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Abin alerta governo e TSE sobre nível 'crítico' de escalada de pressão dos EUA contra o Brasil nas eleições
Abin alerta governo e TSE sobre nível 'crítico' de escalada de pressão dos EUA contra o Brasil nas eleições
Por Mônica Bergamo, Folhapress
19/09/2026 às 07:27
Foto: Ricardo Stuckert/PR/Arquivo
Documento afirma que governo Trump quer apoiar governos conservadorespara reorientar política externa de países da América Latina
Um relatório reservado da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) sobre "ameaças ao processo eleitoral de 2026" elevou a possibilidade de influência e interferência externa dos EUA nas eleições brasileiras a um "nível de criticidade".
O documento foi enviado à Presidência da República, ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e ao Ministério da Justiça no fim de agosto.
O texto vê uma "tendência de escalada de pressão sobre o Brasil" e alerta que "observa-se intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA" sobre o país, "sem ruptura de um padrão estrutural de influência já existente".
A Abin contextualiza o problema dizendo que "a reafirmação da hegemonia dos EUA na América Latina é prioridade do segundo governo [de Donald] Trump".
Citando documentos estratégicos do governo norte-americano divulgados entre novembro de 2025 e maio de 2026, a agência afirma que os objetivos de Trump são a "redução da influência de potências rivais dos EUA na América Latina e de negação do acesso dessas potências a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas na região, em favor de seu controle, direto ou indireto, pelo governo dos EUA ou pelo capital privado estadunidense".
Para a Abin, o Brasil se destaca na América Latina por ter hoje um "governo com maior disposição política e meios para defender sua autonomia estratégica, ante as pressões estadunidenses por concessões e realinhamento geopolítico".
Por isso, virou alvo de pressões e retaliações norte-americanas em diversas frentes.
A agência diz que, a despeito do recuo de Trump e da distensão das relações bilaterais, "as ações estadunidenses desde maio indicam tendência de escalada de pressão", especialmente depois que o governo de Trump passou a designar organizações criminosas brasileiras como "terroristas" e anunciou novas retaliações comerciais contra o país.
Para a Abin, o anúncio, em julho, de sanções contra dois brasileiros e três empresas sediadas no Brasil e uma em Portugal por supostos vínculos com redes de lavagem de dinheiro associadas ao PCC "representa mudança de fase na escalada de sanções e interferência estadunidense".
A pressão de Trump "passou a produzir efeitos concretos contra pessoas físicas e jurídicas brasileiras".
"Com isso, a ação de interferência externa dos EUA passa a incidir diretamente sobre relações financeiras, reputação empresarial, acesso ao dólar, operações internacionais e exposição de terceiros a riscos de sanções secundárias", segue o relatório.
"O episódio reforça a avaliação de que a interferência externa dos EUA sobre o Brasil ocorre de modo gradual, combinado e adaptativo", alerta o órgão.
"Observa-se sequência de atos compatível com padrão já identificado: enquadramento de organização criminosa brasileira como ameaça à segurança nacional dos EUA; construção de narrativa sobre sua atuação transnacional; vinculação do tema ao sistema financeiro estadunidense; e adoção de medidas sancionatórias específicas contra indivíduos e empresas brasileiras".
Os EUA, com isso, "ampliam o potencial de efeitos extraterritoriais sobre bancos, fintechs, empresas, prestadores de serviços e cadeias produtivas brasileiras".
As sanções diretas podem, segundo o alerta da Abin, "induzir agentes econômicos nacionais e estrangeiros a adotar condutas preventivas baseadas em risco reputacional, acesso ao sistema financeiro estadunidense ou receio de sanções secundárias".
O Secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional, Marco Rubio merece atenção especial do relatório.
Nele, a Abin afirma que Rubio "atribuiu ao presidente brasileiro [Lula] a responsabilidade pela imposição de tarifas" contra produtos brasileiros, "sob o argumento de que o Brasil não teria 'negociado de boa fé'".
Para a agência, "a declaração insere caráter personalista à ação política estadunidense e tem potencial de impactar o debate púbico sobre o tema no Brasil, uma vez que a narrativa passou a ser reproduzida e amplificada por veículos de comunicação, agentes econômicos, analistas e atores políticos nacionais".
A atuação de Rubio, segundo o relatório, apresenta componente ideológico e "busca influenciar e reorientar a política externa dos países da região [América Latina]".
O objetivo seria distanciar as nações da China, reorientando a política interna "por meio de apoio à ascensão de governos conservadores".
A Abin lembra que Rubio, em audiência no Senado dos EUA em junh, relacionou a recuperação da hegemonia dos EUA na América Latina "à ascensão de governos alinhados aos EUA".
A América Latina, disse então Rubio, "se tornara, no governo Trump, região repleta de governos 'amigáveis'aos EUA", excetuando-se "os governos de Brasil, Colômbia (então sob Gustavo Petro), Cuba, Nicarágua e Venezuela".
Em outubro do ano passado, o governo Trump tentou impor ao Brasil que "dissidentes políticos" pudessem participar das eleições.
Minuta proposta pela Casa Branca no formato de declaração conjunta dizia que "o Brasil se compromete a realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 e não deterá, prenderá nem limitará arbitrariamente, de qualquer outra forma, a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral".
O documento foi revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Em entrevista à rádio Itatiaia na quinta (17), Lula classificou o documento dos EUA como um "arquivo morto" para seu governo e disse ser inaceitável que os americanos queiram ter prioridade na riqueza mineral do Brasil.
