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Baiana que vive em Aracaju diz que Bolsa Família ajuda, mas não define escolha eleitoral

Baiana que vive em Aracaju diz que Bolsa Família ajuda, mas não define escolha eleitoral

Por Flavia Lima, Folhapress

20/09/2026 às 17:11

Foto: Divulgação

Imagem de Baiana que vive em Aracaju diz que Bolsa Família ajuda, mas não define escolha eleitoral

Custo de vida, emprego e segurança pesam mais do que programas sociais

A baiana Laiza Sousa é beneficiária do Bolsa Família, sabe da importância do programa em sua vida, mas esse reconhecimento não basta para fazê-la encarar as cerca de seis horas de ônibus que separam Aracaju, onde mora, de Salvador para votar em 4 de outubro.

Ela sabe que o programa social foi criado durante o primeiro mandato do presidente Lula, mas é enfática. "Sei e isso não é suficiente para eu votar em ninguém."

Por qual motivo isso não basta para votar em Lula? Laiza afirma que há "muita gente corrupta". Pergunto a quem ela se refere e ela me responde que os preços só aumentam.

"Com R$ 500 não se faz nada no mercado, porque está tudo caro. Eles pensam só no bolso deles e esquecem do ser humano, mas tem muita gente aqui que não tem nem o que comer", diz, ao elencar seus gastos: R$ 600 de aluguel, água, luz, internet, alimentação, produtos de uso pessoal e perfumes do Boticário, algo que ama e compra sempre que dá.

Pensando nas pessoas com as quais interage em Aracaju e em Salvador, Laiza tem a impressão de que a maioria vota em Lula, provavelmente por programas como o incentivo financeiro voltado a estudantes do ensino médio, o Pé-de-Meia, e, sobretudo, o Bolsa Família, algo que pode ser reforçado pela decisão do governo de reajustar o programa em 15% às vésperas do pleito.

Ela sugere que essa não deveria ser a razão. "Não, gente, pelo amor de Deus! Acho que [esse tipo de programa] é o mínimo que eles [governantes] podem fazer pelo povo brasileiro. É o básico dos básicos."

Muitos minutos de conversa adiante, admite que o petista já fez coisas boas, mas afirma que ele se envolveu em corrupção, o que a desagrada. De forma alguma, no entanto, faz com que o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, ganhe a sua simpatia—ou o seu voto.

"Nenhum dos dois agrega ao Brasil. São duas pessoas que já se elegeram. Flávio, não, é a primeira vez, mas é do meio de Bolsonaro", diz. "Eu não vi eles melhorarem o Brasil, as coisas só pioram."

Quando fala das coisas que só pioram, Laiza diz que sente falta principalmente de bons postos de trabalho. "Tem muita gente em situação complicada porque não arrumou trabalho. Até porque, hoje em dia, para trabalhar tem que ter uma escolaridade boa, no mínimo um segundo grau."

Laiza não era nascida quando Lula assumiu o governo pela primeira vez. Aos 22 anos e com um filho de três, a baiana faz EJA (Educação de Jovens e Adultos), está na última etapa do ensino fundamental e pretende concluir o ensino médio em dois anos.

Depois disso, diz não ter paciência para uma faculdade, então planeja fazer um curso técnico de enfermagem.

Laiza trabalha desde os 14 anos. Já fritou pastel, cuidou de caixa de loja, vendeu açaí e trabalhou em fábrica de cadeira de fibra sintética.

Hoje, é atendente em uma pequena mercearia na avenida da praia, de domingo a domingo, das 7h às 15h. Ganha um salário mínimo, tem uma folga por semana mais um domingo ao mês. Está orando, segundo ela, pelo fim da jornada 6x1, sem ter muito claro que a mudança, se aprovada, nem sob reza a favorecerá.

No âmbito do Bolsa Família, recebe R$ 600, acrescidos de R$ 150 por ter um filho. Diz que cumpre todas as contrapartidas do programa—escola, carteira de vacinação em dia— e que as considera relevantes.

Para ela, no entanto, muita gente se acomodou com o programa, que pode se transformar em "ilusão pura" pela possibilidade de ser bloqueado por uma exigência não cumprida ou por uma carteira assinada.

Ainda assim, diz que não teme perdê-lo. "Se eu vivesse só da renda do Bolsa Família, sim, eu teria medo de perder. Mas eu trabalho, entendeu?".

Laiza nasceu em Salvador, cidade de 2,5 milhões de habitantes, mas há sete meses mudou-se para Aracaju, de 600 mil habitantes.

Agora está perto da mãe, que já há alguns anos tem um novo companheiro e lhe deu uma irmãzinha. A outra irmã, um pouco mais velha do que Laiza, que chegou a ajudá-la a cuidar do filho então recém-nascido, morreu de leucemia.

Na capital baiana, Laiza morava no Bairro da Paz, mas diz que foi exatamente a falta de tranquilidade que a fez deixar o quintal da família. O desassossego veio de brigas com parentes, explica, que a desestabilizaram bastante.

O bairro soteropolitano, diz ela, já foi muito inseguro, com "muita guerra e traficantes", melhorou, mas não se compara a Orlando Dantas, em Aracaju, cidade mais tranquila. Para Laiza, não enxergar progressos de maneira disseminada faz da segurança outra de suas preocupações centrais.

Diz que odeia violência e que por isso deixou de ver jornais na TV. "Você liga a televisão e é homem matando mulher, mulher matando homem, pai estuprando filho."

Laiza declara-se negra. Com uma mãe Testemunha de Jeová, decidiu recentemente seguir o candomblé e diz que já sofreu preconceito por isso, sobretudo de cristãos. "O povo diz: ‘quem é do candomblé não tem fé em Deus’. Mentira. Eu tenho fé, falo de Deus e escuto louvor dentro de casa, mesmo sendo de outra religião."


É a religião que a ajuda a atravessar o momento pessoal difícil pelo qual está passando—período em que se viu obrigada a deixar o filho aos cuidados do pai em Salvador—, ao lado da terapia e de alguns amigos, com quem procura "esquecer um pouco do mundo".

Superada a etapa, diz que tem um sonho: aos poucos, está montando um pequeno negócio de manicure e que, com os recursos que conseguir tirar daí, vai pagar o curso técnico de enfermagem.

A ideia é empreender para dar uma vida melhor ao filho e ajudar outras crianças, o tipo de desejo que gostaria de enxergar no presidente do país. "Tanto faz homem ou mulher, preto ou branco, religioso ou não, desde que fosse alguém menos hipócrita e que pensasse mais no bem-estar do outro, não só em si."

Mas, se nenhum candidato a convenceria a ir às urnas, Laiza acaba concedendo ao dizer que existe um pior. "Bolsonaro. As coisas que ele falava e fazia eram inadmissíveis, ainda que, na época da pandemia, ele tenha ajudado muito com o tal do auxílio emergencial. Fora que é bem intolerante, racista e só pensa em si."

Diante da lembrança de que o candidato é o filho, Flávio, diz ser "tudo a mesma cara". "Como a gente costuma dizer, os filhos são espelhos dos pais."

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