Ameaça de Trump às exportações de diesel alarma mercado no Brasil
Por Nicola Pamplona, Folhapress
23/09/2026 às 17:40
Foto: Marcelo Casal Jr./Agência Brasil/Arquivo
Em setembro, cerca de 80% das importações brasileiras de diesel vieram de refinarias nos Estados Unidos, segundo a Abicom
A ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre as exportações de diesel daquele país acendeu um alerta no mercado brasileiro, que conta com fornecedores americanos para cobrir o déficit de produção interno.
Em setembro, cerca de 80% das importações brasileiras de diesel vieram de refinarias nos Estados Unidos, segundo a Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis). O Brasil importa cerca de 30% de seu consumo do combustível e tem vivido episódios pontuais de desabastecimento.
"Se Trump proibir as exportações de diesel, os importadores brasileiros terão grande dificuldade para continuar com as operações", disse o presidente da Abicom, Sérgio Araujo. A entidade representa dez empresas que têm como principais clientes no Brasil distribuidoras de combustíveis regionais.
O presidente dos Estados Unidos comentou o assunto nesta quarta-feira (23) durante encontro com o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski. O republicano disse que o país exporta muito diesel e defendeu uma suspensão temporária, que poderia reduzir os preços internos do combustível.
"Eu já disse que não devemos exportar diesel", afirmou ele aos repórteres presentes. "Já defendi isso junto à minha equipe". A medida dependeria, segundo Trump, de estudos sobre os efeitos na produção de gasolina nas refinarias do país.
Executivos de grandes distribuidoras também demonstraram preocupação em conversas com a Folha, embora alguns tenham o sentimento de que a ameaça não se realizará, diante da possibilidade de judicialização pelas empresas exportadoras.
Os Estados Unidos substituíram a Rússia como maior fornecedor do Brasil depois que Moscou suspendeu as exportações daquele país em meio a ataques ucranianos a importantes refinarias. Sem o diesel russo, o mercado brasileiro teve que se voltar para as refinarias americanas.
A ameaça de corte nas exportações ocorre em um cenário de mercado já afetado pelas guerras na Ucrânia e no Irã e às vésperas do mês de maior consumo de diesel no Brasil, com o uso do combustível no escoamento da produção agrícola e no plantio da próxima safra.
"Todos estamos preocupados", afirmou em evento no Rio de Janeiro o especialista em refino da S&P Global Felipe Perez. "Sabemos que o mundo inteiro está numa restrição de volumes, e agora tem essa decisão dos Estados Unidos".
O presidente da Vibra Energia, Ernesto Pousada, respondeu não acreditar que a medida seja de fato implementada e disse que, caso seja, a empresa tem buscado diversificar suas fontes de suprimento do combustível.
No mesmo evento, a diretora de Comercialização, Logística e Mercado da Petrobras, Angelica Laureano, disse que a empresa já encomendou 650 milhões de litros do combustível para outubro, o suficiente para atender seus contratos.
"Não há nenhuma preocupação [com o suprimento de outubro]", afirmou ela, em entrevista à agência Eixos. Angélica afirmou ainda que ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) e MME (Ministério de Minas e Energia) consideram que o mercado estará abastecido no próximo mês.
Fontes do setor dizem, porém, que eventual suspensão das exportações americanas pode pôr em risco o abastecimento de novembro —já que o consumo tende a crescer na Europa, gerando maior disputa pelo produto e maiores preços.
Na semana passada, o custo para importar diesel para o mercado brasileiro bateu recorde, segundo a ANP. A paridade de importação calculada pela agência chegou perto de R$ 7 por litro em alguns portos. É mais do que o dobro dos cerca de R$ 3 registrados no início do ano.
O governo está hoje pagando um subsídio de R$ 2,12 por litro, mas a defasagem segue elevada, desestimulando importadores privados e pressionando o preço final do produto.
Na abertura do mercado desta quarta, por exemplo, o litro do diesel vendido nas refinarias da Petrobras custava, em média, R$ 3,44 a menos do que a paridade de importação medida pela Abicom. Ou seja, mesmo com o subsídio, a diferença é de R$ 1,32 por litro.
