de governo que registrou no Tribunal Superior Eleitoral. "Para esse governo [de Lula], Bolsa Família é o máximo. Para mim, é só o começo. Eu vou criar o Ministério da Prosperidade".

O que o presidenciável sugere, a princípio, é reunir sob uma mesma pasta políticas de assistência social, qualificação profissional e microcrédito. A forma como escolheu batizar esse superministério, prometido caso vença Lula (PT) no segundo turno, também aciona uma gramática religiosa que aproxima fé e empreendedorismo. Se você pensou na Teologia da Prosperidade, você pensou certo.

Ao analisar a ascensão evangélica no Brasil, é inevitável esbarrar no avanço dessa linha teológica. Ela ensina que Deus deseja conceder aos fiéis saúde, sucesso e abundância material já nesta vida, sem deixar a recompensa apenas para o reino dos céus. São bênçãos alcançadas por meio da fé e de práticas como o dízimo.

Ao se comprometer a nomear uma pasta com o termo, a campanha convoca um imaginário religioso entranhado na cultura popular. A proposta, oficialmente, não declara qualquer inspiração religiosa. Na verdade, não sabemos muito sobre ela, já que Flávio não detalhou tecnicamente como funcionaria seu superministério focado em dar autonomia financeira aos beneficiários de programas de transferência de renda.

Em nota, a campanha de Flávio diz que a ideia é "integrar proteção social e mobilidade social", numa iniciativa que "prevê articular programas como o Bolsa Família a políticas de qualificação profissional, incentivo ao empreendedorismo e acesso ao crédito, ampliando as oportunidades de emprego e geração de renda".

"O objetivo é garantir proteção a quem precisa e, ao mesmo tempo, criar caminhos para que mais brasileiros conquistem autonomia financeira, prosperem e construam seu próprio patrimônio".

Yago Martins, pastor batista e autor de "Você É o Ponto Fraco de Deus e Outras Mentiras da Teologia do Coaching", afirma que a integração dessas áreas é defensável. Ele próprio critica a ideia de que o combate à pobreza deva se limitar à transferência de renda.

"Minha preocupação está na embalagem política da ideia. Prosperidade virou uma espécie de palavra mágica, que promete resolver problemas estruturais por meio de uma mudança de mentalidade", diz.

Para Martins, discursos dessa natureza ignoram que a pobreza envolve fatores familiares, educacionais, institucionais e sociais que não desaparecem com mensagens motivacionais.

A economista Deborah Bizarria, colunista do jornal Folha de São Paulo e presbiteriana, aponta a prosperidade como um "léxico comum crente". Ao prometer aplicá-la numa eventual Esplanada, o candidato do PL faz um aceno a evangélicos, mas não só. "Principalmente por trocar o ‘desenvolvimento social’, algo que pode soar como de esquerda para o público do Flávio".

O Ministério da Prosperidade não existiria em paralelo, mas assumiria a gestão dos programas de transferência de renda hoje subordinados ao MDS (Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome), criado inicialmente no primeiro mandato de Lula.

Ao tomar posse, em 2019, Jair Bolsonaro (PL) fundiu o MDS com as pastas do Esporte e da Cultura para formar o Ministério da Cidadania. Lula voltou ao poder em 2023 e recriou o gabinete social.

Para o ex-adversário Renan Santos (Missão), a nova estrutura na Esplanada foi ventilada sem explicações suficientes sobre como funcionaria. Ele criticou a fusão de ministérios sem a apresentação de políticas públicas concretas e classificou a ideia como "tirada obviamente da cabeça do Pablo Marçal", encharcada com "discurso de coach malandro". Marçal, citado como um possível ministro caso Flávio se eleja presidente, não quis falar com a reportagem.

A referência a ele, um empresário e influenciador que combina linguagem coach, empreendedorismo e espiritualidade, ajuda a iluminar o debate. É nesse cruzamento que teólogos identificam uma mutação da Teologia da Prosperidade, associada sobretudo a setores do neopentecostalismo brasileiro, como as igrejas Universal do Reino de Deus e Renascer em Cristo.

A chamada Teologia Coaching atualiza esse repertório. Em vez de enfatizar apenas a fé como caminho para a conquista material, incorpora expressões como alta performance e mentalidade vencedora. "Deus aparece como uma espécie de facilitador dos projetos individuais", afirma Yago Martins. "O problema é que a mensagem cristã acaba sendo profundamente distorcida. O centro da pregação deixa de ser a reconciliação do pecador com Deus e passa a ser a realização dos sonhos pessoais".

O pastor vê uma consequência social aí. "O fracasso é interpretado sempre como culpa do próprio indivíduo. A pobreza deixa de ser vista em toda a sua complexidade e passa a ser tratada como deficiência de mentalidade. O mindset, como Marçal diria".

Ranieri Costa, teólogo e pastor batista, observa uma "evolução hipermoderna" do pacote teológico da prosperidade. "A riqueza agora depende apenas de mudar o mindset, de destravar o destino, de performar mais, de trabalhar enquanto outros dormem, essa coisa toda", diz o autor de "Teologia Coaching: A Ilusória Ideologia de que Nascemos Só para Vencer".

É nesse ponto que Costa vê uma conexão entre o vocabulário religioso e a proposta de Flávio. "Esse tipo de anúncio mostra como essa gramática migrou do meio religioso para o discurso político".

Ao condicionar a superação da pobreza ao esforço individual, essa proposta acaba reproduzindo o coaching, diz. "Se o sujeito não conseguir alcançar a prosperidade que esse ministério diz que deseja oferecer, não vai poder cobrar do político, porque no final das contas quem não consegue prosperar dentro dessa lógica é o próprio culpado".

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