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Entre ataques e defesas: redes sociais se tornam principal trincheira da disputa eleitoral na Bahia
Entre ataques e defesas: redes sociais se tornam principal trincheira da disputa eleitoral na Bahia
Por Denis França
21/09/2026 às 18:00
Foto: Divulgação/Arquivo
Jerônimo Rodrigues (PT) e ACM Neto (União Brasil)
Com a aproximação da reta final da campanha para o primeiro e provável único turno, a disputa eleitoral na Bahia entrou em sua fase mais bélica. Em uma eleição tão acirrada, cada passo e estratégia podem ser decisivos para o resultado final.
A política, que durante meses caminhou no corpo a corpo, entre inaugurações, discursos e eventos, gradualmente atravessa a liturgia da praça pública, mergulhando diretamente no território mais pantanoso: a internet.
Nos últimos dias, chamou atenção a multiplicação de ataques coordenados a ACM Neto por dezenas de perfis nas redes sociais. Mais do que a quantidade, o que desperta curiosidade é a aparente sincronia. Em alguns casos, publicações feitas por perfis um tanto quanto duvidosos reproduziram textos e conteúdos praticamente idênticos, como se diferentes contas tivessem recebido a mesma pauta e, por mera coincidência — demasiadamente conveniente —, decidido publicar a mesma coisa simultaneamente.
A distribuição das publicações, por si só, não revela a digital de quem está por trás da operação. Mas é um indício suficientemente eloquente para uma reflexão: estamos diante de manifestações espontâneas de eleitores reais ou de uma tropa digital sistematizada?
O marketing político digital entendeu há algum tempo que uma narrativa repetida, ainda que deturpada, pode se transformar em assunto. E, em um cenário eleitoral, às vezes basta isso. O objetivo nem sempre é convencer. Pode ser apenas ocupar o ambiente, saturar a ideia e criar uma associação mental para fazer com que o opositor seja desgastado por temas sensíveis.
A esquerda baiana, especialmente o campo petista, aprendeu muito bem a dominar esse terreno. Em 2022, ACM Neto foi alvo de uma série de narrativas e rótulos que ganharam grande circulação e grudaram em sua imagem, deixando uma espécie de manual dessa cruzada digital: atacar primeiro, repetir muito e esperar que o algoritmo se encarregue de perenizar a narrativa.
Não há, evidentemente, monopólio ideológico sobre essa prática. A direita também aprendeu — e muito — a operar as redes sociais como instrumento político, principalmente no cenário nacional. O que muda, em determinados momentos, é a intensidade, a organização e a capacidade de mobilização através da ampla adesão.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das principais fragilidades da campanha oposicionista neste momento.
Enquanto a ala governista apresenta uma aparelhagem digital com capacidade de vasta multiplicação, setores da oposição admitiram, reservadamente a este Política Livre, sentir falta de uma tropa digital mais organizada, capaz de responder aos ataques com a mesma velocidade e intensidade.
É uma reclamação que, embora possa parecer banal, revela uma questão estratégica: campanha eleitoral moderna não se vence apenas com televisão, evento, carreata e discurso. Também se disputa no campo minado das redes, onde minutos podem ser uma eternidade em meio à velocidade da informação.
A campanha de Jerônimo Rodrigues, por sua vez, enfrenta uma fragilidade inversamente proporcional, no campo institucional. O governo, que enfrentou dificuldades para substituir um nome à altura de André Curvello, que deixou a Secom para assumir a diretoria da CNI, percebeu tardiamente que, apesar de ter obras para mostrar, programas para apresentar e realizações que podem naturalmente ser utilizadas como vitrine eleitoral, não conseguiu fazer, ao longo de seu mandato, com que essa comunicação chegasse ao eleitor sem que ela fosse imediatamente engolida pelas dores e deficiências que dominam o cotidiano baiano.
Saúde, segurança e educação tornaram-se o calcanhar de Aquiles de Jerônimo. A controvertida discussão em torno da regulação também permanece no centro do debate político e fonte de maior transtorno para correligionários que assumem não ter condições de defender o petista nesse momento.
Não basta ao governo dizer que está realizando. É preciso comunicar, explicar, responder e, sobretudo, não permitir que a oposição seja a única intérprete dos resultados ou da falta deles. Um governo que não consegue contar adequadamente a própria história acaba permitindo que seus adversários a contem por ele. E, quando isso acontece, a versão que chega ao eleitor raramente vem acompanhada de gentilezas e afagos.
E está justamente nesse aspecto uma das críticas mais recorrentes entre aliados e observadores da base governista: a dificuldade de estabelecer uma comunicação política suficientemente forte para defender as ações da gestão e responder, com rapidez, às críticas da oposição. O problema não seria necessariamente a ausência de realizações, mas a dificuldade de transformá-las em um marco que sobreponha as deficiências.
É provável que essa percepção tenha ocorrido, mesmo que tardiamente, no núcleo de campanha, o que gerou uma mudança de temperatura nas redes ao longo desta semana.
Depois de uma primeira onda concentrada em ataques direcionados a ACM Neto, a estratégia foi ajustada para dar espaço a uma narrativa de defesa de Jerônimo, acompanhada de uma espécie de reconstrução da imagem do governador como alguém injustiçado, o indígena, filho de vaqueiro, que foi muito atacado e pouco reconhecido.
A nova Estação Calçada do VLT passou a ocupar uma posição crucial de destaque nessa nova estratégia de comunicação. A estação foi inaugurada em junho como a primeira entregue dentro do projeto do novo modal, com investimento anunciado de cerca de R$ 13 milhões. E diga-se de passagem, realmente ficou um projeto espetacular.
O fato é que uma obra pública pode, evidentemente, ser motivo legítimo de celebração, mas o problema volta a surgir quando uma entrega pontual se transforma, nas redes, quase em síntese, no marco um tanto quanto diminuto de uma administração inteira.
Por outro lado, ACM Neto precisa, portanto, aprender rapidamente a lidar com uma questão emblemática em sua campanha: não adianta apenas reagir, é preciso ter adesão e presença digital suficiente para conter o avanço adversário, que começou a ensaiar uma retomada do território que outrora estava sob controle.
Jerônimo, por sua vez, tem um desafio quase inverso: transformar governo em comunicação e comunicação em resposta política. Se a estratégia for apenas exibir realizações, enquanto os adversários ocupam o debate com segurança, saúde, educação e problemas administrativos, o governo corre o grande risco de perder a eleição.
No final, os dois candidatos disputam o mesmo espaço na trincheira, ainda que estejam em lados opostos.
E, à medida que a eleição se aproxima da reta final, a pergunta já não é apenas quem tem mais o que mostrar, mas quem conseguirá entender, com maior eficiência, aquilo que o eleitor tem como prioridade quando chegar a hora de escolher seu novo representante.
Veja imagens abaixo:
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